DIREITO AUTORAL

Mais um passo em relação à tão sonhada integração latino-americana:

A Associação Brasileira de Cineastas (ABRACI) e a Federação de Escritores e Diretores Audiovisuais Latino-Americanos (FEDALA) realizam, entre os dias 26 e 28 de novembro, o primeiro workshop da Federação no Estado do Rio de Janeiro. Reprepresentantes de sindicatos audiovisuais e advogados da área de propriedade intelectual de países da América Latina, como Argentina, Bolívia, Chile e Peru, e da Europa (França e Espanha) estarão presentes. O Workshop Fedala é um evento anual, sendo esta a segunda edição no Brasil.

O objetivo é discutir os direitos autorais de escritores, roteiristas e diretores brasileiros. No sábado, dia 28, José Vaz, representante do Ministério da Cultura, fala sobre a modernização da Legislação Brasileira de Propriedade Intelectual para cinema e TV (autores, roteiristas e diretores do audiovisual). O evento contará com a presença de 30 convidados, incluindo os roteiristas de cinema e televisão Ícaro Martins, Walcyr Carrasco, Marcílio Moraes e Di Moretti, além dos convidados internacionais.

A Federação de Escritores e Diretores Audiovisuais Lationamericanos, criada  em 2003  na cidade do México, luta pelo reconhecimento completo dos direitos do autor do audiovisual e representa autores do audiovisual da América Latina. A  Associação Brasileira de Cineastas - RJ foi fundada em 1975 no auditório da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do RJ com o objetivo  de estudar, divulgar e defender o cinema brasileiro. 

Programação:

 Quinta feira 26 de Novembro- DIA I – ABERTURA CONFRATERNIZAÇÃO

18:00 – TARDE – COQUETEL DE ABERTURA:

 ABERTURA dos Seminários FEDALA e FITEC (Diretores-Roteiristas-Técnicos do Audiovisual)

 Coordenação ABRACI – AR 

Participação: Minc, Apaci e demais Organizações Membros da Fedala no RJ.

 1.     Boas vindas aos Convidados Internacionais e Nacionais da parte dos Anfitriões do evento no Rio – Apresentação das Autoridades Audiovisuais, representantes do Governo e patrocinadores do Evento

2.     Apresentação das Delegações e Participantes por Jim Wilson UNI-MEI

3.     Porque as Organizações Latinoamericanas de Cinema trabalham juntas? (Uni-Mei-Fedal-Fitec)

20:00 HS. Encerramento da abertura:

9:30 – MANHÃ- INTRODUÇÃO -

 Sexta feira 27 de Novembro - DIA II -

 1.     Introdução ao tema: Direitos Autorais e Direitos dos trabalhadores do Audiovisual na América Latina, Sinergia entre Sindicatos e Sociedades de Gestão.

(Palestra: Rolando Santos- Coordenador Fedala)

 PAINEL BRASIL (Coordenado por ABRACI e AR )

 2.     Status do Direito de Autor e Gestão Coletiva  e direitos morais do autor no Brasil.

Autores audiovisuais brasileiros podem hoje arrecadar seus direitos de propriedade intelectual? Qual a situação atual das associações de Diretores e Roteiristas com relação ao Direito do Autor e Gestão Coletiva no Brasil? Que perspectiva de cobrança e gestão têm essas associações?

(Palestrantes : ABRACI – AR – APACI -  )

Representantes da AR: Marcilio Moraes, Fernando Rebello  e Walcyr  Carrasco

Representantes da AC: Di  Moretti 

Representante da APACI: Ícaro C. Martins

Mediação : Abraci :

3.     Sociedades de Gestão no Brasil -Brasileiras e Internacionais

             

-                       Que Direitos se arrecadam no Brasil para Diretores e Roteiristas Estrangeiros, quais são as Sociedades de Gestão habilitadas no Brasil?

Roberto Melo (ABRAMUS) e Vanisa Santiago (SGAE)

Representante da AR: Fernando Marés Representante Apaci: Icaro Martins

 13: HS ALMOÇO

 14:30 HS – TARDE –

 4.     A Formação de uma Sociedade de Gestão de D. Autorais Audiovisual Brasileira:

 Proposta da AR /Proposta da AC:

Proposta ABRACI E APACI: Icaro Martins /Rose La Creta

Mediação: advogada Vanisa Santiago

PAINEL LATINOAMERICANO,

Informação de cada país sobre suas conquistas principias, obstáculos e perspectivas na percepção e gestão dos direitos do autor do audiovisual- Os direitos dos autores roteiristas na América Latina

 5.     Mesa : “STATUS CAPACITAÇÃO  e INFORMAÇÃO”

Asoprod – Assoc.de Produtores e Realizadores do Uruguay, e Assoc.Produtores da Bolívia.

(Palestrantes: Ariel Gamboa e Ana  Jancsó)

6.     Mesa: “STATUS EM CONSTRUÇÃO”, Chile, Peru y Colômbia /

(Sindicato de Roteiristas do Chile, Associación de Produtores e Diretores do Perú, Assoc. de Roteiristas Colombianos e FEDEIMAGEN Produtores e Realizadores da Colômbia)

(Panlestrantes Jorge Ramirez, Judith Velez , Alexandra Restrepo, Camila Loboguerrero y Adriana Saldarriaga ) 

 7.     Mesa: “STATUS CONSOLIDAÇÃO ” de Grêmios  e Gestão Coletiva:

La Gestión Colectiva de Autores Directores y Guionistas de Argentina

(Palestrante: Sergio Vainman (Argentores) y Roly Santos

8.     CISAC :

De que forma CISAC pode ajudar na criação e consolidação de Novas Sociedades de Gestão Coletiva na America Latina ? Quais as recomendações para os Criadores do Audiovisual que ainda não recebem benefícios da Propiedade Intelectual ?

 (Palestrante Eric Baptiste – Director Cisac)

SABADO 28 de NOVEMBRO - FEDALA WORKSHOP:

9:30 HS MANHÃ

 9.     Modernização da Legislação Brasileira (Propriedade Intelectual - Cinema e  televisão para autores roteiristas e diretores do audiovisual )

                                                                                                                              

A proposta e o projeto brasileiro em discusão :

Quem participa de sua elaboração ?  Sua aprovação é factível ?

Representante do MINC  José Vaz .

Representante da APACI: Ícaro C. Martins

Representante da AR: Sylvia Palma e Renê Belmonte

Mediação Abraci : Rose La Creta

 

 PAINEL INTERNACIONAL

 Espanha e os Direitos Autorais do Audiovisual– Que Direitos se arrecadam na Espanha e em Portugal ? Quais os diferentes caminhos que têm Diretores e Roteiristas Latino americanos para receber direitos por suas criações exploradas na  Espanha?

Palestrantes (J.L.Dominguez-DAMA, Gonzalo Ezpondaburu  SGAE Brasil)

Grêmios vs. Soc.de Gestão Coletiva – Qual é a relação entre as associações e as sociedades de gestão coletiva do Audiovisual na Europa ? Quais os  principais desafíos que enfrentam  Diretores e Roteiristas no continente  Europeo)

Palestrante : (Johannes Studinger y Jim Wilson)

MESA REDONDA

 ACORDOS INTERNACIONAIS (Coordenador do Painel,)

Qué tipos de convenios Recíprocos podem criar os membros da Fedala com as demais associações ? Quais os Catálogos-Base de Dados e ou Patrimônio Audiovisual das organizações da Fedala? (espanhol e português).

11:30

MESA DE TRABALHO REDAÇÃO E DECLARAÇÃO FINAL - CONVÊNIOS.

 • Formação da Comissão de Redação da Declaração – Resolução

Mesa Redonda, debate aberto, apresentação de propostas e plano de ação - conclusões

gerais. Redação da Declaração Final Workshop Fedala em  São Paulo .

 

• Leitura e Assinatura da  Declaração final ,  Convênios entre Organizações.

Coordenação do Painel: Icaro Martins (APACI) , ABRACI .

 17 HS FIM do Encontro Fedala – Brasil.

 18:00h Encontro com o público, Associados ABRACI e Palestrantes.  

CHEGOU O DVD "ELAS CANTAM ROBERTO"

Como eu imaginava, o DVD "Elas cantam Roberto" saiu e está bem melhor do que a versão mal editada do show que a Globo exibiu em um domingo de maio último. Se mesmo mal editado, o show foi o que foi, imagina a versão do DVD que inclui as performances de Zizi Possi (Proposta), Celine Imbert (A distância), Daniela Mercury (Se você pensa), Wanderléa (Você vai ser o meu escândalo), Rosemary (Nossa canção), Paula Toller (As curvas da estrada de Santos), Marina Lima (Como dois e dois), Mart'nália (Só você não sabe), Adriana Calcanhoto (Do fundo do meu coração), estranhamente excluídas da versão televisiva.

Curiosamente, na versão do DVD também houve exclusões de duas apresentações exibidas na TV: o dueto de Daniela Mercury com Wanderléa, e Ivete Sangalo cantando "Os seus botões", mas permanecem os outros números já vistos na TV: Hebe Camargo, Luiza e Zizi Possi, Alcione, Fafá de Belém, Fernanda Abreu, Marília Pera, Sandy, Cláudia Leitte, Nana Caymmi, Ana Carolina (que coisa deslumbrante é "Força estranha" na voz dessa mulher?)e Ivete Sangalo

Olha, se este show não vencer qualquer uma das premiações como melhor show em DVD no próximo ano, será uma tremenda injustiça. O trabalho é fantástico, e embora não inclua, por óbvias razões, toda a extensão da obra de Roberto Carlos, é uma boa amostragem daquilo que o Rei fez como autor / compositor ou apenas como intérprete de canções de outros compositores.  Ele aparece cantando pela milionésima vez "Emoções" e pela milionésima vez cantou maravilhosamente bem, como somente ele é capaz de fazer com essa canção. Ao final, todo o grupo de mulheres se junta a ele em "Como é grande o meu amor por você", em momento apoteótico.

RC é um dos raros exemplos de artista popular que dialoga com públicos de todas as classes sociais sendo uma das referências artísticas mais importantes de identificação da cultura brasiliera. É praticamente uma instituição nacional, mas um homem extremamente simples que fala de coisas banais e prosaicas como paixão e amor com tanto sentimento que é difícil resistir às suas músicas.

No DVD, há cenas de bastidores com depoimentos interessantíssimos das senhoras que fizeram o show, como aquilo que diz Zizi Possi situando um paralelo entre as diferentes fases do artista e seu desenvolvimento e amadurecimento como homem.  Ou o que disse Celine Imbert, uma cantora lírica pouco conhecida do grande público, sentindo-se "um peixe fora d'água" por estar presente em um grupo de cantoras populares.

Outras três se referem às canções de RC como parte de suas memórias afetivas (da minha também, como ouvi músicas de Roberto no som do carro em viagens pelo Brasil afora nas inúmeras transferências do meu pai pelo eixo Recife - Rio - Brasília) ou da "alma feminina" do Rei, que é capaz de falar sobre corações partidos, abandonos, dor de corno e desabafos como ninguém. Ela estavam em estado de graça. Era vísivel.

Monique Gardenberg, a diretora, ex-produtora do antigo Free Jazz que se tornou cineasta e diretora de shows, vem se destacando como uma interessante diretora também de TV. É ela a responsável pela versão televisiva (em formato de seriado) de seu filme "Ó paí, ó", já na segunda temporada com dois episódios exibidos.

Recomendo o DVD. É um belo presente de Natal.

QUANDO MULTAR É MAIS FÁCIL

Dirijo pela cidade todos os dias em torno de 50 quilômetros. Vou à UFPE, na Cidade Universitária, pelo Ipsep. Circulo por Casa Forte, Madalena, Espinheiro, Boa Vista.  Moro em Candeias, e por isso meu percurso diário começa na Avenida Bernardo Vieira de Melo, por toda a sua extensão, a partir de piedade em direção a Boa Viagem, entro pela Avenida Boa Viagem, igualmente por toda a sua extensão, até chegar ao Pina, em direção à Avenida Agamenon Magalhães.

Sabe que eu noto, depois de passar o dia me deslocando por esses bairros?

Somente ao longo das avenidas Bernardo (toda ela), Boa Viagem (toda ela) e Agamenon (até mais ou menos o Hospital da Restauração) é que você encontra aqueles zelosos servidores chamados de "fiscais do trânsito", aqueles mesmos que anotam placas de carro e lhe imputam multas que, às vezes, são apenas ficções de suas cabecinhas. Quem não tem uma história de multa atribuída a si quando sequer esteve no dito local em que foi multado?

Pois bem, voltando ao foco principal. A pergunta que não quer calar: por que somente se encontram esses eficientes fiscais ao longo do trecho que vai da Benardo a Agamenon? No resto da cidade, ninguém os vê. Eu, pelo menos, não os vejo. E olha que dirijo bastante.

Não é interessante? Em todas as esquinas desses percursos existem um ou duplas anotando placas. Em todas as esquinas. Por que será? Mas, eu insisto: por que será que existem apenas nesse trecho?  E quanto aos engarrafamentos provocados por carroças, batidas rídiculas que não causam qualquer problema que mereça paralisar o trânsito, estacionamentos em fila dupla, ambulantes que estacionam na rua seus carrinhos de carregar bebidas para levar à praia, dificultando a passagem dos carros. E o que dizer dos ônibus de turistas, enormes, parados em frente aos hotéis? Onde estão os fiscais do trânsito nessas horas?

Sabe do que mais, eu sei exatamente a razão pela qual eles só se encontram em tais percursos e posições, e apenas anotando placas. E tenho certeza que os outros cidadãos que, como eu, pagam tributos e impostos regiamente,  inlcusive as multas de trânsito, sabem exatamente a resposta...

Ou alguém tem alguma dúvida?

ANSELMO DUARTE (1920-2009)

Anselmo Duarte, recentemente falecido, foi o maior galã do cinema brasileiro na década de 1950, mas já despontando para o estrelato nos últimos anos da década de 1940. Protagonizou dramas românticos, biográficos (fez um inesquecível retrato do compositor Zequinha de Abreu em "Tico-tico no Fubá", em 1952, talvez a sua atuação mais famosa), comédias e até chanchadas, transitando entre dois dos maiores estúdios de cinema do período, a Vera Cruz e a Atlântida.

A partir dos anos 1960, sua carreira como ator declinou. Não porque lhe faltasse carisma, mas sim porque escolheu como prioridade artística dirigir filmes, o que começou a fazer ainda no final dos anos 1950, com "Absolutamente Certo". O filme, sobre os bastidores de um programa televisivo em que, além de dirigir, escreveu o roteiro e atuou como protagonista, foi bem recebido pela crítica e público, o que lhe abriu as portas para realizar aquele filme que seria a sua obra-prima como realizador e através do qual entraria para a história do cinema, do cinema mundial.

"O Pagador de Promessas" (1962) é um marco no cinema brasileiro, não apenas porque é um grande filme, mas porque fez o Brasil ganhar a sua (até hoje) única Palma de Ouro no badalado Festival de Cannes, como melhor filme, derrotando obras-primas como - atentem para a longa e prestigiosa lista: Robert Bresson com "O Processo de Joana D'Arc",  Michelangelo Antonioni com "O Eclipse", Buñuel com "O Anjo Exterminador", Agnès Varda com "Cleo de 5 às 7",  além de Sidney Lumet com "Longa Jornada Noite Adentro",  Otto Premminger com "Tempestade sobre Washington", Pietro Germi com "Divórcio à Italiana", Michael Cacoyannis com "Electra",  Jack Clayton com "Os inocentes" e mais John Frankenheimer, Tony Richardson, Satyajit Ray, Aleksandar Petrovic, Yves Allégret,  Jacques Severác, Luís Garcia Berlanga, no total de 34 filmes de diretores de todo o mundo.

Do júri que o escolheu faziam parte o escritor Romain Gary e o cineasta François Truffaut, entre outros, e de quebra o filme ainda recebeu uma indicação para o Oscar de filme estrangeiro, sendo o primeiro brasileiro a conseguir tal proeza. Com toda essa glória, Anselmo Duarte era discriminado no Brasil pela panelinha do cinema novo, à frente Glauber Rocha, que não via méritos em "O Pagador de Promessas", apenas uma reprodução do cinema dominante de Hollywood.

Depois de sua premiação, com o prestígio que conseguira na Europa, dirigiu mais seis longas e três episódios de filmes com vários diretores, mas nenhum com o destaque de "O Pagador...". Continuou a trabalhar como ator no cinema, mas também com participações restritas e coadjuvantes, como em "O Caso dos Irmãos Naves", fazendo aparições até mesmo em pornochanchadas. Parece que não se interessava por televisão, fazendo única participação na novela "Feijão Maravilha" (1979), que pretendia fazer homenagem às chanchadas, mas que fracassou em audiência. Depois desta, apenas mais duas participações nos filmes "Tensão no Rio" e "Brasa Adormecida". Sua carreira estava encerrada.

Nos últimos anos parecia amargurado com a falta de reconhecimento público de sua obra e pelo já clássico descaso brasileiro com a memória dos artistas do passado. Soube, dias antes da sua morte, que a Academia Brasileira de Cinema irá homenageá-lo na premiação do próximo ano. Agora deverá fazer postumamente. Ainda assim, é válido, uma vez que os homens morrem, mas as suas obras permanecem. E devem ser cultuadas.

Que Anselmo Duarte esteja em bom lugar, agora!

ÁGUA FRIA NA FERVURA DA CAPOEIRA

Sob o ponto de vista técnico, até que "Besouro", o filme brasileiro sobre o lendário capoeirista, funciona muito bem, sobretudo se for levado em consideração a quase ausência de um subgênero de filme de luta na cinematografia brasileira em décadas. Contratou-se inclusive o especialista de "O Tigre e o Dragão", de Ang Lee, para orientar os brasileiros na coreografia e efeitos que suspendem os atores no ar nas sequências de luta.

O problema de "Besouro" está situado ao nível de sua pré-produção porque o filme surge de um roteiro capenga, cujo enredo não faz jus ao personagem e à situação que conta, além de ser agravado por diálogos artificiais e risíveis que emprestam pouca credibilidade àquilo que é dito. Para piorar são falados por atores ora inexpressivos ora mal dirigidos no que tange à atuação.

O que quero dizer é que tanto roteiro quanto direção não articulam satisfatoriamente os três níveis que, aparentemente, a produção ambicionou.

Primeiro, a da narrativa do filme de gênero ação-luta, porque as sequências de capoeira, embora razoavelmente produzidas, são acanhadas em termos de tempo de duração, sendo solucionadas muito rapidamente, provavelmente em função de um orçamento restrito. E isso como se sabe é, para o público de cinema, que admira cenas de ação, equivalente a jogar água fria na fervura da capoeira.

Segundo, a história do personagem Besouro é superficialmente exposta porque não dimensiona adequadamente, pelo menos para mim, a relevância de alguém que de fato existiu mas resiste como referência mítica para um grupo cultural específico.

O terceiro problema da narrativa é decorrente do segundo no sentido de que a questão cultural afro-brasileira posta e atrelada ao personagem (quero dizer, religião, sexualidade, costumes, preconceito, discriminação racial e social etc) fica a reboque dessa vulnerabilidade do roteiro, não sendo adequadamente apresentada.

Ao que parece avaliou-se que os três níveis eram importantes para o filme em questão, mas nenhum desses consegue efetivamente acontecer e empolgar. Claramente, é um trabalho que pretendia ser uma homenagem e um produto de entretenimento, mas fica a meio caminho dos dois objetivos, lamentavelmente.

No entanto, em meio a tantos rostos novos e inexperientes no elenco e imperfeições em todos os setores, o pernambucano Irandhir Santos (Baixio das Bestas, A Pedra do Reino) na pele de Noca de Antônia, o capataz do coronel, tem uma atuação perfeita, dessas interpretações coadjuvantes que não apenas roubam a cena dos companheiros como também todas as cenas do filme, indistintamente.

NAUFRÁGIO GERAL

Glauber Rocha disse certa vez que, para ele, era muito fácil fazer um filme nos moldes de Hollywood. O problema é que o cineasta não estava interessado nisso, queria realizar obras que representasssem o Brasil e o seu povo sem estereótipos.

Bom, Glauber morreu já faz quase 30 anos e talvez se decepcionasse com o cinema nacional que se faz atualmente, boa parte dele emulações do cinema hollywoodiano, muitos bem interessantes e outros francamente ruins, como este "Salve Geral", misto de filme de ação e drama penitenciário classe C.

Não tenho nada contra seguir formulações hollywoodianas. Afinal, cinema é indústria e o que rende nas bilheterias são filmes padronizados etc. Não vou teorizar sobre isso aqui porque ando escrevendo uma extensa tese sobre tal assunto, de modo que vou poupar meus dois ou três leitores do aborrecimento.

Mas, já que vamos fazer filmes industriais, pelo menos façamos bem. O que não se admite, a meu ver, é se apropriar de fatos de uma dada realidade nacional, como o evento retratado no filme, que custou vidas de inocentes e transformou a cidade de São Paulo em cenário de guerra no dia das mães de 2006, para produzir um filme de ficção que deturpa a objetividade da tragédia, criando uma inconsistente e implausível tese sobre bandidos e criminosos metidos a revolucionários de uma justa causa, atrelados a uma facção criminosa auto-denominada de "partido". Olha, quer saber? Aquele personagem do "professor" não é nada além de uma grande empulhação.

O roteiro esquemático parte de um argumento pretensamente humanizador e redentor - a mãe ingênua e bem-intecionada que faz de tudo para retirar seu filhinho adolescente da cadeia, posto lá pelas atitudes inconsequentes de juventude - para dar alguma credibilidade à sucessão de sandices que são postas na tela que mataria de vergonha até mesmo o mais idiota roteirista de seriados de terceira da TV dos EUA.

A coisa só não fica pior porque Andréa Beltrão é uma atriz de primeira, capaz de tornar minimamente crível o seu débil personagem, sendo o desperdício maior o de Denise Weinberg, uma atriz de presença cênica poderosa que se vê obrigada a dar substância a um personagem extremamente manjado, a advogada corrupta que trabalha para o crime organizado, um dos clichês mais óbvios dos seriados policiais.

Não há nenhuma reflexão sobre aqueles acontecimentos; tudo é vomitado pelo roteiro apenas para funcionar como pano de fundo da historinha medíocre de mãe e filho, e - claro - para servir a uma esdrúxula ideologia esquerdizante.

Com 20 minutos, o tédio e o enfado tomam conta do espectador, que só vai acordar quando o último tiro tiver sido disparado. Tudo muito já visto - pela enésima vez. A diferença é que agora os bandidos são intelectualizados e carismáticos e as autoridades um bando de debilóides... Pensando bem, acho que isso já foi igualmente visto em outros filmes...

Melhor ficar em casa zapeando e assistir em canal da TV paga seriado qualquer norte-americano com o story line polícia-contra-bandido-que-coloca-em-risco-vida-de-inocentes. Penso que é o pior filme da carreira de Rezende, desde sua estreia em 1980, com "Até a última gota". E olha que dos seus 12 trabalhos apenas não assisti ao filme que fez na Inglaterra em 1991, "A child from the south".

Só espero que ele não resolva fazer dos atuais confrontos entre traficantes / polícia no Morro dos Macacos, no Rio, tema de seu próximo filme. Pelo menos não como um filme na forma deste "Salve Geral".

O ICONOCLASTA LARS VON TRIER

Dias atrás no programa Saia Justa do GNT, aquele em que quatro mulheres discutem assuntos aleatórios, sob pontos de vistas os mais subjetivos possíveis, acho que foi Maitê Proença que lançou a "questão": se fosse possível a cada uma das senhoras ali reunidas convidar alguém, vivo ou morto, para um jantar privado, quem elas convidariam e sobre o quê conversariam?

Ocorreu-me essa situação quando terminei de assistir ao filme "O anticristo" porque subitamente me veio à cabeça a ideia de convidar Lars Von Trier para um jantar com o objetivo de perguntar ao cineasta o que, afinal, passava em sua cabecinha de gênio criador quando decidiu fazer tal filme.  É claro que vou ficar sem resposta porque tanto ele quanto eu tem medo de viajar de avião...

A intenção seria provocar polêmica? Ou, quem sabe, fazer um filme de horror do tipo em que se misturam referências mitológicas à dogmática religiosa ou, talvez, colocar em um caldeirão um compêndio de doenças psiquiátricas e clichês psicanalíticos, subvertendo-os? Ou, porventura, tudo isso junto?

Há muito já se sabe que o dinamarquês é um iconoclasta de carteirinha, capaz de romper formulações acadêmicas através de grandes filmes como "Ondas do Destino", "Dançando no Escuro" e "Dogville", mas penso que, desta vez, o gênio alternativo pesou na mão. Há muita informação em "O anticristo", mas muita mesmo. Bastante! A tal ponto em que quase não se é possível processá-las para tornar o filme inteligível.

Os seus defensores dirão que é uma obra de arte e como tal deve-se apenas sentir, entrar na "viagem" proposta pelo diretor. Não sei. Até hoje tenho minhas dúvidas sobre essa tese de que o cinema é obra de arte. Para mim, é mais produto da indústria cultural, ainda que seja possível a alternatividade estética, o anti-academicismo etc. Bom, isso é outra discussão que não cabe neste espaço do blog.

Fiquei impressionado apenas com a entrega, diria mesmo a doação, aos papéis experimentada por atores consagrados como Willem Dafoe e Charlote Gainsbourg, que são capazes de atuar sem limites e de se expor e assimilar as propostas do diretor, sejam elas quais forem. Poucas vezes se assiste a isso em cinema, mesmo em cinema europeu.

É só!

TARANTINO ENCONTRA A SEGUNDA GUERRA

Quentin Tarantino não é o presidente Lula, mas se alguém no cinema atual tem estilo e marca, ele é o cara. E "Bastardos Inglórios" está encharcado disso: a representação visual estetizada da violência, referências à cultura pop na trilha sonora, outras tantas referências ao cinema de outrora na direção de arte, nos cenários e figurinos, além dos diálogos afiados no sarcasmo e no jogo de palavras.

É tanto Tarantino até não mais poder. E o que poderia ser um excesso, é mágica e harmoniosamente distribuído e acomodado ao longo dos 153 minutos de duração do filme, que, aliás, nem se sente passar. Por exemplo, é possível  conceder a ele o obséquio de praticar uma acentuada "licença poética" que ousa distorcer e deturpar a concretude dos fatos históricos, se é que esses têm alguma. Depois de "Bastardos", a história do nazismo, da segunda guerra mundial e a de Hitler jamais será a mesma.

Curiosamente, o filme lembra, assim de relance, outra gozação com a Guerra de 1939-45: uma produção dirigida por Spielberg, em 1979, chamada "1941" em alusão ao ano em que os EUA entraram no conflito depois de serem bombardeados pelos japoneses na base militar de Pearl Harbor no Pacífico.  Assim como em "1941", Tarantino se vale de personagens nacionais de todo tipo: há alemães, franceses, norte-americanos e ingleses, suficiente e propositadamente estereotipados, que se engalfinham numa mútua caçada em que os judeus aparecem, claro, como vítimas, mas também como algozes.

Mas, reinando sobre todos esses personagens há aquele oficial nazista auto-intitulado detetive, visto pelos inimigos como "caçador de judeus", que concorre seriamente para adentrar ao panteão dos maiores vilões da história do cinema. O seu intérprete, o sensacional ator austríaco Christoph Waltz deve, inclusive, receber o Oscar por esse inacreditável papel, uma vez que sua indicação como coadjuvante é pule de dez. De coisas inimagináveis ele é capaz. E no rastro dos judeus algozes - e há muitos no filme, sobretudo no lado norte-americano - existe também uma loirinha com ar angelical (Mélanie Laurent), capaz de se doar energicamente para concretizar a sua vingança.

O cinema de Tarantino é repleto de tudo aquilo que falei no primeiro parágrafo, mas é exatamente nos personagens e nas situações em que esses estão envolvidos que nascem cenas que certamente se tornarão clássicas. A começar por aquela impecável sequência inicial em que o coronel Hans Landa (Waltz) deixa claro o motivo pelo qual é a grande estrela do filme. E o que dizer do jogo de "adivinhe quem é?" na taverna onde se misturam oficiais e soldados de ambos os lados, em que Diane Kruger mostra que é bem mais do que o belo rosto de Helena de Tróia?

Será que antes de dirigir "Bastardos Inglórios", Tarantino andou assistindo a longa lista de filmes produzidos durante a segunda guerra sobre espionagem e contra-espionagem? Aposto que sim. E é claro que isso inclui o clássico "Casablanca". Alguém duvida? Obviamente, toda essa alusão aqui surge ora como homenagem ora como brincadeira, o que me parece bastante afetuoso por parte do diretor.

Sobretudo porque o cinema (e a sala de exibição propriamente dita, que é palco constante e parte do clímax do filme) é mostrado como uma espécie de ponto de convergência e catalizador de todas aquelas pulsões de poder, cobiça, vingança e desejo que normalmente se encontram no (sub) texto de qualquer conflito armado que envolva seres humanos. Bem, não será preciso dizer que Goebbels, o poderoso ministro da Comunicação do III Reich aparece (assim como um tresloucado Hitler) se emocionando com os seus filmes de propaganda.

Com tantas virtudes, quase não se nota que Brad Pitt compõe com um hilariante sotaque sulista o seu personagem, o tenente Aldo Reine, líder dos "Bastardos Inglórios", uma espécie de destacamento de militares norte-americanos não certamente adeptos de uma "ética" de guerra (coloquemos nestes termos), que são capazes de escalpelar e marcar literalmente a ferro cabeças alemãs de todo o naipe.

Ao final do filme aviva-se na memória a razão pela qual Tarantino causou tanto espanto quando surgiu em 1994 com "Pulp Fiction", sua obra maior. Antevia-se que ali, além do filme fantástico que estreava, aparecia também uma promessa de cinema capaz de quebrar tabus não apenas estéticos porque seus filmes estão impregnados de uma moral muito particular, algo quase sempre pouco visto no cinema hollywoodiano.

SOBRE ARRANJOS MORAIS

A princípio parece um daqueles filmes do tipo soft erotic, em outros se assemelha a um melodrama. Afinal, a temática é a mútua inadequação de um casal de classe média: ele um executivo bem-sucedido e ela um mulher tão linda quanto desocupada, quase obsessiva em se tornar mãe, depois de tentativas infrutíferas.

Pouco a pouco percebe-se que a infelicidade do casal extrapola simplesmente à esterilidade do homem, sobretudo quando entre marido e mulher surge o cunhado (irmão dele), um tipo meio egocêntrico e emsimesmado, mais precocupado consigo do que com o casamento alheio, para dizer o mínimo.

O reaparecimento do cunhado faz surgir a gasta fórmula do triângulo amoroso apimentado que meio cinema norte-americano já explorou em cem anos de cinema. Ocorre que "A mulher do meu irmão" é filme de produção e elenco multicultural: a linda Barbara Mori é uruguaia, Christian Meier (o marido) é peruano, enquanto Manolo Cardona (o cunhado) é colombiano, e no elenco ainda há, em papel coadjuvante, o popular ator mexicano Bruno Bichir. O diretor Ricardo de Montreuil é peruano e a co-produção envolve quatro países, Argentina, México, Peru e Estados Unidos.

É possível que tantos sotaques tenham tornado o filme culturalmente irreconhecível. Consequentemente, isso pode ser percebido positiva ou negativamente, a depender do ponto de vista. Tal diversidade traz uma informação adicional, pois se nota algo novo: uma visão latina sobre a alta classe média cujos problemas e crises estão certamente muito longe de revoluções sociais, pobreza e golpes de estado em republiquetas de banana. E isso, parece-me, é incomum em cinemas do continente.

Provavelmente não o é no cinema argentino, já muito referenciado como aquele cinema emergente que conseguiu extrapolar a "temática social" tão ideologicamente arraigada em seus co-irmãos (o Brasil, inclusive), penetrando os meandros burgueses das classes médias sem muitos pudores e, mais importante, com grande competência narrativa.  Isso explica o toque argentino na produção do filme.

É provável que "A mulher do meu irmão" seja identificado com uma matriz hollywoodiana do tipo "Infidelidade", de Adrian Lyne, aquele mesmo com Diane Lane e Richard Gere, na medida de uma certa visualidade erótica, embora ao final o filme de Mr. Lyne seja um tanto moralista, vide "Atração fatal". Cessam as semelhanças por aí, na fotografia clean, nos suaves movimentos de câmera que filmam as cenas de amor proibido e na montagem que imprime certa dose de mistério àquilo tudo.

Pois é na conclusão que o arranjo moral encontrado para o filme o deixa anos luz das produções hollywoodianas sobre triângulos. Nisso, há méritos em "A mulher do meu irmão". Ninguém sai punido por ser um marido estranho e não devotado ao casamento, ou por ser uma mulher infiel, ou por ser um consumado canalha.

O filme compreende as razões de cada um e os absolve. Talvez isso desagrade a alguns (ou muitos) espectadores que buscam no cinema mensagens e lições, mas com certeza permite soluções múltiplas para conflitos mais comuns do que se imagina, dirigindo à classe média um olhar mais generoso e menos convencional e moralista.

EM BUSCA DE UMA OLIMPÍADA

Durante a transmissão do evento, na Dinamarca, que definiu o Rio de Janeiro como sede da Olimpíada de 2016 fiquei pensando cá com meus botões sobre as razões e os motivos pelos quais toda aquela gente do Brasil - atletas, cartolas do esporte e, principalmente políticos - fizeram questão de lá estarem. Certamente, todos eles permaneceram na capital da Dinamarca, Copenhague, mantidos em hotéis e recebendo diárias pagas, como diz Ancelmo Góis, do Globo, com o meu, o seu, o nosso dinheirinho.

Do lado de cá, um bando de gente desocupada, à moda de uma micareta, estava nas areias da praia de Copacanbana, esperando o grande anúncio, para que finalmente a festança começasse. Até aí tudo bem, cada um no seu quadrado. Era previsível que houvesse essa mobilização exagerada. Quase tudo no Brasil que diga respeito a futebol e esporte fica parecendo que estamos às vésperas do fim do mundo. 

Na verdade, meu choque se deu com a descompostura de altas autoridades nacionais que, ao ouvirem o nome da cidade pronunciado pelo presidente do COI, pulavam feito rãs (ou seriam sapos?) no brejo. E aí voltei aos meus botões e fiquei pensando e pensando sobre o motivo para reações tão enlouquecidas.

Depois de "muito" pensar sobre as possíveis boas coisas que os jogos olímpicos podem trazer para a Cidade Maravilhosa, cheguei à conclusão de que aquelas pessoas pulavam freneticamente e se abraçavam com tanto ardor porque percebiam, digamos, outros cenários para o futuro. Estavam todos ali eufóricos com a possibilidade de...bem, vocês podem imaginar o que acontece quando uma cidade recebe tanto investimento para a construção de complexos esportivos, estradas e avenidas, estações de trem etc...

É bom pensar sobre isso...

O momento do anúncio no Youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=NoKTVNesTDw

SEXTO FESTIVAL DE BELÉM DO CINEMA BRASILEIRO

Ainda dá tempo. As produtoras e diretores que não inscreveram seus curtas e longas-metragens ainda podem mandar o material para a 6ª edição do Festival de Belém do Cinema Brasileiro, que será realizado de 1 a 6 de dezembro, em Belém do Pará. O edital de inscrição está no site www.amazoniaimaginaria.com.br. Os filmes e vídeos devem ser inéditos no circuito comercial do Pará, e não serão aceitas as inscrições de produções não concluídas.

Os filmes inscritos passarão por uma seleção através de um júri formado por curadores ligados à produção cultural do país. Uma vez selecionados, os filmes, em 35mm ou DVCam, concorrerão nas categorias de Melhor Curta, Melhor Média e Melhor Longa Metragem ao troféu Ver-o-Peso do Cinema Brasileiro, que será entregue na cerimônia de premiação, que será realizada no dia 6 de dezembro, no Cine Olympia.

A mostra, criada em 2004, é uma realização do Instituto Amazônia Imaginária e da D. Paes Produções, com produção executiva da atriz Dira Paes e do produtor cultural Emanoel Freitas.

O Festival de Belém do Cinema Brasileiro (FestCineBelém) é apresentado e patrocinado pela Petrobras, com Apoio Institucional da Lei Federal de Incentivo à Cultura, através da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, Governo Federal, além do CTAV, Prefeitura de Belém, Fumbel, Fórum dos Festivais e ABDeC – Pará.

Outras Informações:

Projeto Paralelo Comunicação - Tel.: 21 2512 8227

Lu Nabuco - Cel.: 21 9405 4125 - lunabuco@paralelocomunicacao.com.br 

Marcelle Braga - Cel.: 21 7814 4820 - marcelle@paralelocomunicacao.com.br

ROMAN POLANSKI

Esta semana aconteceu o tal episódio envolvendo a prisão do cineasta franco-polônês Roman Polanski, considerado fugitivo da justiça norte-americana porque lá pelos anos 1970 foi condenado por ter seduzido uma adolescente de 13 anos, embebedando-a e fazendo sexo com ela.

A isto seguiu-se uma reação em cadeia de importantes cineastas e atores que assinaram manifesto em repúdio à prisão do diretor, qualificando a ação da polícia e da justiça como ato arbitrário porque afinal de contas o cineasta estava na Suiça para receber um prêmio e blablablá...

Este evento me fez lembrar como muitos desses cineastas e artistas, ao mesmo tempo que são geniais, capazes de produzir filmes inesquecíveis, são igualmente capazes de ações tão obviamente contraditórias com tudo aquilo que, como cidadãos, pensam e falam.

Senão, vejamos, Polanski é, de fato, um fugitivo da justiça e, se já foi condenado, precisa pagar a sua pena. Não é porque se trata de um cineasta renomado que o tratamento deve ser diferenciado. É claro que ninguém espera que os cineastas amigos de Polanski assinem um manifesto em sentido contrário, de prendê-lo e levá-lo para os EUA, mas daí a fazer o contrário me parece absurdo como também um abuso.

Bom,  os artistas são gente como qualquer um. É normal que queira defender seus amigos, mas eles não devem se esquecer que também são figuras públicas. Alguns são até muito politizados, costumam ter opiniões liberais sobre tudo. Falam de consciência social, da liberdade de expressão, do direito à democracia. Tudo muito bom. Agora, que botem em prática todo esse belo discurso. Confesso que fiquei chocado com o manifesto. Melhor seria calar e não desafiar as instituições, pelo menos não em causa própria. Cheira a suspeição.

E aí fico lembrando de artistas nacionais, a exemplo de um dos nossos grandes compositores (melhor não citar nomes), que passou a vida falando de democracia; permaneceu anos sem aparecer na maior emissora de TV do país, alegando que os donos da dita cuja era aliados do governo militar.  Ótimo! Belo protesto! Mas, eis a grande contradição: o tal compositor é capaz de fazer não somente a defesa, mas também o elogio ao governo de Cuba, que qualquer pessoa de bom senso sabe que é uma ditadura das mais violentas. Ditadura de esquerda.

Citei apenas um, mas há uma penca de artistas e intelectuais que insistem nessa contradição entre discurso e ação. Donde se conclui que tudo é apenas privativamente ideológico. Ideológico no pior sentido, que é o de acomodar as suas pequenas crenças, vendendo como "grande discurso" aquilo que, na verdade, só tem a ver com suas convicções mesquinhamente pessoais.

Volto ao Roman. É um grande cineasta. Faz filmes bons até quando não está muito inspirado. Quando foi premiado com o Oscar de melhor diretor, em 2003, por aquele belo filme que é "O Pianista" não esteve presente à cerimônia em Hollywood exatamente por ser fugitivo da justiça. Harrison Ford recebeu o prêmio por ele.  

Lamento que esteja nessa situação, mas fazer o quê? Numa sociedade democrática não se faz distinção entre o grande cineasta e o zé ruela que cometeu crime assemelhado.  O que resta a Polanski é ter bons advogados a seu lado, de modo a minimizar os efeitos do seu crime. É só. O resto são bravatas de cineastas que deveriam estar no set filmando ou editando seus filmes.

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Meu Perfil
BRASIL, Nordeste, RECIFE, Homem, JORNALISTA (DRT-PE 1725) E PROFESSOR UNIVERSITÁRIO