Anselmo Duarte, recentemente falecido, foi o maior galã do cinema brasileiro na década de 1950, mas já despontando para o estrelato nos últimos anos da década de 1940. Protagonizou dramas românticos, biográficos (fez um inesquecível retrato do compositor Zequinha de Abreu em "Tico-tico no Fubá", em 1952, talvez a sua atuação mais famosa), comédias e até chanchadas, transitando entre dois dos maiores estúdios de cinema do período, a Vera Cruz e a Atlântida.
A partir dos anos 1960, sua carreira como ator declinou. Não porque lhe faltasse carisma, mas sim porque escolheu como prioridade artística dirigir filmes, o que começou a fazer ainda no final dos anos 1950, com "Absolutamente Certo". O filme, sobre os bastidores de um programa televisivo em que, além de dirigir, escreveu o roteiro e atuou como protagonista, foi bem recebido pela crítica e público, o que lhe abriu as portas para realizar aquele filme que seria a sua obra-prima como realizador e através do qual entraria para a história do cinema, do cinema mundial.
"O Pagador de Promessas" (1962) é um marco no cinema brasileiro, não apenas porque é um grande filme, mas porque fez o Brasil ganhar a sua (até hoje) única Palma de Ouro no badalado Festival de Cannes, como melhor filme, derrotando obras-primas como - atentem para a longa e prestigiosa lista: Robert Bresson com "O Processo de Joana D'Arc", Michelangelo Antonioni com "O Eclipse", Buñuel com "O Anjo Exterminador", Agnès Varda com "Cleo de 5 às 7", além de Sidney Lumet com "Longa Jornada Noite Adentro", Otto Premminger com "Tempestade sobre Washington", Pietro Germi com "Divórcio à Italiana", Michael Cacoyannis com "Electra", Jack Clayton com "Os inocentes" e mais John Frankenheimer, Tony Richardson, Satyajit Ray, Aleksandar Petrovic, Yves Allégret, Jacques Severác, Luís Garcia Berlanga, no total de 34 filmes de diretores de todo o mundo.
Do júri que o escolheu faziam parte o escritor Romain Gary e o cineasta François Truffaut, entre outros, e de quebra o filme ainda recebeu uma indicação para o Oscar de filme estrangeiro, sendo o primeiro brasileiro a conseguir tal proeza. Com toda essa glória, Anselmo Duarte era discriminado no Brasil pela panelinha do cinema novo, à frente Glauber Rocha, que não via méritos em "O Pagador de Promessas", apenas uma reprodução do cinema dominante de Hollywood.
Depois de sua premiação, com o prestígio que conseguira na Europa, dirigiu mais seis longas e três episódios de filmes com vários diretores, mas nenhum com o destaque de "O Pagador...". Continuou a trabalhar como ator no cinema, mas também com participações restritas e coadjuvantes, como em "O Caso dos Irmãos Naves", fazendo aparições até mesmo em pornochanchadas. Parece que não se interessava por televisão, fazendo única participação na novela "Feijão Maravilha" (1979), que pretendia fazer homenagem às chanchadas, mas que fracassou em audiência. Depois desta, apenas mais duas participações nos filmes "Tensão no Rio" e "Brasa Adormecida". Sua carreira estava encerrada.
Nos últimos anos parecia amargurado com a falta de reconhecimento público de sua obra e pelo já clássico descaso brasileiro com a memória dos artistas do passado. Soube, dias antes da sua morte, que a Academia Brasileira de Cinema irá homenageá-lo na premiação do próximo ano. Agora deverá fazer postumamente. Ainda assim, é válido, uma vez que os homens morrem, mas as suas obras permanecem. E devem ser cultuadas.
Que Anselmo Duarte esteja em bom lugar, agora!
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