Sob o ponto de vista técnico, até que "Besouro", o filme brasileiro sobre o lendário capoeirista, funciona muito bem, sobretudo se for levado em consideração a quase ausência de um subgênero de filme de luta na cinematografia brasileira em décadas. Contratou-se inclusive o especialista de "O Tigre e o Dragão", de Ang Lee, para orientar os brasileiros na coreografia e efeitos que suspendem os atores no ar nas sequências de luta.
O problema de "Besouro" está situado ao nível de sua pré-produção porque o filme surge de um roteiro capenga, cujo enredo não faz jus ao personagem e à situação que conta, além de ser agravado por diálogos artificiais e risíveis que emprestam pouca credibilidade àquilo que é dito. Para piorar são falados por atores ora inexpressivos ora mal dirigidos no que tange à atuação.
O que quero dizer é que tanto roteiro quanto direção não articulam satisfatoriamente os três níveis que, aparentemente, a produção ambicionou.
Primeiro, a da narrativa do filme de gênero ação-luta, porque as sequências de capoeira, embora razoavelmente produzidas, são acanhadas em termos de tempo de duração, sendo solucionadas muito rapidamente, provavelmente em função de um orçamento restrito. E isso como se sabe é, para o público de cinema, que admira cenas de ação, equivalente a jogar água fria na fervura da capoeira.
Segundo, a história do personagem Besouro é superficialmente exposta porque não dimensiona adequadamente, pelo menos para mim, a relevância de alguém que de fato existiu mas resiste como referência mítica para um grupo cultural específico.
O terceiro problema da narrativa é decorrente do segundo no sentido de que a questão cultural afro-brasileira posta e atrelada ao personagem (quero dizer, religião, sexualidade, costumes, preconceito, discriminação racial e social etc) fica a reboque dessa vulnerabilidade do roteiro, não sendo adequadamente apresentada.
Ao que parece avaliou-se que os três níveis eram importantes para o filme em questão, mas nenhum desses consegue efetivamente acontecer e empolgar. Claramente, é um trabalho que pretendia ser uma homenagem e um produto de entretenimento, mas fica a meio caminho dos dois objetivos, lamentavelmente.
No entanto, em meio a tantos rostos novos e inexperientes no elenco e imperfeições em todos os setores, o pernambucano Irandhir Santos (Baixio das Bestas, A Pedra do Reino) na pele de Noca de Antônia, o capataz do coronel, tem uma atuação perfeita, dessas interpretações coadjuvantes que não apenas roubam a cena dos companheiros como também todas as cenas do filme, indistintamente.
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