Glauber Rocha disse certa vez que, para ele, era muito fácil fazer um filme nos moldes de Hollywood. O problema é que o cineasta não estava interessado nisso, queria realizar obras que representasssem o Brasil e o seu povo sem estereótipos.
Bom, Glauber morreu já faz quase 30 anos e talvez se decepcionasse com o cinema nacional que se faz atualmente, boa parte dele emulações do cinema hollywoodiano, muitos bem interessantes e outros francamente ruins, como este "Salve Geral", misto de filme de ação e drama penitenciário classe C.
Não tenho nada contra seguir formulações hollywoodianas. Afinal, cinema é indústria e o que rende nas bilheterias são filmes padronizados etc. Não vou teorizar sobre isso aqui porque ando escrevendo uma extensa tese sobre tal assunto, de modo que vou poupar meus dois ou três leitores do aborrecimento.
Mas, já que vamos fazer filmes industriais, pelo menos façamos bem. O que não se admite, a meu ver, é se apropriar de fatos de uma dada realidade nacional, como o evento retratado no filme, que custou vidas de inocentes e transformou a cidade de São Paulo em cenário de guerra no dia das mães de 2006, para produzir um filme de ficção que deturpa a objetividade da tragédia, criando uma inconsistente e implausível tese sobre bandidos e criminosos metidos a revolucionários de uma justa causa, atrelados a uma facção criminosa auto-denominada de "partido". Olha, quer saber? Aquele personagem do "professor" não é nada além de uma grande empulhação.
O roteiro esquemático parte de um argumento pretensamente humanizador e redentor - a mãe ingênua e bem-intecionada que faz de tudo para retirar seu filhinho adolescente da cadeia, posto lá pelas atitudes inconsequentes de juventude - para dar alguma credibilidade à sucessão de sandices que são postas na tela que mataria de vergonha até mesmo o mais idiota roteirista de seriados de terceira da TV dos EUA.
A coisa só não fica pior porque Andréa Beltrão é uma atriz de primeira, capaz de tornar minimamente crível o seu débil personagem, sendo o desperdício maior o de Denise Weinberg, uma atriz de presença cênica poderosa que se vê obrigada a dar substância a um personagem extremamente manjado, a advogada corrupta que trabalha para o crime organizado, um dos clichês mais óbvios dos seriados policiais.
Não há nenhuma reflexão sobre aqueles acontecimentos; tudo é vomitado pelo roteiro apenas para funcionar como pano de fundo da historinha medíocre de mãe e filho, e - claro - para servir a uma esdrúxula ideologia esquerdizante.
Com 20 minutos, o tédio e o enfado tomam conta do espectador, que só vai acordar quando o último tiro tiver sido disparado. Tudo muito já visto - pela enésima vez. A diferença é que agora os bandidos são intelectualizados e carismáticos e as autoridades um bando de debilóides... Pensando bem, acho que isso já foi igualmente visto em outros filmes...
Melhor ficar em casa zapeando e assistir em canal da TV paga seriado qualquer norte-americano com o story line polícia-contra-bandido-que-coloca-em-risco-vida-de-inocentes. Penso que é o pior filme da carreira de Rezende, desde sua estreia em 1980, com "Até a última gota". E olha que dos seus 12 trabalhos apenas não assisti ao filme que fez na Inglaterra em 1991, "A child from the south".
Só espero que ele não resolva fazer dos atuais confrontos entre traficantes / polícia no Morro dos Macacos, no Rio, tema de seu próximo filme. Pelo menos não como um filme na forma deste "Salve Geral".
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