Dias atrás no programa Saia Justa do GNT, aquele em que quatro mulheres discutem assuntos aleatórios, sob pontos de vistas os mais subjetivos possíveis, acho que foi Maitê Proença que lançou a "questão": se fosse possível a cada uma das senhoras ali reunidas convidar alguém, vivo ou morto, para um jantar privado, quem elas convidariam e sobre o quê conversariam?
Ocorreu-me essa situação quando terminei de assistir ao filme "O anticristo" porque subitamente me veio à cabeça a ideia de convidar Lars Von Trier para um jantar com o objetivo de perguntar ao cineasta o que, afinal, passava em sua cabecinha de gênio criador quando decidiu fazer tal filme. É claro que vou ficar sem resposta porque tanto ele quanto eu tem medo de viajar de avião...
A intenção seria provocar polêmica? Ou, quem sabe, fazer um filme de horror do tipo em que se misturam referências mitológicas à dogmática religiosa ou, talvez, colocar em um caldeirão um compêndio de doenças psiquiátricas e clichês psicanalíticos, subvertendo-os? Ou, porventura, tudo isso junto?
Há muito já se sabe que o dinamarquês é um iconoclasta de carteirinha, capaz de romper formulações acadêmicas através de grandes filmes como "Ondas do Destino", "Dançando no Escuro" e "Dogville", mas penso que, desta vez, o gênio alternativo pesou na mão. Há muita informação em "O anticristo", mas muita mesmo. Bastante! A tal ponto em que quase não se é possível processá-las para tornar o filme inteligível.
Os seus defensores dirão que é uma obra de arte e como tal deve-se apenas sentir, entrar na "viagem" proposta pelo diretor. Não sei. Até hoje tenho minhas dúvidas sobre essa tese de que o cinema é obra de arte. Para mim, é mais produto da indústria cultural, ainda que seja possível a alternatividade estética, o anti-academicismo etc. Bom, isso é outra discussão que não cabe neste espaço do blog.
Fiquei impressionado apenas com a entrega, diria mesmo a doação, aos papéis experimentada por atores consagrados como Willem Dafoe e Charlote Gainsbourg, que são capazes de atuar sem limites e de se expor e assimilar as propostas do diretor, sejam elas quais forem. Poucas vezes se assiste a isso em cinema, mesmo em cinema europeu.
É só!
Quentin Tarantino não é o presidente Lula, mas se alguém no cinema atual tem estilo e marca, ele é o cara. E "Bastardos Inglórios" está encharcado disso: a representação visual estetizada da violência, referências à cultura pop na trilha sonora, outras tantas referências ao cinema de outrora na direção de arte, nos cenários e figurinos, além dos diálogos afiados no sarcasmo e no jogo de palavras.
É tanto Tarantino até não mais poder. E o que poderia ser um excesso, é mágica e harmoniosamente distribuído e acomodado ao longo dos 153 minutos de duração do filme, que, aliás, nem se sente passar. Por exemplo, é possível conceder a ele o obséquio de praticar uma acentuada "licença poética" que ousa distorcer e deturpar a concretude dos fatos históricos, se é que esses têm alguma. Depois de "Bastardos", a história do nazismo, da segunda guerra mundial e a de Hitler jamais será a mesma.
Curiosamente, o filme lembra, assim de relance, outra gozação com a Guerra de 1939-45: uma produção dirigida por Spielberg, em 1979, chamada "1941" em alusão ao ano em que os EUA entraram no conflito depois de serem bombardeados pelos japoneses na base militar de Pearl Harbor no Pacífico. Assim como em "1941", Tarantino se vale de personagens nacionais de todo tipo: há alemães, franceses, norte-americanos e ingleses, suficiente e propositadamente estereotipados, que se engalfinham numa mútua caçada em que os judeus aparecem, claro, como vítimas, mas também como algozes.
Mas, reinando sobre todos esses personagens há aquele oficial nazista auto-intitulado detetive, visto pelos inimigos como "caçador de judeus", que concorre seriamente para adentrar ao panteão dos maiores vilões da história do cinema. O seu intérprete, o sensacional ator austríaco Christoph Waltz deve, inclusive, receber o Oscar por esse inacreditável papel, uma vez que sua indicação como coadjuvante é pule de dez. De coisas inimagináveis ele é capaz. E no rastro dos judeus algozes - e há muitos no filme, sobretudo no lado norte-americano - existe também uma loirinha com ar angelical (Mélanie Laurent), capaz de se doar energicamente para concretizar a sua vingança.
O cinema de Tarantino é repleto de tudo aquilo que falei no primeiro parágrafo, mas é exatamente nos personagens e nas situações em que esses estão envolvidos que nascem cenas que certamente se tornarão clássicas. A começar por aquela impecável sequência inicial em que o coronel Hans Landa (Waltz) deixa claro o motivo pelo qual é a grande estrela do filme. E o que dizer do jogo de "adivinhe quem é?" na taverna onde se misturam oficiais e soldados de ambos os lados, em que Diane Kruger mostra que é bem mais do que o belo rosto de Helena de Tróia?
Será que antes de dirigir "Bastardos Inglórios", Tarantino andou assistindo a longa lista de filmes produzidos durante a segunda guerra sobre espionagem e contra-espionagem? Aposto que sim. E é claro que isso inclui o clássico "Casablanca". Alguém duvida? Obviamente, toda essa alusão aqui surge ora como homenagem ora como brincadeira, o que me parece bastante afetuoso por parte do diretor.
Sobretudo porque o cinema (e a sala de exibição propriamente dita, que é palco constante e parte do clímax do filme) é mostrado como uma espécie de ponto de convergência e catalizador de todas aquelas pulsões de poder, cobiça, vingança e desejo que normalmente se encontram no (sub) texto de qualquer conflito armado que envolva seres humanos. Bem, não será preciso dizer que Goebbels, o poderoso ministro da Comunicação do III Reich aparece (assim como um tresloucado Hitler) se emocionando com os seus filmes de propaganda.
Com tantas virtudes, quase não se nota que Brad Pitt compõe com um hilariante sotaque sulista o seu personagem, o tenente Aldo Reine, líder dos "Bastardos Inglórios", uma espécie de destacamento de militares norte-americanos não certamente adeptos de uma "ética" de guerra (coloquemos nestes termos), que são capazes de escalpelar e marcar literalmente a ferro cabeças alemãs de todo o naipe.
Ao final do filme aviva-se na memória a razão pela qual Tarantino causou tanto espanto quando surgiu em 1994 com "Pulp Fiction", sua obra maior. Antevia-se que ali, além do filme fantástico que estreava, aparecia também uma promessa de cinema capaz de quebrar tabus não apenas estéticos porque seus filmes estão impregnados de uma moral muito particular, algo quase sempre pouco visto no cinema hollywoodiano.
A princípio parece um daqueles filmes do tipo soft erotic, em outros se assemelha a um melodrama. Afinal, a temática é a mútua inadequação de um casal de classe média: ele um executivo bem-sucedido e ela um mulher tão linda quanto desocupada, quase obsessiva em se tornar mãe, depois de tentativas infrutíferas.
Pouco a pouco percebe-se que a infelicidade do casal extrapola simplesmente à esterilidade do homem, sobretudo quando entre marido e mulher surge o cunhado (irmão dele), um tipo meio egocêntrico e emsimesmado, mais precocupado consigo do que com o casamento alheio, para dizer o mínimo.
O reaparecimento do cunhado faz surgir a gasta fórmula do triângulo amoroso apimentado que meio cinema norte-americano já explorou em cem anos de cinema. Ocorre que "A mulher do meu irmão" é filme de produção e elenco multicultural: a linda Barbara Mori é uruguaia, Christian Meier (o marido) é peruano, enquanto Manolo Cardona (o cunhado) é colombiano, e no elenco ainda há, em papel coadjuvante, o popular ator mexicano Bruno Bichir. O diretor Ricardo de Montreuil é peruano e a co-produção envolve quatro países, Argentina, México, Peru e Estados Unidos.
É possível que tantos sotaques tenham tornado o filme culturalmente irreconhecível. Consequentemente, isso pode ser percebido positiva ou negativamente, a depender do ponto de vista. Tal diversidade traz uma informação adicional, pois se nota algo novo: uma visão latina sobre a alta classe média cujos problemas e crises estão certamente muito longe de revoluções sociais, pobreza e golpes de estado em republiquetas de banana. E isso, parece-me, é incomum em cinemas do continente.
Provavelmente não o é no cinema argentino, já muito referenciado como aquele cinema emergente que conseguiu extrapolar a "temática social" tão ideologicamente arraigada em seus co-irmãos (o Brasil, inclusive), penetrando os meandros burgueses das classes médias sem muitos pudores e, mais importante, com grande competência narrativa. Isso explica o toque argentino na produção do filme.
É provável que "A mulher do meu irmão" seja identificado com uma matriz hollywoodiana do tipo "Infidelidade", de Adrian Lyne, aquele mesmo com Diane Lane e Richard Gere, na medida de uma certa visualidade erótica, embora ao final o filme de Mr. Lyne seja um tanto moralista, vide "Atração fatal". Cessam as semelhanças por aí, na fotografia clean, nos suaves movimentos de câmera que filmam as cenas de amor proibido e na montagem que imprime certa dose de mistério àquilo tudo.
Pois é na conclusão que o arranjo moral encontrado para o filme o deixa anos luz das produções hollywoodianas sobre triângulos. Nisso, há méritos em "A mulher do meu irmão". Ninguém sai punido por ser um marido estranho e não devotado ao casamento, ou por ser uma mulher infiel, ou por ser um consumado canalha.
O filme compreende as razões de cada um e os absolve. Talvez isso desagrade a alguns (ou muitos) espectadores que buscam no cinema mensagens e lições, mas com certeza permite soluções múltiplas para conflitos mais comuns do que se imagina, dirigindo à classe média um olhar mais generoso e menos convencional e moralista.
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