Esta noite, voltando para a casa, depois de um dia não muito agradável, durante a viagem intermunicipal que faço diariamente entre o Recife e o bairro de Candeias, onde moro, sintonizei por acaso na Antena Um, e tive um raro momento de refresco ao ouvir a voz feminina, sensual e elegante da inglesa Lisa Stansfield cantando uma bela versão anos 2000 do clássico "Baby Come Back", que o Player gravou (e fez entrar para a história do pop) lá pelo remoto e longínquo ano de 1977 ou 76, por aí.
Em um mundo povoado de coisas como Britney Spears e Miley Cyrus, o pop suave de Stansfield parece deslocado e sem oportunidade, e não apenas por conta das duas senhoritas citadas acima, mas também porque a cultura pop na música contemporânea anda tão obcecada pelo hip hop (de inegável valor, sem dúvida), que Lisa parece não trazer nenhuma novidade.
Curiosamente, assim como eu, a cantora é admiradora do som produzido nos anos 1970 e, em especial, da então chamada black music do período. Assim, Lisa tem regravado, desde que aconteceu para o mundo do pop em 1991 com "All around the world", muitos dos hits setentistas. Não é de se admirar, uma vez que a sua música, mesmo aquela criada originalmente por ela, tem tudo a ver com a disco e a black music. Gosta tanto que até chegou a regravar "All around the world", seu maior sucesso até hoje, em dueto com ninguém menos do que Barry White.
No início dos anos 1990, a cantora fez parte de projeto cujo objetivo era angariar recursos para o combate a aids, chamado "Red, Hot and Blue", com artistas contemporâneos regravando sucessos do lendário compositor norte-americano Cole Porter. A intenção nobre resultou num álbum que, artisticamente falando, é um amontoado de tendências do rock-pop sem qualquer uniformidade que desfiguraram as canções de Porter, verdadeiras obras-primas da canção popular norte-americana. Imagina Iggy Pop cantando "Well did you Evah" ou Tom Waits com "It's all right with me"?! Então...
Como neste insensato mundo para tudo há exceções, no conjunto das duas dezenas de apresentações do CD, alguns se destacam, exatamente porque salvaguardam em suas gravações (e apresentações em vídeo) o espírito de Porter: Jody Watley (ex-Shalamar), cantora meio questionável, funciona com "After you who"; assim como a bela voz de K. D. Lang em "So in love"; além da maravilhosa Annie Lennox, com "Everytime we say goodbye"; e talvez The Neville Brothers, com "In the still of the night".
No entanto, é exatamente Lisa Stansfield, com "Down in the depths", a única artista que se moldou integralmente à obra do compositor, produzindo uma versão na qual estão presentes todos os valores de Cole Porter: bonito arranjo de orquestra para uma excelente composição, uma voz suave cantando letra sofisticadamente inteligente e irônica, e uma apresentação cênica no videoclipe de excelente fotografia, edição, direção de arte e figurino, que sintetizam de forma quase minimalista, em certo sentido, a essência daquela canção.
Quem quiser se deliciar com a performance elegante de Miss Stansfield em "Down in the depths" deve ir, claro, ao Youtube. Está toda lá. Para facilitar, aí está o endereço:
Esta eu li no JC de sábado último: o choro do cineasta Paulo Thiago, a propósito do assalto à sua casa, no qual foi refém junto com sua família. Disse ele:
“Este país está em guerra civil. É preciso parar de heroicizar os bandidos no cinema. Está faltando polícia na cidade. Se houvesse policiamento aqui na minha rua, não teria acontecido isso. Você só entende o que é violência depois de ser vítima dela”.
A frase, embora dramática, não deixa de ser irônica...quero dizer, vinda de um cineasta...
Que tal os colegas do Sr. Thiago pensarem no assunto?
A propósito vem por aí o filme "Salve Geral", de Sérgio Rezende, sobre aquele episódio lamentável ocorrido em São Paulo, no dia das mães de 2006, alguém lembra?
O filme, que foi o indicado nacional para ser submetido à analise da Academia de Hollywood para o Oscar de filme estrangeiro do próximo ano, deve acirrar a polêmica porque, segundo crítica de Isabela Boscov, da Veja desta semana, faz mesmo o serviço de "heroicizar os bandidos" e vilanizar as autoridades públicas...
"Salve Geral" estreia no próximo final de semana, 3 de outubro.
A conferir...
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