Uma nova concepção do triângulo amoroso unindo homem e duas mulheres é o que apresenta "Amantes", curioso drama romântico dirigido por James Gray, cineasta norte-americano muito admirado na França onde três dos seus quatro filmes já concorreram à Palma de Ouro em Cannes, inclusive este, mas que nos EUA parece ainda não ter recebido o devido reconhecimento.
Utilizo os adjetivos "nova" e "curioso" porque é raro no cinema norte-americano, ao que me lembro, construir uma história de amor na qual todos os integrantes do triângulo amoroso, ou pelo menos o casal principal, padecem de certa fragilidade emocional que os desqualificaria para tal tipo de empreendimento.
Bom, mas isso se falarmos no cinema convencional. Acontece que o convencionalismo passa quilômetros de distância deste filme, sobretudo porque o argumento e o roteiro são capazes de, ajudados pela narrativa enxuta e elegante de Gray, desenhar personagens certamente bem parecidos com alguém que se conhece na dita "vida real". Este é o diferencial.
Ao abordar aparentemente o amor romântico, idealizado, que a cultura ocidental impôs aos sujeitos como destino inexorável e necessário para se atingir a felicidade (sic), o filme de Gray desconstrói sutilmente esse primado da era moderna, "adaptando-o" ao mundo e aos modos de ser contemporâneos. Em outras palavras, é amor, mas não tão romântico nem tão idealizado; é o que o filme deixa perceber.
Aqui, o tratamento do romance é tão naturalista que os personagens de Joaquin Phoenix, Gwyneth Paltrow e Vinessa Shaw se dão ao luxo de, no amor, serem calculistas, ao mesmo tempo que, no cálculo das escolhas pessoais, são igualmente pragmáticos. Ou seja, é como o mundo da vida!
Parece até que não se assiste a um filme de amor e sim a uma sessão de psicanálise, onde as pulsões interiores e subjetivas de cada um são explicitamente manifestadas, justificadas e devidamente racionalizadas para os espectadores. Ao final de contas, não há tanto romantismo, somente as conveniências do amor...
Outro dado bastante notável é o tratamento que se dá à doença (bipolaridade) de Leonard Kraditor (Phoenix) e à baixa auto-estima de Michelle Rausch (Paltrow). Nunca se viu casal romântico tão supostamente vulnerável, a ponto de acharmos que, a qualquer momento, eles sucumbirão a elas (as doenças): clássicos destinos das tragédias românticas que não terminam em final feliz.
No entanto, novamente, um certo olhar crítico e cético (próprio do tempo pós-moderno?) se encarrega de dourar a pílula e desmistifica esses aspectos dos personagens, quase que os colocando como algo secundário.
Depois de terminado o filme, refleti sobre se, de fato, tal proposta estética, tem repercussão junto aos espectadores. Será?
Em todo caso se o prato principal for um pouco indigesto para aqueles que preferem assistir a algo mais edulcorado, há o consolo - outro mérito periférico da direção de James Gray - de se observar uma classe média novaiorquina não residente em Manhattan (e, por isso, não glamurizada), que é mostrada com delicadeza e elegância.
De quebra, há Isabella Rossellini, em papel coadjuvante, com marcas do tempo em seu rosto, mas tão incrivelmente bonita, como o era a sua mãe Ingrid Bergman, com quem tanto se parece.
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