QUANDO ME FALTAM PALAVRAS...

Qual a pior situação para o espectador de cinema? Assistir ao filme e não gostar, detestar mesmo? Ou, sair do cinema indiferente a ele? Do tipo: nem gostei nem não gostei, aquela sensação de vazio, de ter meio que perdido tempo indo ao cinema. Olha, eu prefiro não gostar do filme. Por isso, a pior situação para mim é ficar indiferente porque não consigo sequer vislumbrar uma linha de raciocínio para falar mal do filme.

Estou me referindo a um filme francês chamado "A Bela Junie", de Christophe Honoré, visto lá no cine Rosa e Silva. Com todas as minhas obrigações cotidianas na cabeça, fiquei pensando a semana inteira sobre o que escrever a respeito do filme no blog...e nada! Só me resta apelar para a minha amiga Norma que sempre faz comentários por aqui e certamente tem algo a falar sobre o filme.

Quem sabe, lendo o que ela tem a dizer, eu posso me inspirar...

SOBRE O TEATRO E O CINEMA

Conta-se que Daniel Filho, diretor de "Tempos de Paz", é tão apaixonado pelo texto da peça de Bosco Brasil, "Novas Diretrizes em Tempos de Paz", que vivia sugerindo à produção e aos atores Tony Ramos e Dan Stulbach que se fizesse um registro filmado do espetáculo, apenas com o objetivo de documentar ou, no máximo, distribuir em DVD. Pensava ele que algo de tanta qualidade não poderia se perder na arte efêmera do teatro. De tão apaixonado, decidiu o produtor-diretor, ele mesmo, transformar a peça em filme.

Essa versão dos fatos bem explica o que se assiste nas telas, uma vez que "Tempos de Paz" é tão somente o que o diretor pensou inicialmente sobre o que fazer com a peça: apenas o registro de um belo texto teatral. Falta ao filme o sopro cinematográfico, aquilo que justifica o cinema ser a linguagem da imagem e som articulados com um propósito, e não apenas um roteiro escrito no papel, por melhor que este seja. Em outras palavras, faltou o trabalho de adaptação, de transpor a linguagem teatral para a linguagem cinematográfica, restando apenas o que se convencionou chamar de "teatro filmado".

Aprisionado pelo texto teatral, o filme de Daniel Filho, o mais bem sucedido (comercialmente falando) diretor de cinema brasileiro contemporâneo, sucumbe a essa submissão, provocando, de certa maneira, exatamente o efeito contrário do desejado pelo diretor quando, ainda espectador do espetáculo no teatro, visualizou ali um filme em potencial.

"Tempos de paz", o filme, só existe em função das atuações de alto nível de Ramos e Stulbach, que repetem os papéis que viveram no teatro, despejando um texto que, ao final de contas, é um elogio à arte de representar. O que Bosco Brasil constrói é uma fábula ou parábola, como se queira denominar, sobre a importante missão do teatro na vida social. 

É certo que houve uma tentativa de Daniel em extrapolar o restrito espaço do palco e dar fôlego novo ao texto, inclusive dando vida a personagens que são apenas citados no original, mas tal tentativa - os personagens coadjuvantes de Daniel Filho e de Louise Cardoso - é abortada diante da força compressora do texto recitado por Ramos e Stulbach. Então, Daniel e Louise, atores competentes, prometem uma subtrama que, afinal, não se concretiza.

É muito difícil adaptar teatro para cinema. Um dos bons e raros exemplos, inclusive como teatro filmado, é a versão de Mike Nichols para "Quem tem medo de Virginia Woolf?", de Edward Albee, levada às telas em 1966. Lá, tudo funciona maravilhosamente, talvez porque, entre outros motivos, haja um quarteto de personagens e não apenas uma dupla.

De qualquer forma, louve-se a iniciativa, sobretudo por conta dos atores e da bela homenagem feita, no final do filme, aos inúmeros artistas, intelectuais e cientistas de origem polonesa que migraram para o Brasil e, aqui, tornaram-se brasileiros de mente e coração.

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Meu Perfil
BRASIL, Nordeste, RECIFE, Homem, JORNALISTA (DRT-PE 1725) E PROFESSOR UNIVERSITÁRIO