AQUI NÃO É COMO LÁ

O Brasil vive uma fase em que goza de prestígio internacional em praticamente todos os campos, em momento no qual o mundo está em crise - os EUA e a Europa, inclusive. Seja na economia, relações diplomáticas, cultura, o nosso país é visto como referência, com muitos analistas afirmando que isso é fruto do processo democrático que foi iniciado há pouco mais de 20 anos, que resultou em uma nova constituição, renúncia de presidente, controle de inflação, estabilização da moeda e eleição de um ex-operário para a presidência da República. Percebido dessa maneira parece mesmo que estamos no paraíso. Será?

Faço essa introdução a propósito do filme "Frost/Nixon", dirigido por Ron Howard, que assisti ontem, no qual, tempos depois de renunciar à presidência dos EUA em virtude do escândalo de Watergate,  Richard Nixon concede uma série de entrevistas para um desacreditado e pouco respeitado apresentador de TV inglês, David Frost, acreditando com isso que poderia restituir parte do respeito que perdeu do povo norte-americano com o episódio. Era idéia dele fazer das entrevistas uma espécie de plataforma onde falaria sobre suas razões.

Do outro lado, o tal inglês, que trabalhava à época na Austrália, via a possibilidade de retornar aos EUA, onde vivera e tivera algum prestígio por um período. Cada uma das quatro entrevistas tratava de tema específico, ficando a última parte destinada ao episódio de Watergate. Nas três partes que antecedem a conversa sobre o escândalo, Nixon conseguiu massacrar Frost, dando respostas longas e evasivas, que não permitiram a intervenção do apresentador.

Ferido em seus brios e acuado pela equipe de colaboradores, que previam o fracasso da série de entrevistas, afinal, o que os motivara era o objetivo de fazer com que Nixon admitisse que errara, Frost é tomado de um ímpeto e finalmente arrasa com Nixon, que confessa ter cometido transgressões gravíssimas na condução do episódio, gerando implicitamente "crime de responsabilidade" (ele não utilizou esses termos, que são de Frost), coisa que até então não considerava. A entrevista foi sucesso total e alavancou a carreira do apresentador inglês. Nixon morreu em 1994, vítima de um derrame. 

Não sei se os fatos tal e qual narrados no filme aconteceram de fato. Creio que não. Há um tantinho de cinema e de formulação hollywoodiana em algumas cenas de bastidores, como aquele improvável diálogo entre os dois por telefone às vésperas do embate final sobre Watergate. É uma grande cena, uma das melhores, que tem a função de ser o turning point do filme, algo absolutamente necessário em uma produção hollywoodiana, descrita em qualquer manual de roteiro. E isso é certamente valorizado pelo elevadíssimo nível de atuação dos dois atores (Fank Langella como Nixon e Michael Sheen como Frost). Nessa cena e em todo o filme, são performances de tirar o fôlego.

Bom, e aí volto ao Brasil: assistindo ao filme me deu uma sensação de frustração ao pensar que, lá, os deslizes e desmandos políticos de um presidente da República são alguma coisa de muito ofensivo à honra dos cidadãos. É como se o presidente não fosse um ser humano e sim uma instituição que sintetiza os valores democráticos e republicanos tão caros à nação. Sendo isso, ele não tem o direito de errar. E errando, deve renunciar. Mas não basta apenas renunciar. Deve reconhecer publicamente o erro ou o crime e pedir desculpas. E desaparecer.

E aí fico pensando nos deslizes e desmandos perpetrados pelos políticos brasileiros (presidentes e parlamentares), que devem ver um filme como"Frost/Nixon" e pensar consigo: "ainda bem que no Brasil não é assim...".

Para falar a verdade, observo com certa desconfiança sobre os reais motivos pelos quais o mundo esteja vendo o Brasil com esses bons olhos. Será que eles não tomam conhecimento de todos os nossos escândalos? Tomam sim, mas se calam porque consideram que é melhor uma democracia claudicante e relutante do que um regime autoritário. É a perversa lógica das relações internacionais, diplomáticas e do respeito às soberanias nacionais, que servem como pretexto para que se use dois pesos e duas medidas no julgamento das situações, dependendo do caso.

Além de tudo, há a conivência do nosso próprio povo, que parece anestesiado a todo tipo de horrores cometidos pelos políticos contra a nação, que são quase diariamente expostos pelas mídias e veículos de comunicação. A máxima reação da sociedade brasileira se restringe a "análises" do tipo: "é um absurdo", "os políticos são todos corruptos", mas de fato não há mobilização para transformar o quadro caótico e nem mudar a representação política através do voto democrátrico.  Será que merecemos os políticos que nos representam?

MAU JORNALISMO CULTURAL

Tenho que ser justo. É claro que a imprensa exerce um papel fundamental na vida civil. Imagino que, sem ela, os desmandos políticos (e dos políticos), que nos chocam cotidianamente, quase nunca chegariam a nós e seríamos, com isso, sistematicamente ludibriados por aqueles que elegemos para nos representar. Isso posto, tenho que fazer mea culpa quanto so desempenho de setores da imprensa em outros campos.

Ao assistir o programa Manhattan Connection, fiquei chocado com a maneira leviana com que as mortes de Michael Jackson e da atriz norte-americana Farrah Fawcett foram tratadas pelo quinteto de jornalistas Lucas Mendes, Caio Blinder, Diogo Mainardi, Ricardo Amorim e Pedro Andrade, e até mesmo pelos convidados Arthur Dapieve e a senhora de nome Angélica (que não sei o sobrenome e me parece trabalha na edição do programa).

Creio que extrapolaram os limites que separam o bom do mau gosto, ao fazerem piadas desrespeitosas com Jackson, Fawcett e a doença que a matou, câncer anal, além de outras piadinhas impróprias e dispensáveis. E ainda não faltaram imprecisões jornalísticas quanto aos fatos e total desconhecimento de questões básicas sobre a carreira de Farrah, por exemplo.

Sem dúvida, ela não fez carreira no cinema, mas trabalhou em alguns telefilmes que lhe deram inclusive indicações ao Emmy, o Oscar da TV dos EUA. Uma ida ao IMDB para checar informações (ação básica para qualquer jornalista que se preze) e o Dapieve e seus companheiros poderiam observar que a atriz foi três vezes indicada ao Emmy pelos telefilmes "The Burning Bed" e "Small Sacrifices" e por sua atuação como convidada na série "The Guardian".

Farrah Fawcett ainda atuou em "Poor Little Rich Girl: The Barbara Hutton Story", "Nazi Hunter: The Beate Klarsfeld Story" e "Extremities", que lhe valeram três indicações para o Globo de Ouro, além de estrelar com Robert Duvall, "The Apostle". Levando em consideração que os jornalistas moram há tanto tempo nos EUA, devem ter assistido a alguns desses títulos. Se isso não é uma carreira... 

Que falta faz a Lúcia Guimarães!

VIDAS PRECÁRIAS

É interessante a maneira como, de um modo geral, o cinema se apropria de fatos reais e os transforma em histórias. Digo isso a respeito do "Jean Charles", o filme sobre o brasileiro assassinado pela polícia inglesa, ao ser confundido com um terrorista muçulmano. Fiquei o tempo todo pensando como a história de fundo, a do imigrante ilegal vivendo em Londres clandestinamente pode ser, de fato, bem mais interessante que o tema principal do filme, ou seja, o assassinato dele.

Em outras palavras, não houvesse o infortúnio da morte do rapaz, não teríamos um filme sobre os ilegais vivendo na Inglaterra. Não que o fato do assassinato não seja importante, mas penso nas inúmeras aventuras pessoais que se desenrolam neste momento e em muitos outros de brasileiros no exterior. Histórias que nunca serão transformadas em filmes a menos que uma tragédia de grandes proporções aconteça. Sei lá! Há tantos pequenos dramas acontecendo por lá, exatamente agora, que valeriam ser dramatizados.

Certamente como consequência de escassos recursos de produção, o "Jean Charles" que assistimos na tela é bem irregular. É irregular na interpretação do elenco de apoio (há, pelo visto, muitos amadores, imigrantes mesmo, que aparecem no filme atuando em papéis secundários e pontas). E é irregular também no roteiro, que não vislumbra satisfatoriamente o personagem-título.

De fato, o que queria exatamente  Jean Charles ao migrar para a Inglaterra? Que relações eram aquelas com o comércio de passaportes para brasileiros em situação ilegal? Em certo sentido, sabe-se mais do personagem da prima Vivian (vivida com emoção e delicadeza por Vanessa Giácomo) do que do próprio Jean (Selton Mello, competente).

Mas, o curioso é que, involuntariamente, o que é fraqueza estrutural do filme - roteiro, atores coadjuvantes - ganha na tela uma inesperada força porque emerge uma espécie de mistura de narrativas ficcionais e não ficcionais advindas dessa crueza da falta de recursos. Assim, os atores amadores não comprometem por serem amadores e o roteiro, meio superficial  na concepção do personagem principal, é salvo por uma genuína emoção que parece brotar dessa precariedade de duas vias: a da produção e da vida real dos imigrantes brasileiros.

Essa mistura na edição das imagens ficcionais com o material real das redes de TV que cobriram os atentados terroristas à época são satisfatoriamente coadunados, a ponto de se confundirem na narrativa, ficando o espectador sem saber ao certo o que foi produzido para o filme e o que foi aproveitado de outras fontes. Fala-se muito em "docudrama" como uma espécie de linguagem nova do cinema que objetiva se aproximar mais do real.

Não creio que seja o caso de "Jean Charles", mas ficou a impressão, para mim, que certos filmes podem ser realizados de uma forma mais rústica, sem que isso necessariamente comprometa o resultado final. Não é uma grande obra, mas é certamente um trabalho honesto e bem intencionado que faz uma justa homenagem a esses milhões de homens e mulheres que se deslocam de sua terra natal em busca de melhores condições de vida, com o objetivo de tornar menos precária a sua condição de vida.

MICHAEL JACKSON (1958-2009)

Assim como bilhões de pessoas em todo o mundo, eu também sou admirador da arte de Michael Jackson. E digo mesmo "arte" e não apenas "produto da indústria cultural" porque entendo que ele alcançou uma posição de relevância no universo da cultura pop com distinção e diferenciação. É muito estranho falar de arte e pop culture como dois conceitos que podem estar interrelacionados, mas ouso pensar que, no caso de Jackson, essa possibilidade é mais do que aceitável, é mesmo irrefutável.

Para falar a verdade, admiro o seu trabalho em toda a extensão, mas confesso que tenho uma preferência especial pelo Michael do final dos anos 1970, quando iniciou carreira solo, afastando-se do Jackson 5, grupo de irmãos no qual foi consagrado. Ali, por volta de 1979, com o álbum Off the Wall, MJ ainda fazia aquele maravilhoso e extraordinário som setentista da black music do período, repleto de soul e rhythm & blues que, certamente, transpiravam dos seus poros com muito balanço. O que são aquelas canções fantásticas, Rock with you e Don't stop 'til you get enough, senão a síntese e a quintessência do puro deleite de se esbaldar numa pista de dança?

Todo mundo sabe que cantava e dançava como ninguém. Todo mundo sabe que trabalhou com os melhores da indústria fonográfica (o lendário Quincy Jones foi seu mentor). E, como se não bastasse, ele (re)inventou o videoclipe, imprimindo uma nova linguagem a esse formato audiovisual, atribuindo a essas peças a importante função de estratégia de promoção publicitária dos artistas da música. Depois de Thriller (1982), apresentações em vídeo passaram a ser uma outra coisa, até então não pensada e elaborada com tanto esmero e dedicação de amplos esforços.

E não seria exagero afirmar que esse álbum e seus videoclipes tornaram visíveis a MTV e toda a cultura atrelada a ela. E, ainda, qual foi o artista, neste mundo de meu Deus, que não participou ou desejou participar, ainda que fazendo apenas uma figuraçãozinha, nos seus clipes? Lembro que Steven Spielberg, Oprah Winfrey, Eddie Murphy, Macaulay Culkin, John Travolta e ninguém menos do que Marlon Brando, entre outros, lá estiveram presentes.

Embora tão genial quanto Marvin Gaye e James Brown, foi Jackson, juntamente com Stevie Wonder, que alçou a black music a um patamar de música pop, retirando-a do gueto e abrindo espaço para que pessoas como Ne-Yo, Usher e Justin Timberlake, só para citar alguns, brilhassem no universo pop contemporâneo.

Os especialistas da indústria da música afirmam que o recorde de vendagem de seu álbum Thriller jamais será alcançada por qualquer outro artista porque são números que o segmento não mais ambiciona em face da tecnologia dos downloads da internet e da pirataria que, definitivamente, jogaram para baixo as vendas de CDs em lojas.

É como se Michael Jackson fizesse parte de uma outra era. Suponho que como Presley e Beatles, ele tenha sido alçado à galeria de deuses da cultura pop que vão habitar o imaginário do mundo por décadas à frente. Por quantas? Só Deus sabe. 

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Meu Perfil
BRASIL, Nordeste, RECIFE, Homem, JORNALISTA (DRT-PE 1725) E PROFESSOR UNIVERSITÁRIO