Assisti esta semana na UFPE, no grupo de Sociologia do Cinema, coordenado pelo professor Paulo Marcondes, a um interessante filme chileno chamado "Na cama", dirigido por Matías Bize, até então completamente desconhecido para mim. A narrativa, toda ambientada em um quarto de motel numa virada de uma noite para madrugada, está centrada numa relação casual de dois desconhecidos repleta de sexo ardente e muitas conversas sobre vida, amor, escolhas pessoais e, claro, sexo.
É tudo meio claustrofóbico, não apenas porque se passa exclusivamente num quarto de motel, mas porque a opção do diretor em filmar tudo com câmera na mão em primeiríssimos planos e closes, faz com que a intensidade do encontro seja posta em um nível de exacerbação dos sentidos pouco vista em um filme que não é pornográfico. Curiosamente, essa intensa energia sexual posta nas imagens (quase explícitas de sexo) faz aflorar e sugerir exatamente o contrário: um encontro de paixão e intensa afetividade. Sim, o homem e a mulher se apaixonam de verdade.
A questão que o filme coloca, seriamente, é a de que o amor profundo e avassalador pode ser vivido e vivenciado em apenas algumas horas. Nesse sentido, é um inusitado e inesperado drama romântico que obviamente desconstrói as noções burguesas dos afetos que, tradicionalmente, o cinema do amor romântico instituiu em um século de narrativas cinematográficas.
"Na cama" parece igualar em importância todas as formas de amor, até mesmo aquelas que poderiam ser compreendidas, numa visão preconceituosa, como menos nobres por serem desencadeadas "apenas" pelo desejo sexual. Seria isso revolucionário?
A mulher ideal não existe, e na verdade nem é mesmo uma mulher, mas sim uma projeção (de si mesmo) do homem que a idealiza. Este curioso conceito de "complexa" equação está presente no filme "A Mulher Invisível", de Cláudio Torres. O personagem de Selton Mello é um improvável homem urbano do Rio de Janeiro em busca da mulher amada que o complete plenamente, depois que sua mulher o traiu e desapareceu com um alemão esquisito. Na sua insaciável busca por romance, Mello se depara com uma Luana Piovani lindíssima e perfeitíssima, sexy e doméstica. Enfim, uma mulher que não existe.
A previsível piada que a companhia de uma mulher inexistente e invisível provoca na vida de um homem é apresentada em boa parte do filme como forma de exteriorizar os dotes cômicos de Selton Mello dançando pateticamente numa boate, discutindo com o bilheteiro na fila do cinema e com um garçom à mesa de um restaurante. Mas, é numa inusitada reunião de trabalho com seus poderosos chefões (o personagem é controlador de trâfego urbano) em que a sua "ezquizofrenia" liquida de vez com a sua vida, ainda que provisoriamente, até que ele se aperceba de toda a complexa personalidade que carrega.
Irregular, com alguns altos e baixos, o filme é eficiente ao provocar alguns risos, mas Selton Mello, certamente o maior responsável pela graça do filme, está provavelmente um tom a mais do que o necessário, talvez demasiadamente orientado pelo gosto extravagante do diretor Torres, que em seus filmes parece descartar o naturalismo como registro das interpretações dos atores.
A produção vem com a grife da Globo Filmes, e isso é para o bem e para o mal. Talvez mais para o bem do que para o mal, se for levado em consideração que "A Mulher Invisível" é filme até ligeiramente superior aos seus congêneres. No entanto, isso não o retira do "limbo" das comédias co-financiadas pela distribuidora das Organizações Globo que visivelmente são voltadas para o mercado. Assim, escapismo e entretenimento descomprometido parecem mesmo estar triunfando no cinema brasileiro.
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