Meu avô materno, de quem herdei o nome, era médico em um tempo já longínquo, quando não existiam planos de saúde, hospitais-empresas, pólos médicos etc. Também não existia muito desenvolvimento científico-tecnológico de apoio a diagnósticos como os moderníssimos e sofisticados exames, capazes de avistar todo tipo de doença do corpo. Havia apenas a relação médico-paciente.
O doutor José Augusto de Amorim era um dos pouquíssimos médicos a residir no interior da Paraíba, deslocando-se pra cá e prá lá quando solicitado. Por incrível que possa parecer, profissionais como ele quase não eram remunerados em espécie; recebiam porcos, galinhas, sacas de arroz, milho, coisas assim em agradecimento (e reconhecimento) pelos serviços prestados. E, com isso, involuntariamente, produziam uma imagem de si que se aproximava de um nobre semideus, um "mão santa". Obviamente, eles não eram semideuses. Apenas seres humanos que se importavam e se solidarizavam com os seus iguais, para além do que poderiam ganhar materialmente com aquela ajuda.
Os tempos são outros. Receio que não haja mais gente como o meu avô. Há, sim, muita técnica, precisão de diagnósticos que revelam o aparecimento microscópico de doenças, drogas excepcionais que prolongam a vida de quem já está enfermo, códigos genéticos decifrados e pesquisas com DNA que podem resgatar o ser humano de doenças incapacitadoras e salvar vidas condenadas. Um novo mundo! Uma maravilha!
Somente uma coisa parece não ter evoluído e nada tem a ver com a ciência e a tecnologia do campo médico. São os relacionamentos humanos envolvidos no processo. Para onde foram parar a compaixão e o respeito pela dor alheia? Certamente, não estou falando de uma maioria de pessoas. Que fique bem claro! Estou a dizer sobre uma minoria de profissionais que agem como se fossem semideuses, pequenos semideuses, destituídos de humanidade e repletos de arrogância no trato com as pessoas. São formados pelas melhores faculdades, são tecnicamente precisos em seus procedimentos, mas incapazes de trazer alento e conforto aos que sofrem... Um dia, quem sabe, esses serão tocados e se transformarão...
Um dia, quem sabe...
À memória da minha querida avó Maria das Neves! Que ela esteja ao lado do Nosso Senhor e que tenha reencontrado seu amado esposo!
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