HOMENAGEM A LULU SANTOS

Bela e, sobretudo, justa a homenagem que o Prêmio Multishow fez, terça-feira última, ao cantor e compositor Lulu Santos, indiscutível sucesso do pop-rock brasileiro há quase 30 anos, embora sua carreira tenha começado ainda nos anos 1970. Foi muito bom assistir nomes como Frejat (ex-Barão Vermelho), Gabriel Pensador, Toni Garrido (Cidade Negra), Rogério Flausino (Jota Quest) e Samuel Rosa (Skank) cantarem alguns dos muitos sucessos de Lulu; obviamente não daria para cantar em uma curta homenagem todos os sucessos dele.

Afinal, foi LS o pioneiro em trazer o som pop-rock para a cena brasileira nos anos 1980. Claro, antes dele houve Tim Maia e Jorge Benjor, mestres do soul nacional que certamente influenciaram Lulu, mas como emblema de cultura pop não há ninguém depois dele. Assim, os cantores que se apresentaram no palco do Municipal em sua homenagem não faziam mais do que beijar a mão do mestre de todos.

Incrível também ver o carisma e o extraordinário poder de comunicação da cantora Ivete Sangalo recebendo, mais uma vez, o prêmio de melhor cantora.

PARTE III - PROGRAMAÇÃO DA TV: BATE-PAPO E FUTEBOL

O terceiro formato de programa televisivo que se destaca não é restrito aos canais pagos, mas é neles que a fórmula parece ser mais bem-sucedida. Falo dos inúmeros "bate-papos" sobre assuntos gerais, aleatórios e aqueles mais específicos relacionados aos esportes, em particular os de futebol.

Ao formar bancadas de mais de três ou quatro comentadores, esses programas têm longa duração, permitindo aos jornalistas e não-jornalistas (muitos são ex-jogadores de futebol e árbitros profissionais) não apenas repassar informações sobre os assuntos abordados, mas também emitir juízos de valor e opiniões pessoais nos quais o alto grau de subjetividade contido neles pode causar alguma indignação. Para quem é apaixonado por futebol pode-se correr o risco de sérios aborrecimentos, mas um olhar mais distanciado permite perceber algum mérito nesse formato de programa.

Vejamos: é, por vezes, bem melhor ouvir de um jornalista ou de um especialista no assunto sua "opinião pessoal" sobre determinado tema como expressão legítima de sua subjetividade do que ouvir alguns desses comentários travestidos de uma pretensa "isenção jornalística ligada a fatos objetivos". Em outras palavras, melhor saber que o sujeito está sendo parcial e subjetivo do que pensar que aquilo que ele fala representa um pensamento coletivo.

Por isso, creio que seja bom tal fomato, possibilitando inclusive que, na condição de espectador, o público envie mensagens por e-mail criticando a posição e até a conduta de qualquer um dos comentadores. No entanto, admito que alguns abusos dos apresentadores e comentadores extrapolam o bom senso e à racionalidade.

Outro dia, um jornalista ou comentador (não sei ao certo porque não o conheço) interrompeu a fala do jornalista Marcelo Barreto, do SporTv, sobre o desempenho dos jogadores do Palmeiras no jogo frente ao Náutico pelo Campeonato Brasileiro para introduzir aquilo que é a mais pura e banal interferência subjetiva. Disse ele: "...Interessante, é sempre num jogo do Náutico que essas coisas (uma certa conduta anti-esportiva por parte dos jogadores, no caso os do Palmeiras) acontecem. Foi antes a mesma coisa com o Botafogo....".

Como era de se esperar, o jornalista Barreto ignorou a intervenção do dito cujo. Afinal levar a sério tal comentário, que pretendia passar a idéia absurda de que os jogadores dos times se modificam, piorando seu comportamento, apenas porque estão jogando com o Náutico é querer forçar muito a barra...Mas, no geral, esse formato de talkie show, especialmente no que diz respeito ao futebol, é bem interessante, reproduzindo no estúdio jornalístico aquilo que as pessoas fazem, informalmente, numa mesa de bar ou numa conversa informal entre amigos.

AUGUSTO AMORIM é jornalista (registro profissional DRT-PE 1.725), mestre em Comunicação e Cultura (UFRJ) e doutorando em Sociologia (UFPE).  

PARTE II - PROGRAMAÇÃO DA TV: JORNALISMO COM HUMOR

Outro excelente programa em exibição no Brasil é o CQC, da Band, visto às 22h, de segunda à sexta-feira, com resumo dos melhores momentos da semana aos sábados, às 20 horas. Comandado por Marcelo Tás, mistura jornalismo com humorismo na medida certa, contemplando por um lado uma crítica satírica e mordaz à sociedade brasileira atual com o seu apego à cultura das celebridades e ao universo da política e dos políticos.

Com relação a esses últimos, o programa não os poupa. O time de repórteres humoristas é inclemente com eles. De certa maneira, ao importuná-los faz aquilo que todos nós, cidadãos, gostaríamos (inconscientemente) de fazer: constrangê-los a ponto de desarmar por completo aquele discurso demagógico e populista que carregam para cima e para baixo.

Seja em Brasília, no Rio e SP, alguns dos políticos correm literalmente dos garotos apresentadores do CQC. Outros os enfrentam. Na boa. É impressionante o timing de comédia que os meninos têm, assim como é adequadamente cirúrgica a intervenção na fala dos demagogos trazendo à tona assuntos que incomodam a eles (os políticos) a ponto de deixá-los sem resposta. Em resumo, é hilariante.

Alguém pode achar que o “Casseta & Planeta” (Globo) e “Pânico na TV” (RedeTV) fazem a mesma coisa que o CQC. Não concordo. Creio que fazem algo apenas aproximado, na melhor das hipóteses, pois não possuem o tom da sutileza e do jornalismo meio desbocado do CQC que o colocam em patamar superior. Para o meu gosto. Suponho que o C&P e o Pânico pretendem se aproximam mais do humor popular e escrachado até pelo recorte que oferece ao entrevistar celebridades que têm pouco a dizer. Nada contra, sobretudo porque esses programas tiveram bons momentos.

Outro aspecto importante é que a galera do CQC trabalha no limite do que é considerado bom gosto, ou seja, eles não ultrapassam a fronteira que separa a irreverência da escatologia. Quem ainda não assistiu, mude o canal para a Band. Com urgência!

AUGUSTO AMORIM é jornalista (registro profissional DRT-PE 1.725), mestre em Comunicação e Cultura (UFRJ) e doutorando em Sociologia (UFPE).  

PARTE I - PROGRAMAÇÃO DA TV: SÉRIES DRAMÁTICAS

Atualmente, três formatos de programas me chamam a atenção na televisão. Um desses são as séries dramáticas semanais produzidas nos EUA, com uma hora de duração cada episódio e cujas temporadas variam de dois a quatro meses por ano, dependendo da série. Já falei de algumas aqui, inclusive uma já finalizada, "A sete palmos", para mim uma das melhores coisas produzidas na televisão em termos de dramaturgia.

Mas, outras são também muito boas e nem sempre são exibidas em canais de televisão aberta no Brasil. Aliás, de um modo geral, essas séries dramáticas, que ocupam o horário nobre (o primetime) nos EUA quase sempre foram percebidas no Brasil, pela crítica de TV como "enalatados", de uma fase que remonta à idéia do imperialismno cultural norte-americano, que de fato existia mesmo, à parte a ideologia contida em tal discurso xenofóbico. Hoje, não se fala de "imperialismo", mas de hegemonia cultural. Bom, mudam as palavras, mas o espírito da coisa é o mesmo.

Ok, voltando ao ponto inicial. Na verdade supõe-se que boa parte do que é exibido no Brasil é o pior produzido por lá. Faz sentido. Excelentes séries como "Lei e Ordem: Unidade de Vítimas Especiais" (já na décima temporada) e "Brothers and Sisters" ainda não apareceram por aqui, sendo possível assisti-las nas TVs pagas. Curiosamente, das cinco ou seis redes de TV abertas brasileiras, a Globo é a que menos se interessa por essas séries norte-americanas, provavelmente porque ainda aposta muito em sua própria dramaturgia, muito embora as novelas não possam ser enquadradas no mesmo formato que as séries dramáticas dos EUA.

Outras redes exibem ou exibiram séries como "CSI", "Without a Trace", "Desperate Housewives", "OZ", "NIP/TUCK" entre outras.

AUGUSTO AMORIM é jornalista (registro profissional DRT-PE 1.725), mestre em Comunicação e Cultura (UFRJ) e doutorando em Sociologia (UFPE).  

O JARDINEIRO E O PINTOR

Um bem sucedido homem de meia-idade resolve deixar a loucura da cidade grande para, no campo, dedicar-se àquilo que melhor sabe fazer, pintar. Lá, contrata um jardineiro para dar conta dos matos e plantas no entorno do casarão em que viveu quando jovem e para o qual está retornando nessa nova fase de vida. Por acaso, o jardineiro foi seu colega de escola em tempo há muito deixado para trás. Entre os dois renasce a amizade que um dia existiu como se, por encanto, o tempo não tivesse passado.

O pintor é um artista urbano que carrega consigo um casamento fracassado, uma relação complicada com a filha e as neuras cotidianas da cidade grande. O jardineiro é um homem simples, de costumes rústicos, absolutamente apaixonado pelo trabalho que realiza e dotado daquele senso de humor "filosófico" que, certamente, a vida simples do campo é capaz de permitir. Um adentra a vida do outro, e vice-versa, sem muita cerimônia. A partir daí acontece o resgate da relação (quase) esquecida no tempo.

Os filmes contemporâneos têm se afastado progressivamente do cinema de personagens ou do cinema do cotidiano, do banal. Imagino que essas histórias tenham pouco apelo em um mundo onde os efeitos sonoros e visuais impedem que se reflita sobre a esfera da vida privada. Há toda uma tradição no cinema francês que contempla as microrrelações. No passado era a nouvelle vague que costumava "complexificar" ao extremo esse mundo do pequeno. Atualmente, com o assédio do cinema comercial em praticamente todas as cinematografias ocidentais, é preciso maneirar, eu suponho... Assim, a proposta estética, formal deve se tornar mais simples, palatável.

Ok, então "Conversas com o meu Jardineiro" é realmente um título adequado ao que se assiste na tela. Outro aspecto interessante é que o cinema de personagens solicita atores de gabarito. E é o que se tem aqui. A partir deles o filme pulsa. Quase sempre, Daniel Auteuil é um ator que costuma roubar a cena de seus colegas; um verdadeiro ladrão de cenas. Em muitos filmes isso acontece(u). Mas, nesse, a coisa se inverte. É Jean-Pierre Darroussin, no papel do jardineiro, que magnetiza todos os olhares, empatizando de uma forma avassaladora com o espectador. Carismática e ao mesmo tempo emocional, sua atuação é a âncora e a razão de ser de "Conversas com meu Jardineiro".

AUGUSTO AMORIM é jornalista (registro profissional DRT-PE 1.725), mestre em Comunicação e Cultura (UFRJ) e doutorando em Sociologia (UFPE).  

DUAS RAINHAS NÃO OCUPAM O MESMO ESPAÇO

Como acontece em muitos filmes hollywoodianos baseados em "fatos reais" ou "fatos históricos" há quase sempre duas atitudes a tomar por parte do espectador. A primeira, crítica, costuma duvidar da idealização e romantização de situações e personagens apresentados corriqueiramente, tornando-se praticamente impossível assistir a tais filmes. A segunda diz respeito a "relaxar" e "viajar" na ficionalização dos tais fatos reais que se mostram à nossa frente, percebendo o filme não como uma aula de história social, mas como puro entretenimento. Há exemplos emblemáticos do que estou falando na indústria cinematográfica norte-americana.

Com relação ao filme "A Outra" não há outra (desculpe o trocadilho!) opção que não seja a segunda. Se o espectador mais avisado sobre fatos históricos for capaz de fechar os olhos para alguns "buracos" da incorreção histórica, terá diante de si um divertimento bastante razoável. Na narrativa construída a partir das relações de Henrique VIII, lendário soberano inglês, com duas de suas mulheres, Catarina de Aragão e Ana Bolena, e mais uma inusitada amante que prosaicamente era a irmã de Ana, falta exatidão nas datas, no sentido de tempo cronológico, incompatível com alguns fatos e, sobretudo, carece de coerência no tratamento dado ao personagem do monarca inglês.

Henrique VIII é visto aqui de uma forma vacilante e contraditória, pois com uma mulher, Maria Bolena, é capaz de torná-la sua escrava, sem se preocupar com nada - como, aliás, condiz a um rei absoluto -, para imediata e estranhamente ser submetido aos caprichos e vontades da irmã de sua amante, Ana, que viria a se tornar Rainha da Inglaterra, mais conhecida como "Ana dos Mil Dias". Ok, deixo a polêmica para os histpriadores e a autora do livro que inspirou o roteiro do filme, Phillipa Gregory, que, ao que parece, é escritora especializada em histórias sobre a monarquia britânica.

Mas, no filme permanece intacta a tese de que Henrique VIII, além de sexualmente ativo, era obstinado em ter um varão que o sucedesse no trono, motivo pelo qual foi casado tantas vezes sem conseguir o seu intento. Na verdade quem o sucedeu depois de mais de 40 anos à frente da Inglaterra foi exatamente sua filha Elizabeth, filha de Ana Bolena.

Apesar de tudo, o filme prende a atenção, sobretudo porque conta com duas ótimas protagonistas, Natalie Portman (Ana) e Scarlett Johansson (Maria), que ora se antagonizam ora se solidarizam na rivalidade com relação ao homem que ambas aparentemente amaram, ainda que forçada pelas circunstâncias.

As duas atrizem constroem essa contraposição alicerçadas naquilo em que ambas se tornaram conhecidas: a Portman pela beleza e vivacidade; a Johansson pelo exotismo e tragicidade estampada em sua face. É um belo duelo, realçado pela presença luminosa no papel de Catarina de Aragão de Ana Torrent, atriz cuja estréia no cinema aos 10 anos de idade se deu no papel principal do extraordinário "Cría Cuervos", de Carlos Saura. Destaque também para a presença de Kristin Scott-Thomas como a mãe das irmãs; um papel secundário valorizado pela atriz inglesa.

Enfim, é um filme em que mais uma vez o ponto de vista feminino é privilegiado em detrimento à visão masculina dos fatos. Os personagens masculinos são monolíticos, rasos e previsíveis, desprovidos de qualquer ambigüidade e humanidade, além do que são postos quase como peças secundárias na narrativa dramática do filme. Divertido, mas não é para ser levado muito a sério.

AUGUSTO AMORIM é jornalista (registro profissional DRT-PE 1.725), mestre em Comunicação e Cultura (UFRJ) e doutorando em Sociologia (UFPE).  

EM BUSCA DE UMA RAZÃO PARA O FIM DOS TEMPOS

Li ou ouvi em algum lugar que M. Night Shyamalan afirmara uma vez que faz filmes do gênero terror-suspense porque acredita que há algo de religioso nessas narrativas. Imagino que se refira às suas produções, nas quais é freqüentemente aquele homem que solta fumaça pelos ouvidos e nariz, ou seja, o diretor-produtor-roteirista. Não sei dizer se realmente ele falou tal coisa, mas a julgar por seu recente trabalho, "Fim dos Tempos", imagino que Shyamalan esteja se referindo a outros de seus filmes.

Vejamos. Pelo que entendi de sua mirabolante trama, os indivíduos são tomados por uma estranha força que se apodera dos mecanismos cerebrais de auto-proteção e passam a atentar contra suas próprias vidas, não sem antes entrarem em confusão mental e paralisia quase catatônica. Tudo isso é causado por alguns espécimes do reino vegetal que, de tão agredidos pela poluição, metabolizam substâncias venenosas e altamente mortais para os humanos. O pior de tudo é que para ser atingido por esse veneno vegetal não precisa sequer tocar nas plantinhas, basta esperar que o vento se encarrega de fazer o serviço e propagar pelo ar as letais substâncias. Então, cada vez que dá um ventinho, dezenas de indivíduos cometem auto-imolação.

Gostaram? Isso é tudo o que o filme será capaz de oferecer como explicação e justificação para as duas horas que se seguem nas quais se sucedem diálogos estranhos e personagens risíveis (o que John Leguizamo faz por aqui mesmo???). Ao contrário do comum em filmes com esse argumento não há nenhuma autoridade pública ou cientista de renome tentando explicar qualquer coisa, restando aos perdidos personagens apenas fugir. Para onde? Qualquer lugar onde haja pouca gente porque, lá pela metade do filme, sabemos que a aglomeração facilita a propagação da confusão mental coletiva que contamina uns aos outros.

Mas, eis que quando tudo parece explicado surge uma tresloucada senhora vivendo como uma eremita em algum fim de mundo do interior dos EUA, que, ao abrigar o casal protagonista e à inevitável criancinha, simplesmente pira se transformando numa versão mais amena de Jason, de Sexta-Feira 13. Subitamente, a senhora é tomada pelo tal veneno vegetal depois de uma forte ventania e se mata numa carnificina bem apropriada para um filme B. É esse o clímax. (Ué, ela não vivia sozinha? Por que foi afetada?). Depois, bem, depois Shyamalan precisa encerrar a história. Tudo volta ao normal e... já que contei praticamente tudo o que acontece, vou deixar pelo menos o final oculto, se é que alguém vai querer assistir ao filme...

"O Sexto Sentido" foi o grande trabalho de Shyamalan. Tratava-se de uma narrativa extremamente bem acabada naquilo que um filme de suspense ou de terror tem de mais importante - roteiro e montagem -, que guardam para o final a grande e plausível surpresa. Após, foi só ladeira abaixo. Tentando repetir o sucesso do filme estrelado por Bruce Willis e o incrível Haley Joel Osment, o diretor passou a fazer filmes que tratam do mistério como...mistério... Ou, em outras palavras, passou a não se preocupar em explicar muita coisa de suas tramas, gerando filmes estranhos e um tanto indecifráveis sob o ponto de vista metafísico.

Parece-me que em se tratando do gênero, essa economia de boas explicações resultam em filmes especulativos. Será que é isso que ele se refere como "algo de religioso" que filmes como "Corpo Fechado" e "Sinais" contêm? Não assisti a "Dama da Água", seu trabalho imediatamente anterior a "Fim dos Tempos", considerado pelos críticos nos EUA como uma das piores produções de 2006, concorrendo até ao Framboesa de Ouro como pior filme. Mas, em "A Vila" o que se observa é o âmbito das fraquezas e vulnerabilidades do homem que, incapaz de viver numa sociedade contemporânea repleta de violência, recorre à mistificação como forma de aprisionar os seus semelhantes e isolá-los do mundo agressivo.

Ok. Das duas uma. Para a satisfação do espectador que deseja vê-lo produzir algo próximo de "O Sexto Sentido", ou o diretor desiste dos filmes do gênero ou esquece definitivamente os "elementos religiosos" contido em suas produções. É pegar ou largar.

AUGUSTO AMORIM é jornalista (registro profissional DRT-PE 1.725), mestre em Comunicação e Cultura (UFRJ) e doutorando em Sociologia (UFPE).  

AS PERNAS MAIS BELAS DO CINEMA

Morreu nos EUA Cyd Charisse, aos 86 anos. Elegantemente sexy e sedutora em inúmeros e inesquecíveis musicais hollywoodianos dos anos 1940-50, a atriz e dançarina foi capaz, com a sua arte, de roubar a cena (imagina a ousadia!) de pessoas como Fred Astaire e Gene Kelly, os dois melhores atores-bailarinos que reinaram na golden era do cinema norte-americano. Não foi pouca coisa.

Muito além de simplesmente ser a partner desses artistas, Cyd era sublime enquanto bailava. Foram muitos os seus belos momentos nos filmes, mas aquela sofisticada e sensual seqüência de dança com Astaire em "A Roda da Fortuna" (1953) está marcada de forma indelével no imaginário dos amantes do cinema e certamente figura como um dos momentos clássicos da história dos musicais.

Como se isso não bastasse, ainda possuía pernas que eram consideradas as mais belas de Hollywood. Realmente um espetáculo!

BRASILEIRO GANHA TONY DE MELHOR ATOR

O ano de 2008 está sendo bem positivo para os artistas brasileiros no plano internacional. Depois de Sandra Corveloni ganhar o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes, o barítono Paulo Szot levou para casa, neste final de semana, o Tony de melhor ator em espetáculos musicais, por sua atuação numa nova remontagem de "South Pacific", um clássico da Brodaway que, aliás, teve uma versão cinematográfica de pouco êxito, dirigida por Joshua Logan em 1958.

Em tempo: o Tony está para o teatro assim como o Oscar está para o cinema.

No link abaixo, texto da Agência Reuters veiculado pelo UOL Diversão e Arte sobre a entrega dos Tonys:

http://diversao.uol.com.br/ultnot/reuters/2008/06/16/ult26u26451.jhtm

WOODY ALLEN SE REINVENTA

Ninguém duvida que Woody Allen é um dos mais importantes cineastas norte-americanos contemporâneos e isso desde meados dos anos 1970 quando surpreendeu o mundo com "Noivo Neurótico Noiva Nervosa" (1977), ao introduzir um novo estilo de comédia urbana, abordando de frente temáticas sexuais e comportamentais já no rastro da contracultura que marcou o Ocidente nos anos 1960-70.

Depois disso, virou sinônimo de comédia inteligente, refinada, sarcástica e irônica, bem longe do gênero da comédia romântica que Hollywood consagrou ao longo de sua história. Na década de 1980 dirigiu algumas obras-primas do cinema dos EUA: "Zelig" (1983), "A Rosa Púrputa do Cairo" (1985) e "A Era do Rádio" (1987) etc. É ainda responsável por coisas deliciosas como "Maridos e Esposas" (1992) e "Desconstruindo Harry" (1997). Com esse currículo poderia tranqüilamente se aposentar pois já trabalhara bastante e colocado seu nome no seleto grupo de grandes autores.

Mas, incansável, Allen tem reinventado seu cinema; alguns dos seus filmes mais recentes têm sinalizado nessa direção. É bem verdade que, já mesmo nos anos 1970, o diretor tentara tomar o rumo de um cinema de contornos mais dramáticos - ao que se diz é um admirador do cinema de Bergman -, dirigindo filmes como "Interiores" (1978) e "A Outra" (1988), trabalhos que não são ainda considerados pela crítica no mesmo nível que suas comédias.

Na atual fase de reinvenção, o diretor mudou suas tramas para a Inglaterra, produzindo uma trilogia britânica que rendeu o potente "Match Point" (2005). Nesse caso, o terceiro filme realizado na Inglaterra, "Sonho de Cassandra" aponta para um Allen renovado e pouco visto. Ou melhor, ainda não visto pois se trata de um filme um tanto sombrio, praticamente desprovido do humor nervoso e loquaz visto comumente em sua obra, além de trazer Colin Farrell em papel sem o glamour que o astro irlandês tem se acostumado em Hollywood. Sua composição de um perdedor, alcoólatra e viciado em jogos e remédios, é uma de suas melhores atuações, assim como a de Ewan McGregor.

Ao contar a história de dois irmãos de classe média envolvidos com problemas financeiros e subitamente incumbidos de uma difícil missão por seu tio milionário, Allen constrói uma narrativa sólida, cuja tensão em torno da ação empreendida pelos irmãos é crescente e envolve o espectador. Visto sob essa ótica, se o filme não alcança o nível de uma obra de suspense tradicional ao estilo de um Alfred Hitchcock, ganha pontos ao traçar um perfil extramamente verossímel - e até realista - de uma certa classe média, aproximando-se do plot bastante explorado pelo cinema do sujeito comum repentinamente envolvido numa situação extrema.

O próprio Hitchcock recorria freqüentemente a essa idéia em filmes como "O Homem Errado" ou "Intriga Internacional, entre outros. Aliás, a "troca" de favores entre tio e sobrinhos também se aproxima de "Pacto Sinistro", outro trabalho de Hitchcock. Assim, talvez não seja tão coincidência que as três produções de Woody Allen na Inglaterra (o segundo filme foi "Scoop") estejam tão próximos de uma representação tradicional da Inglaterra que nos remete ao filme policial e de suspense. Mas, curiosamente, o desenlace que ele propõe para este "Sonho de Cassandra" vai na direção de um cinema europeu mais sintonizado com a unidade e coerência do todo do que um previsível final feliz hollywoodiano.

Woody Allen, que trabalha há 30 anos com os mesmos produtores Charles H. Joffe e Jack Rollins, numa das mais interessantes parcerias do cinema, afirmou certa vez que fazia filmes para poucos. Suas produções quase sempre se pagam e geram algum lucro mínimo para seus produtores, mas estão certamente longe dos grandes orçamentos e dos retornos financeiros da pesada indústria cinematográfica norte-americana, o que permite que ele faça exatamente o cinema que gosta, cujo compromisso é apenas com as suas idéias.

AUGUSTO AMORIM é jornalista (registro profissional DRT-PE 1.725), mestre em Comunicação e Cultura (UFRJ) e doutorando em Sociologia (UFPE).  

O CINEMA EM 33 VERSÕES

Para comemorar os 60 anos de existência do Festival de Cannes, o seu diretor Gilles Jacob encomendou a 33 renomados cineastas do mundo inteiro pequenas narrativas sobre a experiência do espectador na sala de cinema, resultando no filme "Cada um com seu cinema".

Como era previsível, o longa-metragem que daí resultou é uma colcha de retalhos de propostas estéticas as mais diversas, que vão desde a linguagem mais narrativa até o experimento absoluto. É bem verdade que a idéia de Jacob ensejava exatamente isso. Sendo assim, é quase impossível analisar o filme sob a ótica de uma narrativa de longa-metragem, a menos que se queira destacar alguns elementos que se repetem em alguns segmentos do filme, como a nostalgia das salas de cinema abandonadas, a experiência subjetiva e solitária (algumas vezes não tão solitária assim...) de se assistir a um filme, o cinema como fator de aglutinação e união de sujeitos etc.

Gostei das propostas de Bille August ("The Last Dating Show"), Alejandro Gonzalez Iñárritu ("Anna"), Abbas Kiarostami ("Where is my Romeo?"), Roman Polanski ("Cinéma Erotique"), Lars Von Trier (""Occupations"), Manoel de Oliveira ("Rencontre Unique"), David Cronenberg ("At the Suicide of the Last Jew in the World in the Last Cinema in the World"), Ken Loach ("Happy Ending"). Há ainda algumas referências literais ao Festival de Cannes realizadas por Claude Lelouch ("Cinéma de Boulevard"), Youssef Chahine ("47 Ans Après") e o brasileiro Walter Salles ("A 8.944 km de Cannes").

AUGUSTO AMORIM é jornalista (registro profissional DRT-PE 1.725), mestre em Comunicação e Cultura (UFRJ) e doutorando em Sociologia (UFPE).  

UMA PRINCESA MAL COMPORTADA E SUAS CONSEQÜÊNCIAS

Se é possível levar a sério o enredo do filme "Efeito Dominó" como fato real, conforme está colocado em seus créditos, pode-se tranquilamente afirmar que os súditos (e cidadãos contribuintes) da rainha da Inglaterra Elizabeth II têm uma eterna dívida de gratidão com a outrora tresloucada irmã de sua majestade, a princesa Margaret. Afinal, foi graças às suas estripulias sexuais que uma rede de corrupção montada infiltrada na polícia inglesa foi desmontada, assim como uma espécie de célula terrorista ligada ao black power dos anos 1960-1970 teve seu crescimento detido.

Sem dúvida, um grande álibi e salvo-conduto que o cinema proporciona para a permanência do regime monárquico de sistema parlamentarista na terra de Henrique VIII. Aliás, como o cinema inglês é hábil nisso, não? Consegue fazer filmes extraordinários mesmo defendendo algo praticamente injustificável em pleno século XXI em nome de uma representação (e exportação) da identidade inglesa para o mundo, que sem dúvida deve render ($) bastante para eles.

Mas, vamos ao que interessa. "Efeito Dominó" é um charmoso e sedutor filme de roubo de banco que reúne em dosagens bem medidas todos os elementos comuns a esse filme de gênero: há perdedores com possibilidade de uma grande virada em suas vidas, além de relações familiares, amorosas, sexuais e de amizade. Ou seja, personagens verossímeis envolvidos em situações possíveis prontos a empreenderem uma jornada de conquista mesmo que por vias tortas. Identificação total com o espectador. Posto dessa forma, acho que se trata de um filme 100% inglês que se serve e sintoniza bem com a melhor narrativa hollywoodiana do policial de suspense. Junte-se a tudo isso os irressistíveis e diversos sotaques britânicos, senso de humor, muita adrenalina e testosterona.

O diretor Roger Donaldson teve nas mãos um excelente argumento, mas sem dúvida deve-se a sua narrativa o ritmo enxuto com que as situações se sucedem, onde a fotografia e a montagem atuam como fatores decisivos para determinar a atração que o filme proporciona. Donaldson é ainda diretor de um bom filme de suspense dos anos 1980 com Kevin Costner, Gene Hackman e Sean Young, chamado "Sem Saída", injustamente relegado ao esquecimento. Em suma, tem-se em "Efeito Dominó" a fórmula de sucesso para qualquer filme: uma boa história bem filmada e bem montada. Não é pouca coisa. Entretenimento classe A garantido.

AUGUSTO AMORIM é jornalista (registro profissional DRT-PE 1.725), mestre em Comunicação e Cultura (UFRJ) e doutorando em Sociologia (UFPE).  

MÍDIA E DISCRIMINAÇÃO

É triste o episódio ocorrido no Estádio dos Aflitos envolvendo a expulsão do jogador André Luís, do Botafogo (RJ), que na partida com o Náutico, no Recife, deu visíveis demonstrações de indisciplina e espírito anti-esportivo.

Mas, ainda mais lamentável é a maneira pela qual a mídia do Sudeste vem abordando a questão, atribuindo ao clube pernambucano uma responsabilidade que ele obviamente não tem na condução do episódio e em seus desdobramentos.  Está se fazendo um jornalismo discriminatório e preconceituoso com os estados e clubes do Nordeste, ao se enfatizar uma alegada má condição do estádio para sediar partidas do campeonato brasileiro e deixar de lado a má conduta do atleta como o epicentro de todo o problema.

Em tempos e era globalizados, híbridos e multiculturais, a mídia hegemônica do país dá inequívocas demonstrações de falta de isenção no julgamento da questão, acarretando apenas a externalização de preconceitos culturais.

SURPRESA!

A atriz brasileira Sandra Corveloni, estreante em cinema e estrela de "Linha de Passe", filme dirigido por Walter Salles e Daniela Thomas, ganhou a Palma de Ouro de interpretação feminina no Festival de Cannes, finalizado ontem. Abaixo link com texto de Alessandro Giannini, editor do UOL Cinema, sobre a surpreendente premiação na França:

http://cinema.uol.com.br/cannes/ultnot/2008/05/25/ult5900u42.jhtm

LATINOS UNI-VOS!

Existe há tempos uma discussão na comunidade cinematográfica latino-americana sobre a necessidade de se reunir esforços conjuntos para que os cinemas nacionais da região possam realizar co-produções internacionais. Sonho antigo que data dos anos 1960, pouquíssimo posto em prática, mas absolutamente necessário quando se pensa em globalização econômica e cultural.

A Europa faz isso desde quando não se ouvia falar nesses conceitos. França, Espanha, Itália, Inglaterra e Alemanha, as cinematografias mais consistentes do continente, estão envolvidas em co-produções que fazem seus cinemas resistirem ao furacão mercadológico do cinema hollywoodiano em todo o mundo, especialmente no Ocidente livre.

Mas, para nós latinos, faltam políticas culturais mais eficazes e efetivas e sobram promessas vãs. Você sabem, nessas plagas, cultura audiovisual é ainda considerado artigo de luxo, perfumaria que interessa a poucos. Mas, taí essa disciplina nova surgindo, a economia da cultura, para fazer os gestores e políticos da AL verem aquilo que os povos ditos mais civilizados já perceberam há décadas. É esperar para ver.

Enquanto isso, "Bodas de Papel", de André Sturm, é uma dessas raras e louváveis tentativas de aproximação cultural, pela via do audiovisual, de brasileiros e argentinos. Uma bela idéia materializada em um roteiro interessante, mas de uma relativa precariedade na execução cinematográfica.

Explico: o filme tem qualidades, mas o reduzido orçamento de produção parece ter definido a filmagem em digital para ser transposta na pós-produção para película. E isso fica bastante evidente na imagem com pouca profundidade de campo e em uma exagerada utilização de câmera na mão, uma coisa meio em moda no cinema brasileiro desde que Fernando Meirelles embasbacou o mundo com o extraordinário uso desse recurso de linguagem em "Cidade de Deus", que, sendo uma obra-prima, é natural que se queira copiá-lo, mas acho que estão exagerando...

Não acredito que um filme pequeno, intimista, que se centra em personagens necessite de tal procedimento. Creio que planos mais fixos destacariam melhor a beleza interior que certamente tem os personagens do casal apaixonado (o argentino Dario Grandinetti e a brasileira Helena Ranaldi, que dão conta do recado muito bem), da vida interiorana (participações deliciosas de Cleyde Yaconis e Walmor Chagas) e daquilo que parece ser o desejo de enfatizar o vivido, o cotidiano com seus movimentos previsíveis e rotineiros e, também, com as raras surpresas que nos acometem vez por outra.

O argumento do filme é sensível, delicado, propõe uma love story distante dos apelos melosos comuns a filmes do gênero. No final, "Bodas de Papel" tem o brilho tímido de uma estrela que, olhada no céu, parece não se destacar dentre as outras, mas que talvez, vista pelo telescópio, ganhe uma nova dimensão. Um filme a ser conferido.

AUGUSTO AMORIM é jornalista (registro profissional DRT-PE 1.725), mestre em Comunicação e Cultura (UFRJ) e doutorando em Sociologia da Comunicação (UFPE).  

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