OS BONS, OS MAUS E O EXISTENCIALISMO TROPICAL

Penso que existem duas narrativas, quase dois "filmes" distintos em "Aquarius"; concepções que coexistem, relacionam-se entre si, exibem-se paralelamente, mas são esteticamente diversas, quase independentes.

O primeiro dos "filmes" diz respeito à noção de cinema de personagem, algo que pode ser compreendido como um subgênero dramático, no qual o tal personagem é a jornalista Clara, 65 anos, moradora de Boa Viagem, aposentada, destemida e aferrada às convicções pessoais - qualificativos que a identificam mas não a definem completamente.

Nessa narrativa de exposição da intensa subjetividade da personagem, interpretada com evidentes méritos por Sonia Braga, percebe-se um retrato bem acabado, afinal,  ela é "a" personagem e a razão pela qual "Aquarius" se justifica.

Nessa primeira narrativa, essa subjetividade da jornalista é, em larga medida, expressa e articulada com as suas distintas relações interpessoais (familiares, empregados, amigos, conhecidos  -  são muitos em todas essas categorias).

Contudo, e curiosamente, se Clara, apenas por si, aparenta ser bem construída, o mesmo não se pode dizer da série de personagens coadjuvantes que a orbitam e com quem ela interage por meio de longos diálogos sobre o vivido.

Há pelo menos duas ou três situações nas quais o esquematismo desborda.

Exemplifica-se:

A cunhada interpretada por Paula de Renor explica que, em outros tempos, uma antiga ex-empregada doméstica negra (tida como uma "cozinheira de mão cheia", na definição de Clara) , roubara as jóias da família, provavelmente como resposta à hipotética exploração sofrida por sua condição subalterna, afinal, "a gente explora elas e elas roubam a gente".

Exprime-se uma consciência culpada ou verbaliza-se literalmente o pensamento  de uma dada classe média intelectual excessivamente ideologizada?

Em outro momento, e já focado no tal "segundo" filme que vou abordar adiante, o melífluo e posteriormente agressivo jovem administrador da construtora (atuação destacada de Humberto Carrão) - que pretende adquirir o apartamento de Clara para, no lugar do edifício já totalmente sob sua propriedade, construir um novo arranha-céu -, dispara diante da recusa da senhora em lhe repassar o dito cujo apartamento: "por sua cor, meio moreninha, dá pra ver que sua família lutou bastante, né?".

É sério isso? Alguém conhece o tipo físico de Carrão? Moramos no mesmo Recife retratado no filme? Somos nórdicos assim? Até que ponto pode ir a ideologização da questão do racismo?

Fico a pensar como as plateias caucasianas dos festivais mundo afora percebem, de verdade, esse tipo de abordagem.

Vida que segue: se, no "primeiro" filme, os tempos mortos, os diálogos sobre o banal e a expressão do vivido justificam, por escolha estética, a longa duração de sequências inteiras, desvinculando-se da noção de narrativa clássica, o "segundo" filme dá uma virada em tal entendimento.

Num turning point, a narrativa faz um movimento de retorno à noção mais tradicional, vislumbrada no início do filme, aquela da trama, da história, do enredo, sustentáculo do cinema narrativo e, também, do cinema comercial tal como o conhecemos.

Nesta concepção, estabelece-se claramente o arco dramático sobre o embate entre a protagonista (a heroína Clara) e o antagonista (o vilão capitalista boyzinho recifense), no qual início, meio e fim estão devidamente configurados.

Todos os crimes serão punidos?

Não vou dar uma de spoiler sobre se o desenlace foi pensado com o condão de tornar o filme vendável no exterior, mas o ditado popular diz que, para todo bom entendedor, meia palavra basta.

A ÚLTIMA SESSÃO DE CINEMA

"O Último Cine Drive-In", de Iberê Carvalho, outro belo filme brasileiro que a mídia, os distribuidores e o público do nosso país ignoraram completamente, poderá, em tempos de streamming, ser exibido em conhecida plataforma da internet.

O filme conta, por meio de linguagem simples e de forma delicada, a história de um homem que retorna à sua cidade por conta da mãe, acometida de grave doença. Além do aspecto familiar, o cara ainda se depara com a heroica resistência do pai em continuar fazendo funcionar o cine drive-in de propriedade da família, com a leal ajuda de apenas dois funcionários.

Por obviedade desses nossos tempos tecnológicos, o local está ameaçado de fechar, e para além disso tudo o contexto de perdas vai repercutir intensamente nas escolhas desse homem.

OS MELHORES DO CINEMA BRASILEIRO EM 2015

A Academia Brasileira de Cinema anunciou, hoje, os indicados ao Prêmio Grande Otelo aos melhores de 2015.

"Que Horas Ela Volta?", de Anna Muylaert, lidera com 14 nomeações, incluindo melhor filme, melhor direção, melhor atriz (Regina Casé) e melhor roteiro original.

Em seguida vem o polêmico e irregular filme "Chatô - o rei do Brasil" (que levou mais de 20 anos entre o início da produção e o seu lançamento), com doze postulações, incluindo melhor filme, melhor atriz (Andréa Beltrão), melhor ator (Marco Ricca) e melhor roteiro adaptado. Curiosamente, Guilherme Fontes não foi relacionado entre os finalistas a melhor diretor.

Uma boa notícia foi a inclusão do ótimo filme independente "Casa Grande", de Felipe Gamarano Barbosa, que está relacionado em dez categorias, inclusive melhor filme, melhor direção e melhor roteiro original.

Outro justo reconhecimento foi para "A História da Eternidade", do pernambucano Camilo Cavalcanti, indicado para sete prêmios, entre estes melhor filme, melhor direção, melhor roteiro original e melhor atriz para Marcélia Cartaxo.

Senti falta de maior reconhecimento para o belo filme "Órfãos do Eldorado", de Guilherme Coelho, adaptado da obra de Milton Hatoum, que alcançou apenas cinco indicações (atriz para Dira Paes, roteiro adaptado, fotografia, montagem e efeitos visuais), mas que, penso eu, merecia figurar como melhor filme e melhor direção.

A premiação acontece no dia 04 de outubro, no Rio de Janeiro.

Abaixo, a listagem completa:

MELHOR LONGA-METRAGEM DE FICÇÃO

A HISTÓRIA DA ETERNIDADE de Camilo Cavalcanti. Produção: Camilo Cavalcanti por Aurora Cinema e Marcello Ludwig por Republica Pureza Filmes

AUSÊNCIA de Chico Teixeira. Produção: Denise Gomes, Lili Bandeira e Paula Consenza por BossaNovaFilms

CALIFÓRNIA de Marina Person. Produção: Carmem Maia, Giulia Setembrino, Gustavo Rosa de Moura e Marina Person por Mira Filmes

CASA GRANDE de Fellipe Gamarano Barbosa. Produção: Iafa Britz por Migdal Filmes e Mauro Pizzo por Guiza Produções

CHATÔ – O REI DO BRASIL de Guilherme Fontes. Produção: Guilherme Fontes por Guilherme Fontes Filmes

QUE HORAS ELA VOLTA? de Anna Muylaert. Produção: Caio Gullane, Fabiano Gullane, Debora Ivanov por Gullane e Anna Muylaert por África Filmes

SANGUE AZUL de Lírio Ferreira. Produção: Beto Brant, Lírio Ferreira e Renato Ciasca por Drama Filmes

TUDO QUE APRENDEMOS JUNTOS de Sérgio Machado. Produção: Caio Gullane, Fabiano Gullane, Debora Ivanov e Gabriel Lacerda por Gullane

 

MELHOR LONGA-METRAGEM DOCUMENTÁRIO

BETINHO, A ESPERANÇA EQUILIBRISTA de Victor Lopes. Produção: Angela Zoé por Documenta Filmes

CAMPO DE JOGO de Eryk Rocha. Produção: Eryk Rocha por Aruac Filmes, Mônica Botelho por Mutuca Filmes e Samantha Capdevile por Filmegraph

CÁSSIA ELLER de Paulo Henrique Fontenelle. Produção: Iafa Britz e Carolina Castro por Migdal Filmes

CHICO – ARTISTA BRASILEIRO de Miguel Faria Jr. Produção: Migue | Faria Jr. e Jorge Peregrino por 1001 filmes ltda

ÚLTIMAS CONVERSAS de Eduardo Coutinho. Produção: João Moreira Salles por Vídeo Filmes

 

MELHOR LONGA-METRAGEM COMÉDIA

INFÂNCIA de Domingos Oliveira. Produção: Domingos Oliveira por Teatro Ilustre e Renata Paschoal por Forte Filmes

PEQUENO DICIONÁRIO AMOROSO 2 de Sandra Werneck. Produção: Sandra Werneck por Cineluz Produções

S.O.S. MULHERES AO MAR 2 de Cris D’Amato. Produção: Julio Uchôa por Ananã Produções

SORRIA, VOCÊ ESTA SENDO FILMADO de Daniel Filho. Produção: Daniel Filho por Lereby Produções

SUPER PAI de Pedro Amorim. Produção: David Gerson, Guilherme Keller, João Queiroz e Justine Otondo por Querosene Filmes

 

MELHOR LONGA-METRAGEM ANIMAÇÃO

ATÉ QUE A SBÓRNIA NOS SEPARE de Otto Guerra. Produção: Marta Machado e Otto Guerra por Otto Desenhos Animados

RITOS DE PASSAGEM de Chico Liberato. Produção: CandidaLuz Liberato por Liberato Produções Culturais Ltda ME

 

MELHOR DIREÇÃO

ANNA MUYLAERT por Que horas ela volta?

CAMILO CAVALCANTI por A história da eternidade

CHICO TEIXEIRA por Ausência

DANIEL FILHO por Sorria, você esta sendo filmado

EDUARDO COUTINHO por Últimas conversas

ERYK ROCHA por Campo de jogo

FELLIPE GAMARANO BARBOSA por Casa Grande

 

MELHOR ATRIZ

ALICE BRAGA como EVA por Muitos homens num só

ANDRÉA BELTRÃO como VIVI por Chatô – o rei do Brasil

DIRA PAES como FLORITA por Órfãos do Eldorado

FERNANDA MONTENEGRO como DONA MOCINHA por Infância

MARCÉLIA CARTAXO como QUERÊNCIA por A história da eternidade

REGINA CASÉ como VAL por Que horas ela volta?

 

MELHOR ATOR

DANIEL DE OLIVEIRA como GUIMA por A estrada 47

IRANDHIR SANTOS como NEY por Ausência

JOÃO MIGUEL como AUGUSTO MATRAGA por A hora e a vez de Augusto Matraga

LÁZARO RAMOS como LAERTE por Tudo que aprendemos juntos

MARCO RICCA como CHATÔ por Chatô – o rei do Brasil

 

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

CAMILA MÁRDILA como JÉSSICA por Que horas ela volta?

FABIULA NASCIMENTO como ROSA por Operações especiais

GEORGIANA GOES como LIA por Casa Grande

KARINE TELES como DONA BÁRBARA por Que horas ela volta?

LEANDRA LEAL como LOLA por Chatô – o rei do Brasil

 

MELHOR ATOR COADJUVANTE

ÂNGELO ANTÔNIO como CÉSAR por A Floresta que se move

CHICO ANYSIO como MAJOR CONSILVA por A hora e a vez de Augusto Matraga

CLAUDIO JABORANDY como NATANIEL por A história da eternidade

LOURENÇO MUTARELLI como DR. CARLOS por Que horas ela volta?

MARCELLO NOVAES como HUGO por Casa Grande

 

MELHOR DIREÇÃO DE FOTOGRAFIA

ADRIAN TEIJIDO por Órfãos do Eldorado

BÁRBARA ALVAREZ por Que horas ela volta?

JOSÉ ROBERTO ELIEZER, ABC por Chatô – o rei do Brasil

LULA CARVALHO por A hora e a vez de Augusto Matraga

MAURO PINHEIRO JR por Sangue azul

 

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

ADIRLEY QUEIRÓS por Branco sai, Preto fica

ANNA MUYLAERT por Que horas ela volta?

CAMILO CAVALCANTI por A história da eternidade

FELLIPE GAMARANO BARBOSA e KAREN SZTAJNBERG por Casa Grande

-VICENTE FERRAZ por A estrada 47

 

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

DOMINGOS OLIVEIRA – adaptado da obra teatral “Do fundo do lago escuro” de Domingos Oliveira – por Infância

GUILHERME COELHO – adaptado da obra “Orfãos do Eldorado” de Milton Hatoum – por Órfãos do Eldorado

GUILHERME FONTES, JOÃO EMANUEL CARNEIRO e MATTHEW ROBBINS – adaptado da obra “Chatô – O Rei do Brasil” de Fernando Morais – por Chatô – o rei do Brasil

LUSA SILVESTRE e MARCELO RUBENS PAIVA – adaptado da Obra teatral “No Retrovisor” de Marcelo Rubens Paiva – por Depois de tudo

MANUELA DIAS e VINÍCIUS COIMBRA – adaptado da obra “Sagarana – conto: A hora e a vez de Augusto Matraga” de João Guimarães Rosa – por A hora e a vez de Augusto Matraga

MARCOS JORGE – adaptado da obra “Os velhos marinheiros” de Jorge Amado – por O duelo

 

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE

ANA MARA ABREU por Califórnia

ANA PAULA CARDOSO por Casa Grande

GUALTER PUPO por Chatô – o rei do Brasil

JULIA TIEMANN por A história da eternidade

JULIANA CARAPEBA por Sangue azul

MARCOS PEDROSO e THALES JUNQUEIRA por Que horas ela volta?

 

MELHOR FIGURINO

ANDRÉ SIMONETTI e CLAUDIA KOPKE por Que horas ela volta?

BETH FILIPECKI e REINALDO MACHADO por A hora e a vez de Augusto Matraga

ELISABETTA ANTICO por A estrada 47

GABRIELA CAMPOS por Casa Grande

LETÍCIA BARBIERI por Califórnia

RITA MURTINHO por Chatô – o rei do Brasil

 

MELHOR MAQUIAGEM

ANNA VAN STEEN por Califórnia

AURI MOTA por Casa Grande

FEDERICO CARRETTE e VICENZO MASTRANTONO por A estrada 47

MARIA LUCIA MATTOS e MARTÍN MACIAS TRUJILLO por Chatô – o rei do Brasil

TAYCE VALE e VAVÁ TORRES por A hora e a vez de Augusto Matraga

 

MELHOR EFEITO VISUAL

BERNARDO ALEVATO e ISADORA HERTZ por Órfãos do Eldorado

GUILHERME RAMALHO por Que horas ela volta?

MARCELO SIQUEIRA, ABC por Linda de morrer

MARCUS CIDREIRA por Chatô – o rei do Brasil

ROBSON SARTORI por A estrada 47

 

MELHOR MONTAGEM FICÇÃO

ALEXANDRE BOECHAT por A hora e a vez de Augusto Matraga

FELIPE LACERDA e UMBERTO MARTINS, ABC por Chatô – o rei do Brasil

KAREN HARLEY por Órfãos do Eldorado

KAREN HARLEY por Que horas ela volta?

MAIR TAVARES por A estrada 47

 

MELHOR MONTAGEM DOCUMENTÁRIO

CARLOS NADER e ANDRÉ BRAZ por Homem Comum

DIANA VASCONCELLOS por Chico – Artista Brasileiro

PAULO HENRIQUE FONTENELLE por Cássia Eller

PEDRO ASBEG, EDT e VICTOR LOPES por Betinho, a esperança equilibrista

RODRIGO PASTORE por Cauby – Começaria tudo outra vez

 

MELHOR SOM

ACÁCIO CAMPOS, BRUNO ARMELIM, GABRIELA CUNHA, JÚLIO CÉSAR, ERIC RIBEIRO CHRISTANI e CAETANO COTRIM por Cássia Eller

BRUNO FERNANDES e RODRIGO NORONHA por Chico – Artista Brasileiro

EVANDRO LIMA, WALDIR XAVIER e DAMIÃO LOPES por Casa Grande

GABRIELA CUNHA, MIRIAM BIDERMAN, ABC, RICARDO REIS e PAULO GAMA por Que horas ela volta?

JOSÉ MOREAU LOUZEIRO e AURÉLIO DIAS por A hora e a vez de Augusto Matraga

MARK VAN DER WILLIGEN, MARCELO CYRO, PEDRO LIMA e SÉRGIO FOUAD por Chatô – o rei do Brasil

 

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

ALEXANDRE GUERRA e FELIPE DE SOUZA por Tudo que aprendemos juntos

ALEXANDRE KASSIN por Ausência

FÁBIO TRUMMER e VITOR ARAÚJO por Que horas ela volta?

PATRICK LAPLAN e VICTOR CAMELO por Casa Grande

ZBGNIEW PREISNER por A história da eternidade

ZECA BALEIRO por Oração do amor selvagem

 

MELHOR TRILHA SONORA

LOS HERMANOS por Los Hermanos – Esse é só o começo do fim das nossas vidas

LUIS CLAUDIO RAMOS – a partir da obra de Chico Buarque – por Chico – Artista Brasileiro

LUIZ AVELLAR por A estrada 47

NELSON HOINEFF – a partir da obra de Cauby Peixoto – por Cauby – Começaria tudo outra vez

PAULO HENRIQUE FONTENELLE – a partir da obra de Cássia Eller – por Cássia Eller

 

MELHOR LONGA-METRAGEM ESTRANGEIRO

BIRDMAN – A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA (Birdman, ficção, EUA) – Dirigido por Alejandro Gonzales Iñarritu. Distribuição: Fox Films

LEVIATÃ (Leviathan, ficção, Rússia) – Dirigido por Andrey Zvyagintsev. Distribuição: Imovision

O SAL DA TERRA (Le Sel de La Terre, Documentário, França, Itália) – Dirigido por Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado. Distribuição: Imovision

OLMO E A GAIVOTA (Olmo and the seagull, documentário, Brasil, Dinamarca e Portugal) – Dirigido por Petra Costa e Lea Glob. Distribuição: Pandora Filmes

WHIPLASH – EM BUSCA DA PERFEIÇÃO (Whiplash, ficção, EUA) – Dirigido por Damien Chazell. Distribuição: Columbia Tristar

 

MELHOR CURTA-METRAGEM ANIMAÇÃO

ATÉ A CHINA de Marão

ÉGUN de Helder Quiroga

GIZ de Cesar Cabral

O QUEBRA-CABEÇA DE TÁRIK de Maria Leite

VIRANDO GENTE de Analúcia Godoi

 

MELHOR CURTA-METRAGEM DOCUMENTÁRIO

A FESTA E OS CÃES de Leonardo Mouramateus

CORDILHEIRA DE AMORA II de Jamille Fortunato

DE PROFUNDIS de Isabela Cribari

ENTREMUNDO de Renata Jardim e Thiago B. Mendonça

RETRATO DE CARMEM D. de Isabel Joffily

UMA FAMILIA ILUSTRE de Beth Formaggini

PRAÇA DA GUERRA de Edimilson Gomes

 

MELHOR CURTA-METRAGEM FICÇÃO

HISTÓRIA DE UMA PENA de Leonardo Mouramateus

LOÏE E LUCY de Isabella Raposo e Thiago Brito

OUTUBRO ACABOU de Karen Akerman e Miguel Seabra Lopes

QUINTAL de Andrés Novais

RAPSÓDIA DE UM HOMEM NEGRO de Gabriel Martins

PEÇA "VENTO FORTE PARA ÁGUA E SABÃO"

O Teatro Barreto Júnior, do Pina, foi reaberto depois de profunda reforma estrutural. Está bonito, confortável e moderno, ideal para receber esta peça, da Cia. Fiandeiros, um musical bacana que indico tanto para adultos e jovens como para crianças. Texto inteligente e criativo, direção lúdica, trilha musical cativante e belas atuações. Recomendo de verdade, sem restrições!

SOBRE O CINEMA BRASILEIRO

O ótimo filme dirigido por Roberto Berliner, "Nise - o coração da loucura", e a sua atriz protagonista Glória Pires foram, respectivamente, premiados como Melhor Filme e Melhor Atriz no Festival Internacional de Cinema de Tóquio, fato lamentavelmente ignorado pela grande imprensa brasileira.

O sensível longa assinado por Roberto Machado, "Tudo Que Aprendemos Juntos", venceu o Prêmio do Público como o Melhor Filme do renomado Festival Internacional de Cinema de São Paulo.

Em ambos os casos, percebe-se que são boas produções nacionais que, por misteriosas razões, não alcançam a devida visibilidade na mídia nacional.

Lamentável!

QUANDO A VÍTIMA É A INFORMAÇÃO

A informação imprecisa é uma das vítimas fatais quando as pessoas se punham a falar sobre o que não dominam. E, para um jornalista especializado, trata-se de um erro grosseiro.

Aconteceu no decorrer da polêmica cultural/cinematográfica que corre nestes dias entre o sr. Marcos Petrucelli, jornalista de cinema da CBN, de um lado; e do sr. Guilherme Genestreti, crítico de cinema, e do cineasta Kleber Mendonça Filho, de outro, a respeito da comissão de cinema que indicará o representante do Brasil para concorrer a uma vaga entre os finalistas do Oscar, no próximo ano.

O equívoco foi propalado pelo sr. Genestreti no artigo em seu blog na Folha/UOL:
http://semlegenda.blogfolha.uol.com.br/…/treplica-critico…/…?

É o seguinte: ter distribuição confirmada nos EUA não é pré-requisito, requisito ou condição para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

O pré-requisito principal é ser indicado oficialmente pelo país de origem, assim como ter exibição comercial interna (neste país de origem) por pelo menos uma semana no período compreendido entre, salvo engano, outubro de um ano a setembro do ano posterior.

A Academia de Cinema dos EUA assim procede, porque, caso contrário, não daria a devida "paridade de armas" às distintas cinematografias mundo afora.

Vale dizer que quem ganha o Oscar não é o cineasta, é o seu país: o diretor do filme, ainda que fique com a estatueta definitivamente, apenas o recebe. Nos registros oficiais da AMPAS (a citada Academia), o nome do vencedor é o nome do país.

E sim, claro que ter um filme com distribuição comercial nos EUA em andamento ajuda muito, mas, repito, não é realmente necessário.

À BEIRA DO ABISMO DO AFETO

 

Com o filme “Mãe Só Há Uma”, a diretora Anna Muylaert coloca mais um tijolo na sua bem sucedida trajetória no cinema brasileiro. No seu quarto filme produzido para a telona, ela mais uma vez mergulha fundo na abordagem das relações interpessoais e familiares.

Neste caso, penso que ela deu um passo ainda mais largo nessa direção, porque a partir de um evento real – o roubo de um recém-nascido na maternidade, que resultou em fato verídico de repercussão nacional -, Muylaert tece delicadamente a rede de subjetividades de cada um dos personagens, dando-lhes igual importância e real significância na trama de afetos e sentimentos na qual mães, pai e filhos estão envolvidos. 

Em verdade, ela estabelece uma ficção a partir do argumento real para construir uma nova dramaturgia cinematográfica. Inteligente e sensível nesse arriscado plano, a diretora não toma partido, pois todos têm as suas razões e as suas verdades, até mesmo aquela que cometeu o “crime”.

Enfim, um filme adulto, consequente e consistente, do qual não se é possível ser indiferente. Depois do sucesso de “Que Horas Ela Volta?”, temos um novo, belo e importante trabalho da cinematografia brasileira de qualidade.

 

NO SERTÃO COMO ENTRE QUATRO PAREDES

Caros amigos, em especial aqueles dois ou três que costumam ler meus comentários no blog, como ando muito ocupado com trabalhos diversos, assistir filmes no cinema e escrever sobre eles está sendo raro.

De qualquer forma, não posso deixar de registrar e destacar o filme de Camilo Cavalcante, "A História da Eternidade", que assisti semanas atrás no São Luiz.

Trata-se de uma produção de alto nível (inclusive tecnicamente), com uma dramaturgia das mais interessantes com foco nas relações interpessoais num pequeno povoado do Sertão.

Aborda autoritarismo e machismo frente à delicadeza e à fantasia; fala também de amor, persistência e redenção, tudo narrado em tom épico tal a dimensão de tragédia e beleza que impregna o filme. Valores esses que já se observava no curta homônimo do mesmo Camilo.

Em alguns momentos me lembrou, de certo modo, "Lavoura Arcaica" (2001) de Luiz Fernando Carvalho, pelo tratamento semelhante dos temas gerais e pela perspectiva quase "operística" da obra.

Imperdível!

BRASILEIROS NO OSCAR

Pelo menos, seis brasileiros estão entre os 683 novos membros da AMPAS, a Academia de Cinema dos EUA, instituição que distribui o Oscar desde 1928.

São eles: a diretora Anna Muylaert, os músicos Antonio Pinto e Marcelo Zarvos, o diretor de fotografia Lula Carvalho, o produtor Rodrigo Teixeira e o animador Alê Abreu, indicado este ano com o filme "O Menino e o Mundo".

OSCAR 2016: DOIS MOMENTOS

Para mim, os dois grandes momentos da entrega do Oscar, no último domingo, foi, primeiramente, a vitória - aos 87 anos - do lendário maestro italiano Ennio Morricone na categoria de melhor trilha musical original.

Há décadas Hollywood deve o prêmio a esse gênio notabilíssimo do cinema, se não pelas clássicas composições dos filmes de Sergio Leone, pelo menos pelas criações que fez para filmes falados em inglês como "A Missão" (1986) e "Os Intocáveis" (1987).

Muito emocionante ver aquele já frágil senhor ser cumprimentado por outro gênio da música no cinema, John Williams (84 anos e seu concorrente na categoria), e subir ao palco para humildemente agradecer em italiano a Quentin Tarantino, diretor do filme "Os Oito Odiados" pelo qual mereceu a láurea máxima do cinema.

O segundo grande momento, na minha visão, foi o Oscar de ator coadjuvante entregue ao maravilhoso Mark Rylance, um ator de teatro inglês da melhor linhagem, pelo trabalho no filme de Steven Spielberg, "Ponte dos Espiões".

Em 30 anos de carreira no cinema/TV apresenta pouco mais de 20 trabalhos em seu currículo, mas, para mim, já era conhecido pela estupenda atuação em "Intimidade", um pequeno mas brilhante filme dirigido em 2001 pelo francês Patrice Chéreau, que aliás eu recomendo para quem gosta da temática das relações humanas.

O ELOGIO DO CONHECIMENTO

Em "Perdido em Marte", há um tema de fundo que igualmente se encontra em "O Regresso": o homem abandonado (o astronauta interpretado por Matt Damon) por companheiros numa terra inóspita e hostil (no caso, o Planeta Marte), tendo apenas a si mesmo e pouco recursos materiais (poucos mantimentos e o seu conhecimento de botânica) no seu entorno para lutar pela sobrevivência até a redenção final.

A diferença é que o diretor Ridley Scott fez um filme enxuto, redondo, com um história de ficção científica crível, ainda que improvável se considerarmos o estado da arte da atual pesquisa científica aeroespacial, mas que, principalmente, não se leva muito a sério.

A opção pela narrativa que se situa entre o drama (menos) e a comédia discreta (mais) traz esse aspecto positivo de tratar de um tema fascinante -  a vida fora da terra - sem a pompa e a circunstância que impregna os filmes ditos sérios quando enveredam por essa temática.

Um filme simples, mas sagaz na sua proposta, que nas entrelinhas faz uma ode ao conhecimento como meio possível, desejável e, por que não, definitivo para o progresso humano.

Além disso, garante a diversão. Vale a pena ser visto como entretenimento inteligente.

O TÉDIO DA MONTANHA GELADA

Tenho implicância com os grandes filmes hollywoodianos do mexicano Alejandro González Iñárritu por conta de suas histórias e personagens maniqueístas, levados à tela não sem muita pretensão e com ares intelectuais, por óbvio de forma falsa, na minha visão.

É certo que este superestimado filme "O Regresso", com o qual ele deve bisar os Oscar de melhor filme e melhor direção ganhos no ano passado, o diretor peca menos do que em "Babel" e "Birdman" no que diz respeito à formatação de personagens estereotipados que, à primeira vista, passam por densos e complexos, mas que não resistem a uma análise mais profunda.

O protagonista e o antagonista, respectivamente, Hugh Glass (Leo DiCaprio) e John Fitzgerald (Tom Hardy, sempre camaleônico e carismático), apresentam-se como personagens razoavelmente críveis em sua estrutura psicológica e em trajetórias interdependentes.

Esta é a base do argumento apresentado pelo filme: a história de vingança ambientada em 1823 no território inexplorado e inóspito do oeste norte-americano durante rigoroso inverno no qual o explorador e comerciante de peles (Glass/Di Caprio) sobrevive com muitos danos físicos ao ataque de um gigantesco urso pardo.

Tem o seu filho mestiço assassinado por um colega (Fitzgerald/Hardy) que, além disso, o deixa de lado por ser considerado um peso morto a ser carregado pelos nove sobreviventes da missão nas terras montanhosas e gélidas, depois que a maior parte dos membros da exploração foi dizimada pelos nativos da região.

Nasce então o desejo de vingança do "revenant" (título original do filme), a pessoa que "retornou" supostamente da morte.

Há, claro, um subtexto na trama que diz respeito à capacidade de sobrevivência do ser humano e de adaptação ao meio (coisa inclusive que é melhor tratada num filme como "Perdido em Marte", de Ridley Scott), mas isso se estende e se repete por demais ao longo de "O Regresso".

Como se observa, o argumento é um belo ponto de partida. O problema é que não se encontra um roteiro suficientemente eficiente que dê conta das cansativas duas horas e meia de exibição e, com isso, articule-se melhor a "mensagem" proposta.

Penso que o filme poderia ter sua duração reduzida em 30 minutos em relação ao todo, em especial no meio, sem grandes prejuízos.

Na ausência de melhor roteiro, o diretor se vale, por quase dois terços do filme, da esplendorosa fotografia de Emmanuel Lubezki (que deve ganhar o Oscar da categoria pela terceira vez consecutiva - um recorde) com belas imagens registradas de luz natural - quase sempre do entardecer.

Cineasta de pretensões calculadas, Iñárritu filmou durante meses nos EUA, Canadá, Argentina e México, sempre buscando a melhor luz natural para o seu filme, e o resultado é realmente um espetáculo - nesse aspecto.

Em outros, também: é tecnicamente perfeito, com gravação e edição sonora de alto nível; inclui uma bela trilha musical e uma sequência do ataque do urso que de tão realista é de tirar o fôlego, mas retorno aquela minha "guerrinha" de sempre: se não há uma dramaturgia consistente, não há técnica capaz de alavancar um filme.

Cada vez que assisto a essas superproduções portentosas e/ou pretensiosas como "Babel", "Birdman" e este "O Regresso", sinto saudades do Iñárritu de filmes menores (em nível de produção) mas realmente inovadores e instigantes como "Amores Brutos" (2000), "21 Gramas" (2003) e "Biutiful" (2010).

SOBRE MAD MAX - ESTRADA DA FÚRIA

Nesta época de Oscar, algumas pessoas me perguntam sobre o filme "Mad Max - Estrada da Fúria", que estreou em meados do ano passado e está entre os finalistas a melhor filme além de outras nove categorias.

Penso que a única forma de entender a razão pela qual essa megaprodução, dirigida pelo veterano diretor australiano George Miller (inventor também do primeiro filme lá no longínquo ano de 1979), concorre ao Oscar na categoria de melhor filme é olhar para o fato sob a perspectiva da lógica da indústria cinematográfica, representada no caso pelo corpo de membros da Academia de Cinema dos EUA.

Afinal, são os seus seis mil integrantes - todos inseridos na indústria cinematográfica: produtores, diretores, atores e atrizes (o maior contingente, em torno de 20 a 25% do total), roteiristas, diretores de fotografia, montadores, técnicos de som, figurinistas, diretores de arte, maquiadores, engenheiros de efeitos visuais, compositores de trilhas  musicais, executivos e relações públicas de estúdios etc - que votam para o prêmio.

Nos seus quadros não há jornalistas nem críticos de cinema (estes, diga-se de passagem, em grande parte, adoraram o filme).

Em outras palavras, trata-se de um grupo de pessoas preocupadas não apenas em indicar e premiar os melhores do ano (segundo a suas visão e circunstâncias), mas também (e talvez principalmente) em garantir que as grandes superproduções que empregam milhares de artistas e técnicos sejam devidamente reconhecidas e continuem a perpetuar o sentido da atividade cinematográfica como um potente campo de absorção de mão-de-obra desta classe.

É um prêmio outorgado pela elite da indústria à própria indústria (o número de seis mil votantes da Academia pode parecer exagerado, mas não é; representa apenas uma minúscula - bem minúscula - parte dos que fazem a indústria de cinema nos EUA e no mundo). Há inclusive alguns brasileiros que a integram: Fernando Meirelles, Sonia Braga, Walter Salles, Hector Babenco, entre outros.

Contudo, mesmo na perspectiva da indústria, um filme pertencente ao subgênero da aventura fantástica normalmente encontra dificuldade em figurar nas categorias principais do Oscar (filme, direção, ator, atriz, roteiro). Rara, essa realidade abre exceção quase sempre somente para franquias bem sucedidas comercialmente, como é o caso de "Mad Max".

Superada essa parte, quero dizer que, em se tratando do meu gosto, há tempos esses filmes deixaram de atrair minha atenção.

Somente agora assisti (em DVD) ao filme por conta das nomeações ao prêmio.

O que posso dizer sobre ele é que se trata de um filme tecnicamente perfeito - efeitos visuais de primeira, bela fotogafia, interessantíssima concepção da direção de arte sobre um mundo pós-apocalíptico, montagem que dá ritmo etc.

Fala-se muito sobre a visibilidade e o protagonismo (raro, para não dizer inexistente nesse subgênero) que se deu à figura da mulher, uma guerreira do bem ativa na condução dos destinos da história, personificada pela aqui totalmente desglamurizada Charlize Theron, e nas alegorias do mal associadas a tiranos à frente de organizações cruéis que, com pouco esforço, podemos associar às corporações capitalistas etc.

Contudo, pelo menos na minha visão, é só! De fato, como espectador, não consigo mais me entusiasmar por essa estética que, para mim, carece de melhores significados, mas, penso... é apenas uma questão de gosto.

A sequência "Mad Max - The Wasteland" já está anunciada.

PARA ALÉM DAS QUATRO PAREDES

Muito raramente saio de uma sessão de cinema afetado por um filme, tanto do ponto de vista emocional quanto do impacto estético que eventualmente pode me causar.

Depois de décadas assistindo filmes, consigo hoje separar um do outro.

Faço a reflexão, por conta da dupla sensação causada pela produção de origem canadense-irlandesa, "O Quarto de Jack", um verdadeiro petardo cinematográfico que se impõe a partir de uma narrativa com profunda raiz na subjetividade dos seus personagens, constituindo-se num drama intimista de rara complexidade e, ao mesmo tempo, de candente beleza, porque diz respeito à coisa primal que é a relação entre mãe e filho.

Não conheço o livro que deu origem à obra, mas posso dizer que o roteiro extremamente detalhista discorre sobre a ação e os diálogos de forma a tecer a teia da relação entre esses dois personagens (Brie Larson, favorita ao Oscar de melhor atriz, e Jacob Tremblay, o garoto canadense de espetacular performance injustamente colocado fora da lista de indicados ao prêmio).

Em tudo o filme tem profunda densidade cinematográfica. Poucas vezes se observa por aí o que se encontra nesta obra.

A partir do roteiro, o diretor irlandês Lenny Abrahamson estabelece uma encenação realista em que todos os aspectos têm grande importância, inclusive no extremo cuidado com a atuação de atores e atrizes que aparecem como coadjuvantes (Joan Allen, intensa), em pequenos papeis e mesmo em pontas (o ator que faz o médico, a atriz que faz a policial que socorre o garoto etc.).

Não há sequências inúteis. Tudo se encaixa. É um típico exemplo de filme em que a montagem não "aparece", porque sendo linear não há flash back nem eventos simultâneos (como nos filmes de ação), mas que nessa linearidade nada falta e nada sobra.

Entre a extensa e detalhada apresentação da condição de reféns de um sequestro, que resultou em um longo cárcere privado num cubículo hermeticamente fechado, até a adaptação à liberdade, Abrahamson desenha uma densa crônica sobre o processo de conhecimento do mundo e da socialização necessária.

Num primeiro momento, é a mãe quem guia o filho, para na virada da narrativa haver uma inversão de papeis, ainda que a criança seja intrinsicamente o vetor da relação. Entre um e outro momento fica estabelecido o princípio de que, é por meio da plasticidade-flexibilidade psico-físico-neurológica da primeira infância, que o "milagre" da sobrevivência acontece.

Enfim, uma obra genial e atemporal altamente recomendável e obrigatória para aqueles que gostam do bom cinema, seja por seu apelo emocional quanto por sua potência estética.

E absolutamente imperdível para quem se interessa pela nossa condição humana.

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BRASIL, Nordeste, RECIFE, BOA VIAGEM, Homem, Jornalista autor de Cinema Brasileiro e Espectadores ver na UFPE, Fundaj, Unicap