AQUI NÃO É COMO LÁ

O Brasil vive uma fase em que goza de prestígio internacional em praticamente todos os campos, em momento no qual o mundo está em crise - os EUA e a Europa, inclusive. Seja na economia, relações diplomáticas, cultura, o nosso país é visto como referência, com muitos analistas afirmando que isso é fruto do processo democrático que foi iniciado há pouco mais de 20 anos, que resultou em uma nova constituição, renúncia de presidente, controle de inflação, estabilização da moeda e eleição de um ex-operário para a presidência da República. Percebido dessa maneira parece mesmo que estamos no paraíso. Será?

Faço essa introdução a propósito do filme "Frost/Nixon", dirigido por Ron Howard, que assisti ontem, no qual, tempos depois de renunciar à presidência dos EUA em virtude do escândalo de Watergate,  Richard Nixon concede uma série de entrevistas para um desacreditado e pouco respeitado apresentador de TV inglês, David Frost, acreditando com isso que poderia restituir parte do respeito que perdeu do povo norte-americano com o episódio. Era idéia dele fazer das entrevistas uma espécie de plataforma onde falaria sobre suas razões.

Do outro lado, o tal inglês, que trabalhava à época na Austrália, via a possibilidade de retornar aos EUA, onde vivera e tivera algum prestígio por um período. Cada uma das cinco entrevistas tratava de tema específico, ficando a última parte destinada ao episódio de Watergate. Nas quatro partes que antecedem a conversa sobre o escândalo, Nixon conseguiu massacrar Frost, dando respostas longas e evasivas, que não permitiram a intervenção do apresentador.

Ferido em seus brios e acuado pela equipe de colaboradores, que previam o fracasso da série de entrevistas, afinal, o que os motivara era o objetivo de fazer com que Nixon admitisse que errara, Frost é tomado de um ímpeto e finalmente arrasa com Nixon, que confessa ter cometido transgressões gravíssimas na condução do episódio, gerando implicitamente "crime de responsabilidade" (ele não utilizou esses termos, que são de Frost), coisa que até então não considerava. A entrevista foi sucesso total e alavancou a carreira do apresentador inglês. Nixon morreu em 1994, vítima de um derrame. 

Não sei se os fatos tal e qual narrados no filme aconteceram de fato. Creio que não. Há um tantinho de cinema e de formulação hollywoodiana em algumas cenas de bastidores, como aquele improvável diálogo entre os dois por telefone às vésperas do embate final sobre Watergate. É uma grande cena, uma das melhores, que tem a função de ser o turning point do filme, algo absolutamente necessário em uma produção hollywoodiana, descrita em qualquer manual de roteiro. E isso é certamente valorizado pelo elevadíssimo nível de atuação dos dois atores (Fank Langella como Nixon e Michael Sheen como Frost). Nessa cena e em todo o filme, são performances de tirar o fôlego.

Bom, e aí volto ao Brasil: assistindo ao filme me deu uma sensação de frustração ao pensar que, lá, os deslizes e desmandos políticos de um presidente da República é algo ofensivo à honra dos cidadãos. É como se o presidente não fosse um ser humano e sim uma instituição que sintetiza os valores democráticos e republicanos tão caros à nação. Sendo isso, ele não tem o direito de errar. E errando, deve renunciar. Mas não basta apenas renunciar. Deve reconhecer publicamente o erro ou o crime e pedir desculpas. E desaparecer.

E aí fico pensando nos deslizes e desmandos perpetrados pelos políticos brasileiros (presidentes e parlamentares), que devem ver um filme como"Frost/Nixon" e pensar consigo: "ainda bem que no Brasil não é assim...".

Para falar a verdade, observo com certa desconfiança sobre os reais motivos pelos quais o mundo esteja vendo o Brasil com esses bons olhos. Será que eles não tomam conhecimento de todos os nossos escândalos? Tomam sim, mas se calam porque consideram que é melhor uma democracia claudicante e relutante do que um regime autoritário. É a perversa lógica das relações internacionais, diplomáticas e do respeito às soberanias nacionais, que servem como pretexto para que se use dois pesos e duas medidas no julgamento das situações, dependendo do caso.

Além de tudo, há a conivência do nosso próprio povo, que parece anestesiado a todo tipo de horrores cometidos pelos políticos contra a nação, que são quase diariamente expostos pelas mídias e veículos de comunicação. A máxima reação da sociedade brasileira se restringe a "análises" do tipo: "é um absurdo", "os políticos são todos corruptos", mas de fato não há mobilização para transformar o quadro caótico e nem mudar a representação política através do voto democrátrico.  Será que merecemos os políticos que nos representam?

MAU JORNALISMO CULTURAL

Tenho que ser justo. É claro que a imprensa exerce um papel fundamental na vida civil. Imagino que, sem ela, os desmandos políticos (e dos políticos), que nos chocam cotidianamente, quase nunca chegariam a nós e seríamos, com isso, sistematicamente ludibriados por aqueles que elegemos para nos representar. Isso posto, tenho que fazer mea culpa quanto so desempenho de setores da imprensa em outros campos.

Ao assistir o programa Manhattan Connection, fiquei chocado com a maneira leviana com que as mortes de Michael Jackson e da atriz norte-americana Farrah Fawcett foram tratadas pelo quinteto de jornalistas Lucas Mendes, Caio Blinder, Diogo Mainardi, Ricardo Amorim e Pedro Andrade, e até mesmo pelos convidados Arthur Dapieve e a senhora de nome Angélica (que não sei o sobrenome e me parece trabalha na edição do programa).

Creio que extrapolaram os limites que separam o bom do mau gosto, ao fazerem piadas desrespeitosas com Jackson, Fawcett e a doença que a matou, câncer anal, além de outras piadinhas impróprias e dispensáveis. E ainda não faltaram imprecisões jornalísticas quanto aos fatos e total desconhecimento de questões básicas sobre a carreira de Farrah, por exemplo.

Sem dúvida, ela não fez carreira no cinema, mas trabalhou em alguns telefilmes que lhe deram inclusive indicações ao Emmy, o Oscar da TV dos EUA. Uma ida ao IMDB para checar informações (ação básica para qualquer jornalista que se preze) e o Dapieve e seus companheiros poderiam observar que a atriz foi três vezes indicada ao Emmy pelos telefilmes "The Burning Bed" e "Small Sacrifices" e por sua atuação como convidada na série "The Guardian".

Farrah Fawcett ainda atuou em "Poor Little Rich Girl: The Barbara Hutton Story", "Nazi Hunter: The Beate Klarsfeld Story" e "Extremities", que lhe valeram três indicações para o Globo de Ouro, além de estrelar com Robert Duvall, "The Apostle". Levando em consideração que os jornalistas moram há tanto tempo nos EUA, devem ter assistido a alguns desses títulos. Se isso não é uma carreira... 

Que falta faz a Lúcia Guimarães!

VIDAS PRECÁRIAS

É interessante a maneira como, de um modo geral, o cinema se apropria de fatos reais e os transforma em histórias. Digo isso a respeito do "Jean Charles", o filme sobre o brasileiro assassinado pela polícia inglesa, ao ser confundido com um terrorista muçulmano. Fiquei o tempo todo pensando como a história de fundo, a do imigrante ilegal vivendo em Londres clandestinamente pode ser, de fato, bem mais interessante que o tema principal do filme, ou seja, o assassinato dele.

Em outras palavras, não houvesse o infortúnio da morte do rapaz, não teríamos um filme sobre os ilegais vivendo na Inglaterra. Não que o fato do assassinato não seja importante, mas penso nas inúmeras aventuras pessoais que se desenrolam neste momento e em muitos outros de brasileiros no exterior. Histórias que nunca serão transformadas em filmes a menos que uma tragédia de grandes proporções aconteça. Sei lá! Há tantos pequenos dramas acontecendo por lá, exatamente agora, que valeriam ser dramatizados.

Certamente como consequência de escassos recursos de produção, o "Jean Charles" que assistimos na tela é bem irregular. É irregular na interpretação do elenco de apoio (há, pelo visto, muitos amadores, imigrantes mesmo, que aparecem no filme atuando em papéis secundários e pontas). E é irregular também no roteiro, que não vislumbra satisfatoriamente o personagem-título.

De fato, o que queria exatamente  Jean Charles ao migrar para a Inglaterra? Que relações eram aquelas com o comércio de passaportes para brasileiros em situação ilegal? Em certo sentido, sabe-se mais do personagem da prima Vivian (vivida com emoção e delicadeza por Vanessa Giácomo) do que do próprio Jean (Selton Mello, competente).

Mas, o curioso é que, involuntariamente, o que é fraqueza estrutural do filme - roteiro, atores coadjuvantes - ganha na tela uma inesperada força porque emerge uma espécie de mistura de narrativas ficcionais e não ficcionais advindas dessa crueza da falta de recursos. Assim, os atores amadores não comprometem por serem amadores e o roteiro, meio superficial  na concepção do personagem principal, é salvo por uma genuína emoção que parece brotar dessa precariedade de duas vias: a da produção e da vida real dos imigrantes brasileiros.

Essa mistura na edição das imagens ficcionais com o material real das redes de TV que cobriram os atentados terroristas à época são satisfatoriamente coadunados, a ponto de se confundirem na narrativa, ficando o espectador sem saber ao certo o que foi produzido para o filme e o que foi aproveitado de outras fontes. Fala-se muito em "docudrama" como uma espécie de linguagem nova do cinema que objetiva se aproximar mais do real.

Não creio que seja o caso de "Jean Charles", mas ficou a impressão, para mim, que certos filmes podem ser realizados de uma forma mais rústica, sem que isso necesssariamente comprometa o resultado final. Não é uma grande obra, mas é certamente um trabalho honesto e bem intencionado que faz uma justa homenagem a esses milhões de homens e mulheres que se deslocam de sua terra natal em busca de melhores condições de vida, com o objetivo de tornar menos precária a sua condição de vida.

MICHAEL JACKSON (1958-2009)

Assim como bilhões de pessoas em todo o mundo, eu também sou admirador da arte de Michael Jackson. E digo mesmo "arte" e não apenas "produto da indústria cultural" porque entendo que ele alcançou uma posição de relevância no universo da cultura pop com distinção e diferenciação. É muito estranho falar de arte e pop culture como dois conceitos que podem estar interrelacionados, mas ouso pensar que, no caso de Jackson, essa possibilidade é mais do que aceitável, é mesmo irrefutável.

Para falar a verdade, admiro o seu trabalho em toda a extensão, mas confesso que tenho uma preferência especial pelo Michael do final dos anos 1970, quando iniciou carreira solo, afastando-se do Jackson 5, grupo de irmãos no qual foi consagrado. Ali, por volta de 1979, com o álbum Off the Wall, MJ ainda fazia aquele maravilhoso e extraordinário som setentista da black music do período, repleto de soul e rhythm & blues que, certamente, transpiravam dos seus poros com muito balanço. O que são aquelas canções fantásticas, Rock with you e Don't stop 'til you get enough, senão a síntese e a quintessência do puro deleite de se esbaldar numa pista de dança?

Todo mundo sabe que cantava e dançava como ninguém. Todo mundo sabe que trabalhou com os melhores da indústria fonográfica (o lendário Quincy Jones foi seu mentor). E, como se não bastasse, ele (re)inventou o videoclipe, imprimindo uma nova linguagem a esse formato audiovisual, atribuindo a essas peças a importante função de estratégia de promoção publicitária dos artistas da música. Depois de Thriller (1982), apresentações em vídeo passaram a ser uma outra coisa, até então não pensada e elaborada com tanto esmero e dedicação de amplos esforços.

E não seria exagero afirmar que esse álbum e seus videoclipes tornaram visíveis a MTV e toda a cultura atrelada a ela. E, ainda, qual foi o artista, neste mundo de meu Deus, que não participou ou desejou participar, ainda que fazendo apenas uma figuraçãozinha, nos seus clipes? Lembro que Steven Spielberg, Oprah Winfrey, Eddie Murphy, Macaulay Culkin, John Travolta e ninguém menos do que Marlon Brando, entre outros, lá estiveram presentes.

Embora tão genial quanto Marvin Gaye e James Brown, foi Jackson, juntamente com Stevie Wonder, que alçou a black music a um patamar de música pop, retirando-a do gueto e abrindo espaço para que pessoas como Ne-Yo, Usher e Justin Timberlake, só para citar alguns, brilhassem no universo pop contemporâneo.

Os especialistas da indústria da música afirmam que o recorde de vendagem de seu álbum Thriller jamais será alcançada por qualquer outro artista porque são números que o segmento não mais ambiciona em face da tecnologia dos downloads da internet e da pirataria que, definitivamente, jogaram para baixo as vendas de CDs em lojas.

É como se Michael Jackson fizesse parte de uma outra era. Suponho que como Presley e Beatles, ele tenha sido alçado à galeria de deuses da cultura pop que vão habitar o imaginário do mundo por décadas à frente. Por quantas? Só Deus sabe. 

JORNALISMO E POLÍTICA SEGUNDO HOLLYWOOD

Em "Intrigas de Estado", Russell Crowe vive um jornalista perfeitamente enquadrado no estereótipo do repórter  mal vestido, meio rebelde e egocêntrico, furão (como se diz no jargão profissional), mas cheio de boas intenções, mesmo quando aparentemente só deseja conseguir uma boa matéria.

Ben Affleck encarna o típico político democrata, veterano da Guerra do Golfo, combativo, atento aos erros do governo e crítico feroz da política conservadora e belicista no Oriente Médio, que transformou os EUA em uma indústria que fabrica guerras e, principalmente, faz o sistema capitalista, por meio de suas corporações do segmento de defesa, ganhar bilhões de dólares com isso.

Russell e Ben foram colegas de faculdade e se reencontram quando o segundo está metido numa confusão dos diabos com o assassinato de sua principal assistente, com a qual mantinha relecionamentro amoroso obviamente clandestino, uma vez que é casado com Robin Wright-Penn (cada vez mais madura, cada vez melhor). Então cabe a Russell investigar o quiproquó, auxiliado por Rachel MacAdams, uma repórter blogueira da versão on line do jornal Washington Globe, que mergulhado no prejuízo, faz com que sua editora Helen Mirren esteja desesperada por uma grande matéria.

Bem, é isso mesmo! O jornalismo é um curioso ofício que inevitavelmente se beneficia com a miséria humana para vender jornais, o que faz dele não uma atividade parecida (em relevância social e manejo técnico) com a culinária ou a cosmetologia, como desejam o presidente do Supremo Tribunal Federal brasileiro, o senhor Gilmar Mendes, e seus vetustos companheiros de toga, mas algo próximo de um "quarto poder" (conforme o senso comum já tratou de qualificá-lo).

Mas, that's Hollywood!  E Russel, além de bom profissional, tem bom caráter e considera seu ex-amigo na hora de apurar os fatos. No entanto, ao ser ético com o amigo, força a barra na ultrapassagem dos limites que separam a investigação jornalística da investigação policial, fazendo surgir um interessantíssimo filme que mistura doses generosas de suspense e ação, sem cair naquela tenebrosa receita contemporânea dos filmes congêneres nos quais a trama que se narra não faz o menor sentido. Nesse (e isso é louvável mérito do roteiro, direção e montagem) compreende-se tudo perfeitamente, com direito a um final surpreendente.

É isso! Sinto uma certa nostalgia de uma época em que filmes como "Intrigas de Estado" eram uma regra na indústria cinematográfica norte-americana e não a exceção.

A DURAÇÃO DO AMOR

Assisti esta semana na UFPE, no grupo de Sociologia do Cinema, coordenado pelo professor Paulo Marcondes, a um interessante filme chileno chamado "Na cama", dirigido por Matías Bize, até então completamente desconhecido para mim. A narrativa, toda ambientada em um quarto de motel numa virada de uma noite para madrugada, está centrada numa relação casual de dois desconhecidos repleta de sexo ardente e muitas conversas sobre vida, amor, escolhas pessoais e, claro, sexo.

É tudo meio claustrofóbico, não apenas porque se passa exclusivamente num quarto de motel, mas porque a opção do diretor em filmar tudo com câmera na mão em primeiríssimos planos e closes, faz com que a intensidade do encontro seja posta em um nível de exacerbação dos sentidos pouco vista em um filme que não é pornográfico. Curiosamente, essa intensa energia sexual posta nas imagens (quase explícitas de sexo) faz aflorar e sugerir exatamente o contrário: um encontro de paixão e intensa afetividade. Sim, o homem e a mulher se apaixonam de verdade.

A questão que o filme coloca, seriamente, é a de que o amor profundo e avassalador pode ser vivido e vivenciado em apenas algumas horas. Nesse sentido, é um inusitado e inesperado drama romântico que obviamente desconstrói as noções burguesas dos afetos que, tradicionalmente, o cinema do amor romântico instituiu em um século de narrativas cinematográficas.

"Na cama" parece igualar em importância todas as formas de amor, até mesmo aquelas que poderiam ser compreendidas, numa visão preconceituosa, como menos nobres por serem desencadeadas "apenas" pelo desejo sexual. Seria isso revolucionário?

EM BUSCA DA MULHER IDEAL

A mulher ideal não existe, e na verdade nem é mesmo uma mulher, mas sim uma projeção (de si mesmo) do homem que a idealiza. Este curioso conceito de "complexa" equação está presente no filme "A Mulher Invisível", de Cláudio Torres. O personagem de Selton Mello é um improvável homem urbano do Rio de Janeiro em busca da mulher amada que o complete plenamente, depois que sua mulher o traiu e desapareceu com um alemão esquisito. Na sua insaciável busca por romance, Mello se depara com uma Luana Piovani lindíssima e perfeitíssima, sexy e doméstica. Enfim, uma mulher que não existe.

A previsível piada que a companhia de uma mulher inexistente e invisível provoca na vida de um homem é apresentada em boa parte do filme como forma de exteriorizar os dotes cômicos de Selton Mello dançando pateticamente numa boate, discutindo com o bilheteiro na fila do cinema e com um garçom à mesa de um restaurante. Mas, é numa inusitada reunião de trabalho com seus poderosos chefões (o personagem é controlador de trâfego urbano) em que a sua "ezquizofrenia" liquida de vez com a sua vida, ainda que provisoriamente, até que ele se aperceba de toda a complexa personalidade que carrega.

Irregular, com alguns altos e baixos, o filme é eficiente ao provocar alguns risos, mas Selton Mello, certamente o maior responsável pela graça do filme, está provavelmente um tom a mais do que o necessário, talvez demasiadamente orientado pelo gosto extravagante do diretor Torres, que em seus filmes parece descartar o naturalismo como registro das interpretações dos atores.

A produção vem com a grife da Globo Filmes, e isso é para o bem e para o mal. Talvez mais para o bem do que para o mal, se for levado em consideração que "A Mulher Invisível" é filme até ligeiramente superior aos seus congêneres. No entanto, isso não o retira do "limbo" das comédias co-financiadas pela distribuidora das Organizações Globo que visivelmente são voltadas para o mercado.  Assim, escapismo e entretenimento descomprometido parecem mesmo estar triunfando no cinema brasileiro.

NOVE NO LUGAR DE OITO E MEIO

Uma das maiores expectativas este ano em termos de lançamentos hollywoodianos é certamente "Nine", versão musical de Rob Marshall (Chicago, Memórias de uma gueixa) para o mais do que clássico "Oito e Meio" de Fellini. Assisti há pouco o trailer no Youtube e devo dizer que fiquei impressionado com as imagens que vi: fotografia, direção de arte e figurinos de fazer cair o queixo de quem gosta de filme musical.

Claro que o visual estilizado e estetizado não é garantia de qualidade do filme, mas que seduz, seduz. Rob Marshall é uma espécie de peixe fora d'água no campo do cinema porque, como todos sabem, não se produz mais musicais. Acho que só ele mesmo ainda tem coragem de dirigir essas superproduções, que consomem muito dinheiro e, ao que parece, têm retorno de bilheteria bem limitado. Algo muito diferente das décadas de 1940 e 1950 quando os musicais e os astros do gênero reinavam absolutos.

Se as imagens de "Nine" são sedutoras, o que dizer do seu elenco. Nada menos que seis atores / atrizes oscarizados: Daniel Day-Lewis (no papel que foi de Mastroianni), Marion Cotillard, Penelope Cruz, Judi Dench, Nicole Kidman e Sophia Loren, além de Kate Hudson, a cantora Fergie e um grande cast de apoio constituído por intérpretes italianos.  De fato, não sei se o filme vai funcionar, mas torço que sim.

O link para o filme no Youtube é: http://www.youtube.com/watch?v=9bzB79_gkZY&eurl=http%3A%2F%2Fwww%2Eorkut%2Ecom%2Ebr%2FFavoriteVideos%2Easpx%3Frl%3Dlo%26uid%3D5921284394181164273&feature=player_embedded

MINISTRO SEM NOÇÃO

Na semana que passou, a propósito do acidente com o airbus, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, saiu-se com uma fala completamente despropositada. Neófito em assuntos técnicos aeronáuticos e de defesa nacional, pois ao longo de sua vida atuou na política e no direito, afirmou literalmente que não haveria sobreviventes do vôo da Air France, que caiu no Oceano Atlântico, porque a queda se deu "perto da costa de Pernambuco, onde se sabe há muitos tubarões...".

Bem, em respeito ao cargo, à pessoa e à idade do senhor ministro, vou ser econômico no comentário e apenas perguntar por que, afinal de contas, não colocam um militar (da Marinha, do Exército ou da Aeronáutica) nesse cargo?

QUE 4x2!!!

Grande vitória do Sport sobre o Flamengo, hein? Depois de estar perdendo por 2 x 0 em nove minutos de jogo, o rubro-negro pernambucano virou o placar de forma sensacional, batendo o adversário com quatro gols - três de Weldon - em apenas oito minutos. Tudo isso no primeiro tempo. Fantástico! Pra ficar na história do clube!

O ERRO

Espero que o DVD do show "Elas cantam Roberto", a ser lançado futuramente, contenha as apresentações individuais de Marina, Martinália, Adriana Calcanhoto, Celine Imbert, Paula Toller e Rosemary, que foram suprimidas na edição do musical que foi ao ar no domingo último.

Circulou ontem nos jornais que Marina e Toller ficaram iradas, com justa razão, pela supressão de suas apresentações. Parece-me realmente um desrespeito não apenas às cantoras, mas também ao próprio Roberto. Certamente, a edição completa do show, com a presença das seis excluídas, teria tornado ainda melhor o que já estava fantástico.

O REI E AS RAINHAS

Belo show o "Elas cantam Roberto", exibido no último domingo na Globo. A emoção era visível nos rostos e olhares das senhoras e senhoritas que subiram ao palco para cantar grandes sucessos, a maioria do final dos anos 1960 e meados dos 1970, sem dúvida as duas melhores décadas do Rei, se levarmos em conta a longa carreira de 50 anos. Quase todas as canções contêm letras e músicas de inegável apelo romântico e são extremamente populares, verdadeiros clássicos da música popular.

Ivete Sangalo interpretou o número de abertura "Os seus botões" e "Olha", seguida de Ana Carolina,  com "Força Estranha" - simplesmente sensacional; e mais Cláudia Leite, Luiza e Zizi Possi, Fafá de Belém, Daniela Mercury e Wanderléa, Fernanda Abreu, Sandy, Alcione e Nana Caymmi.

De quebra, ainda apareceu uma exuberante, aos 80 anos, Hebe Camargo interpretando canção pouco conhecida "Você não sabe" (aliás, cantou muito bem - como se sabe, Hebe Camargo é a verdadeira pioneira da TV brasileira: esteve na primeira transmissão, em 1950, cantando "Beijinho doce").  Atriz de reconhecidos dotes como cantora, Marília Pera surgiu cantando (diria, literalmente, interpretando) "120, 150, 200 km por hora".

Ao final, RC apresenta a obrigatória "Emoções" e finaliza com "Como é grande o meu amor por você" revezando-se  ao microfone com todas elas e mais Rosemary, Adriana Calcanhoto, Marina, Martinália, Céline Imbert e Paula Toller. Coisa linda! Só faltaram Marisa Monte, Simone, Bethânia e Gal Costa. Por que será que elas não foram? Agora, resta esperar o lançamento do DVD. Enquanto isso, os previsíveis vídeos amadores e piratas do show já estão no Youtube!

UMA BÁSICA VISITA AO YOUTUBE...

Outro dia em conversa com uma doutoranda na UFPE, que tem a pretensão de estudar o audiovisual brasileiro, fiquei chocado com o desconhecimento dessa distinta pessoa em relação à história e os nomes que fizeram a Televisão brasileira ser o que é. A moça, com ar de desdém (e de infinita ignorância, por certo), fazia pouco do trabalho e da pessoa pública de Tarcísio Meira, uma legenda da teledramaturgia nacional, que sustenta uma carreira e currículo de quase 50 anos, com os títulos e personagens mais marcantes da história da TV no Brasil.

Pois bem, sexta-feira última, no seu programa diário, ao entrevistar Tarcísio e a mulher Glória Menezes, Jô Soares prestou uma mais do que merecida homenagem. A propósito dos 44 anos de existência da Rede Globo e do tempo de casamento dos dois artistas, o apresentador disse que se houvesse uma moeda comemorativa ao aniversário da emissora, em um lado teria a imagem de Tarcísio e no outro o de Glória. Imagina! Eles protagonizaram a primeira telenovela em capítulos no Brasil, "2-5499 Ocupado", no já distante ano de 1963.

A entrevista foi uma das melhores já realizadas por Jô (pelo menos das que eu já assisti com atores famosos), com a dupla, que já tem bisnetos, contando casos e "causos" dos bastidores da televisão, do cinema e do teatro, e, claro, da vida a dois. Elegantes, distintos, classudos, inteligentes, discretos, um show!!! 

Olha, há algo a respeito da cultura brasileira, sobretudo dos mais jovens, que é assustador:  um total desconhecimento de quem foram os artistas do passado, mas acho que esse pecado ainda é mais terrível quando a desinformação e a ignorância partem de pessoas que se arvoram em entender e estudar o assunto. Que o público leigo desconheça a contribuição dos mais antigos, vá lá...mas pessoas que se dizem interessados em TV como objeto de estudo acadêmico, sei não...

Para essas figuras, aí vai uma dica: para conhecer os nomes e as obras de artistas como Meira, Glória, Regina Duarte, Cuoco e tantos outros pioneiros, basta dar uma passadinha no Youtube e baixar trechos das novelas em preto-e-branco do início dos anos 1970. Pena que a produção em videoteipe da década de 1960 esteja toda perdida.  É fácil, barato, rápido e não faz mal aos neurônios...

BOAS ADAPTAÇÕES DA TV DOS EUA

Embora a televisão brasileira ainda não tenha firmado uma tradição de séries dramáticas, aquelas que se apresentam por temporadas anuais, com apenas um episódio semanal, os dois mais recentes lançamentos da Rede Globo no segmento, "Força Tarefa" (quinta-feira, depois de "A Grande Família") e "Tudo Novo de Novo" (sexta-feira, depois do "Globo Repórter"), são lançamentos bem acima da média. Para quem anda cansado das novelas da emissora, pode ser uma boa opção.

Certamente inspirados em formatos e gêneros já consagrados no prime time (horário nobre) da TV dos EUA, as séries introduzem elementos brasileiros, sobretudo "Força Tarefa". Neste, o policial da corregedoria da Polícia Militar vivido por Murilo Benício é um primor de personagem. Bom caráter, honesto e cumpridor dos seus deveres, o tenente Wilson é atormentado vez ou outra pela "alma penada" de um policial corrupto seu conhecido - obviamente já morto -, que funciona como um conselheiro politicamente incorreto, o que gera interessantes diálogos entre os dois.

"Tudo Novo de Novo" é drama, mas tem uma piada implícita, na qual os personagens de Júlia Lemmertz e Marco Ricca - ele em segundo casamento, ela tentando o terceiro - simplesmente nunca conseguem ficar juntos por mais de cinco minutos porque são sempre perturbados por algum problema familiar provocado por um dos filhos adolescentes, ex-maridos e ex-esposas, pais e mães de ambos os lados. Um verdadeiro carrossel de emoções familiares, como nunca se viu na teledramaturgia da Globo, nem nos tempos de "Malu Mulher". Tudo por meio de uma linguagem naturalista, que pretende situar a questão da família brasileira contemporânea. Lembra inclusive uma série norte-americana com Sela Ward, "Once and Again", até mesmo no título.

UM DIA, QUEM SABE...

Meu avô materno, de quem herdei o nome, era médico em um tempo já longínquo, quando não existiam planos de saúde, hospitais-empresas, pólos médicos etc. Também não existia muito desenvolvimento científico-tecnológico de apoio a diagnósticos como os moderníssimos e sofisticados exames, capazes de avistar todo tipo de doença do corpo. Havia apenas a relação médico-paciente.

O doutor José Augusto de Amorim era um dos pouquíssimos médicos a residir no interior da Paraíba, deslocando-se pra cá e prá lá quando solicitado. Por incrível que possa parecer, profissionais como ele quase não eram remunerados em espécie; recebiam porcos, galinhas, sacas de arroz, milho, coisas assim em agradecimento (e reconhecimento) pelos serviços prestados. E, com isso, involuntariamente, produziam uma imagem de si que se aproximava de um nobre semideus, um "mão santa". Obviamente, eles não eram semideuses. Apenas seres humanos que se importavam e se solidarizavam com os seus iguais, para além do que poderiam ganhar materialmente com aquela ajuda.

Os tempos são outros. Receio que não haja mais gente como o meu avô. Há, sim, muita técnica, precisão de diagnósticos que revelam o aparecimento microscópico de doenças, drogas excepcionais que prolongam a vida de quem já está enfermo, códigos genéticos decifrados e pesquisas com DNA que podem resgatar o ser humano de doenças incapacitadoras e salvar vidas condenadas. Um novo mundo! Uma maravilha! 

Somente uma coisa parece não ter evoluído e nada tem a ver com a ciência e a tecnologia do campo médico.  São os relacionamentos humanos envolvidos no processo. Para onde foram parar a compaixão e o respeito pela dor alheia? Certamente, não estou falando de uma maioria de pessoas. Que fique bem claro! Estou a dizer sobre uma minoria de profissionais que agem como se fossem semideuses, pequenos semideuses, destituídos de humanidade e repletos de arrogância no trato com as pessoas. São formados pelas melhores faculdades, são tecnicamente precisos em seus procedimentos, mas incapazes de trazer alento e conforto aos que sofrem... Um dia, quem sabe, esses serão tocados e se transformarão...

Um dia, quem sabe...

À memória da minha querida avó Maria das Neves! Que ela esteja ao lado do Nosso Senhor e que tenha reencontrado seu amado esposo!

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Meu Perfil
BRASIL, Nordeste, RECIFE, Homem, JORNALISTA (DRT-PE 1725) E PROFESSOR UNIVERSITÁRIO