"ANIMAIS NOTURNOS" E A PRAGA DO POLITICAMENTE CORRETO

Apesar de determinados grupos identificados com a ladainha do politicamente correto gritarem argumentos de que o diretor Tom Ford objetifica e erotiza a figura da mulher, legitimando o estupro e tornando-a frágil e dependente do homem, quero dizer que o filme é muito mais do que essa apreciação rasteira.

É vigoroso como narrativa cinematográfica com um Ford talentoso no manejo dos elementos da linguagem. Faz uma bela referência ao gênero "noir", uma marca do cinema policial e de suspense e, além disso, é apenas um filme e não um discurso sociopolítico.

Cansei!

Assim como já havia feito no seu ótimo filme anterior, "Direito de Amar" (2009), protagonizado pelo ator inglês Colin Firth, o designer e magnata da moda tornado diretor de cinema Tom Ford faz de "Animais Noturnos" um filme a ser visto com prazer para quem busca um cinema mais elaborado.

Conta-se a história de Susan (Amy Adams), dona de uma galeria de arte e uma mulher bela, rica, sofisticada mas infeliz no casamento com um executivo infiel (Armie Hammer).

Em dada ocasião, ela recebe pelo correio uma cópia do livro escrito pelo ex-marido Edward (Jake Gyllenhaal), pai de sua única filha.

A partir desse fato acontece uma virada no filme, ao se estabelecer uma segunda narrativa em paralelo, à medida em que Susan faz a leitura interessada do livro. Até então ela não enxergava qualidade no trabalho do ex-marido.

A história dentro da história trata da perseguição numa rodovia deserta que três bandidos jovens e arruaceiros (boa atuação do inglês Aaron Taylor-Johnson no papel do líder do bando) fazem a uma família - pai e mãe interpretados também por Gyllenhaal e Adams, mais uma filha adolescente, assim como Susan e Edward.

No fluxo da leitura que tem um impacto devastador sobre si, Susan inicia um processo subjetivo de ressignificação de sua trajetória anterior com Edward, quando o considerava um perdedor incapaz de lhe oferecer uma vida abastada. Em consequência, esse julgamento passa a afetar a sua vida presente.

Até esse momento de sua vida, a protagonista é alguém sempre em busca da perfeição e da beleza (ela própria é dona de uma beleza clássica, fria, inacessível), esforçando-se para trazer tal ideal para a sua vida cotidiana, mas tudo que alcança é vazio e estéril.

Essa construção narrativa se vale de uma bem realizada junção de elementos da linguagem cinematográfica, da fotografia à direção de arte, dos figurinos à maquiagem, da trilha musical à montagem, que convergem para aprofundar o tema posto em discussão pelo roteiro a respeito das escolhas individuais com lastro na percepção do senso comum sobre ideais de beleza e perfeição que comumente acessamos e desejamos.

Já na abertura numa sequência com créditos, Ford problematiza a questão ao nos desafiar sobre esse padrão consumista do belo. A conferir.

É certo que o filme tem como referência estética o cinema policial do gênero "noir", não apenas pelo cuidado com o apuro visual, marca daqueles filmes, mas também, e principalmente, pela dimensão psicológica na qual se inserem alguns personagens mais complexos, como, além de Susan, o policial que investiga o crime descrito no livro de Edward, maravilhosamente vivido pelo grande Michael Shannon.

CERTEZAS E RECADOS

Sobre o Globo de Ouro, entregue ontem pela Hollywood Foreign Press Association, uma entidade que reúne jornalistas do mundo inteiro que cobrem cinema em Hollywood (e não críticos de cinema como muita gente pensa e que nós jornalistas sabemos bem a diferença):

Uma certeza: Meryl Streep e Viola Davis não são apenas atrizes fenomenais. São seres humanos da melhor categoria.

Uma propaganda: A esnobada que a Academia (que distribui o Oscar) deu no filme francês "Elle", eliminando-o da disputa de filme estrangeiro já na shortlist divulgada em dezembro, foi corrigida pelo Golden Globe. O discurso de agradecimento do diretor Paul Verhoeven, vencedor de filme estrangeiro, basicamente enaltecendo entusiasticamente a figura da protagonista Isabelle Hupert, bem como a escolha desta com a melhor atriz de drama alavancaram não apenas a possibilidade de Hupert estar entre as finalistas de melhor atriz no Oscar, como também as chances de "Elle" figurar na categoria nobre de melhor filme. Nenhum anúncio no Hollywood Reporter faria melhor.

Um recado: a premiação de sete globos para "La La Land - cantando estações", incluindo os de melhor filme e melhor direção (provavelmente um recorde para o Globo de Ouro), nos traz a certeza de que o musical, ainda que raro, é um gênero do cinema que (thanks God!) não morreu.

BRASILEIRAS JÁ FORAM PREMIADAS PELA CRÍTICA AMERICANA EM ANOS ANTERIORES

Com a recente divulgação dos premiados pela National Society of Film Critics, encerra-se a temporada de premiação das associações Top da crítica norte-americana, cujo seleto grupo inclui ainda a National Board of Review, os críticos de Nova York e os críticos de Los Angeles.

Aliás, essas associações têm premiado atrizes brasileiras ao longo dos anos. A cearense Florinda Bolkan, já retirada do cinema, venceu o prêmio dos críticos de Los Angeles como melhor atriz de 1975 com o filme italiano "Amargo Despertar".

A falecida Marília Pera foi premiada pela National Society of Film Critics como melhor atriz de 1981 pelo clássico nacional "Pixote - A Lei do Mais Fraco". Foi também a segunda mais votada, agora como melhor atriz coadjuvante, pela Associação dos Críticos de Nova York pelo mesmo filme.

Finalmente, Fernanda Montenegro, por "Central do Brasil", venceu como melhor atriz o prêmio dos críticos de Los Angeles e o da National Board of Review, ficando como a segunda mais votada pelos críticos de Nova York.

Este ano, os laureados pela National Society of Film Critics são:

"Moonlight - sob a luz do luar" venceu melhor filme, melhor direção, melhor ator coadjuvante (Mahershala Ali) e melhor fotografia.

"Manchester à Beira-Mar" ficou com os prêmios de melhor ator (Casey Affleck), melhor atriz coadjuvante (Michelle Williams) e melhor roteiro.

A francesa Isabelle Hupert foi a melhor atriz pelo filme "Elle".

O filme alemão Toni Erdmann ganhou melhor filme estrangeiro e "O.J.: made in America" ganhou como melhor filme de não-ficção.

O sítio da National Society of Film Critics;
https://nationalsocietyoffilmcritics.com/
SONIA BRAGA ESTÁ FORA DO OSCAR

Ao que parece, a atriz brasileira Sonia Braga está, infelizmente, fora da corrida para o Oscar de melhor atriz pelo seu belo desempenho no filme "Aquarius".

No último dia 21 de dezembro, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos EUA, que outorga o prêmio, divulgou, assim como faz todos os anos, a sua "Reminder List", uma espécie de "lembrete" para que os integrantes da Academia saibam que filmes e artistas estão oficial e efetivamente concorrendo aos prêmios das chamadas categorias gerais (filme, direção, interpretação, roteiro, fotografia, etc.).

Este ano, 336 produções de longametragem estão habilitadas a concorrer ao prêmio nessas categorias, mas "Aquarius" não está incluído na relação.

O filme estreou comercialmente nos EUA em 14 de outubro de 2016, o que, em tese, o habilitaria para estar na condição de "oscarizável".

Ocorre que, além de estrear nos EUA, o filme para ser elegível precisa preencher outros requisitos: devem estrear numa sala comercial do condado de Los Angeles até a meia-noite do dia 31 de dezembro e permanecer em cartaz por, no mínimo, sete dias consecutivos em sessões diárias; precisa ter, também no mínimo, 40 minutos de duração e ser exibido em filme de 35 mm ou 70 mm em formato digital apropriado.

Mais: esses longametragens devem ter sua primeira exibição pública apenas em salas de cinema, ou seja, os filmes precisam ter sua estreia realmente no cinema, sendo eliminados aqueles que primeiramente estrearam em outras mídias.

Não sei dizer exatamente qual ou quais desses requisitos listados acima "Aquarius" não preencheu, mas o fato é que o seu nome não se encontra entre os 336, cuja lista inclui outros filmes falados em língua não inglesa como o francês "Elle", de Paul Verhoeven com Isabelle Hupert no papel principal, entre outras produções.

"Elle" não está na shortlist de filme estrangeiro, que contém os nove "semifinalistas", mas continua no páreo para figurar nas categorias gerais.

As indicações serão anunciadas no dia 24 de janeiro.

Mais informações no site oficial da Academia:

http://oscars.org/sites/oscars/files/89th_reminder_list.pdf

http://oscars.org/news/336-feature-films-contention-2016-best-picture-oscarr


CIDADE DE DEUS ENTRE OS MELHORES DO MUNDO

O excepcional filme "Cidade de Deus" (2002) está incluído em praticamente todas as listas de "cem melhores de todos os tempos" do cinema internacional, não importa a origem de tais avaliações periódicas.

No IMDb, por exemplo, é o 21º colocado com nota 8,6; tudo isso depois de 14, quase 15 anos de lançado.

Concorreu a quatro categorias nobres do Oscar (direção, roteiro adaptado, fotografia e montagem), apesar de ter sido recebido com desdém por parte da crítica dita especializada de cinema, no Brasil, e, também, por pesquisadores de várias universidades brasileiras, em especial da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Hoje, é um clássico!

E um clássico, como sabemos, está acima de discussões fundamentadas em ideologias que deixam de lado a análise fílmica.

Vitória de Fernando Meirelles. Vitória do cinema brasileiro.

NOVE FILMES CONTINUAM NA DISPUTA PELO OSCAR DE FILME ESTRANGEIRO
Foram incluídos entre os nove "semifinalistas" (a lista final com os cinco títulos efetivamente indicados só sai no final de janeiro):

Da Alemanha, “Toni Erdmann” de Maren Ade; Do Irã, “O Apartamento", de Asghar Farhadi; do Canadá, “É Apenas o Fim do Mundo”, de Xavier Dolan;

Mais: da Suíça, "Ma vie de Courgette", animação de apenas 66 minutos de Claude Barras; Da Austrália, "Tanna", de Martin Butler e Bentley Dean; da Rússia, "Paradise", do veterano cineasta Andrey Konchalovsky.

Completam a lista três filmes escandinavos: da Dinamarca, “Terra de Minas", de Martin Zandvliet; da Suécia “Um Homem Chamado Ove", de Hannes Holm; e da Noruega, "A Escolha do Rei", de Erik Pope.

Três favoritos ficaram de fora: "Julieta", de Pedro Almodóvar; "Elle", de Paul Verhoeven (a francesa Isabelle Hupert tem chance de figurar entre as melhores atrizes) e "Neruda", de Pablo Larraín.
NOVE FILMES CONTINUAM NA DISPUTA PELO OSCAR DE FILME ESTRANGEIRO
Foram incluídos entre os nove "semifinalistas" (a lista final com os cinco títulos efetivamente indicados só sai no final de janeiro):

Da Alemanha, “Toni Erdmann” de Maren Ade; Do Irã, “O Apartamento", de Asghar Farhadi; do Canadá, “É Apenas o Fim do Mundo”, de Xavier Dolan;

Mais: da Suíça, "Ma vie de Courgette", animação de apenas 66 minutos de Claude Barras; Da Austrália, "Tanna", de Martin Butler e Bentley Dean; da Rússia, "Paradise", do veterano cineasta Andrey Konchalovsky.

Completam a lista três filmes escandinavos: da Dinamarca, “Terra de Minas", de Martin Zandvliet; da Suécia “Um Homem Chamado Ove", de Hannes Holm; e da Noruega, "A Escolha do Rei", de Erik Pope.

Três favoritos ficaram de fora: "Julieta", de Pedro Almodóvar; "Elle", de Paul Verhoeven (a francesa Isabelle Hupert tem chance de figurar entre as melhores atrizes) e "Neruda", de Pablo Larraín.
NERUDA NA VERSÃO DE PABLO LARRAÍN

Com uma considerável dose de licença poética a respeito de fatos reais que envolvem a perseguição política a Pablo Neruda no Chile entre os anos 1940 e 1950, o diretor Pablo Larraín imprime personalidade a seu filme "Neruda", um dos fortes candidatos a figurar entre os finalistas ao Oscar 2017 entre os filmes falados em língua não inglesa.

O diretor investe numa situação assemelhada já utilizada há 20 anos por Michael Radford no filme "O Carteiro e o Poeta", baseado no livro de Antonio Skamerta, que transferiu para a Itália dos anos 1950 uma suposta relação de amizade do poeta com um carteiro, o que na verdade teria acontecido no Chile dos anos 1970, perto da morte do autor em 1973, dias após o golpe militar que levou o general Augusto Pinochet a chefe de Estado no nosso vizinho do Pacífico.

Em "Neruda", Larraín transforma a voz Off, narrada por um antagonista, um policial de nome pouco crível Oscar Peluchoneau, interpretado por Gael García Bernal, em um longo poema de pouco mais de cem minutos.

O recurso - interessante - atribui ao contraponto do poeta uma expressão ao mesmo tempo jocosa, até ridícula e melancólica, que parece funcionar quando se olha para Neruda (Luis Gnecco) como um herói libertário, membro do Partido Comunista chileno (cuja obra valeu o Nobel de Literatura), que entre um e outro livro, além de sua atividade político-partidária como senador, apreciava bastante uma vida de devassidão com mulheres e bebidas em grandes quantidades.

Talvez por isso Larraín retira do seu filme eventuais aspectos de panfletagem política (ironiza os comunistas) ao destacar tal personalidade como de um homem por vezes contraditório mas convicto de suas crenças.

Numa das melhores cenas, uma mulher do povo adentra uma sofisticada festa de lançamento de um de seus livros para abordá-lo.

Um tanto alterada pela bebida, mas obstinada em obter uma resposta do poeta, ela questiona-o: "Quando a Revolução triunfar e todos forem iguais, nós seremos iguais a mim ou ao senhor?".

Constrangido, e talvez para apaziguar a mulher trabalhadora, Neruda hesita, mas responde: "Todos serão iguais a mim".

O problema do filme, penso eu, é que o jogo de gato e rato entre o improvável Peluchoneau e o autor chileno estende demasiadamente a narração "poética" que acompanha as imagens, repetindo, parece-me, uma mesma situação até o fim.

De qualquer forma, penso que vale a pena conferir essa obra de Larraín (diretor dos recentes "O Clube" e "No" e de "Jackie", sobre a vida de Jacqueline Kennedy logo depois do assassinato do esposo, o presidente John Kennedy).

GLOBO DE OURO DIVULGA OS SEUS PREFERIDOS EM 2016

Não é exatamente um prêmio da crítica cinematográfica stricto sensu mas de jornalistas estrangeiros que trabalham em Los Angeles realizando a cobertura jornalística sobre o cinema de Hollywood.

Fonte: IMDb

http://www.imdb.com/golden-globes/nominations?pf_rd_m=A2FGELUUNOQJNL&pf_rd_p=2752644862&pf_rd_r=0Y3X4W7HYW38HBT0B3T8&pf_rd_s=top-1&pf_rd_t=60601&pf_rd_i=golden-globes&ref_=fea_gg_nav_i3

 

PRÊMIO FÊNIX” DO CINEMA IBEROAMERICANO CONSAGRA O CHILENO "NERUDA", O ARGENTINO "O CLÃ", O MEXICANO "TEMPESTADE" E OS FILMES BRASILEIROS "AQUARIUS" E "BOI NEON":

Melhor Filme – “Neruda”
Melhor Diretor – Kleber Mendonça Filho, “Aquarius”
Melhor Atriz – Sônia Braga, “Aquarius”
Melhor Ator – Guillermo Francella, “O Clã”
Melhor Roteiro – “Boi Neon”
Melhor Fotografia – “Boi Neon”
Melhor Montagem – “Neruda”
Melhor Direção de Arte – “Neruda”
Melhor Figurino – “Neruda”
Melhor Trilha Sonora – “O Clã”
Melhor Som – “O Clã”
Melhor Trabalho de Exibição – “Os 33”
Melhor Trilha Sonora Original – “Tempestade”
Melhor Documentário – “Tempestade”
Melhor Fotografia (Documentário) – “Tempestade”

PRÉVIAS DO OSCAR 2017

Premiação de crítica cinematográfica nos EUA é o que não falta, mas pouquíssimas são realmente tradicionais e importantes.

Além da já comentada NBR (National Board of Review), encontram-se neste seleto grupo a LAFCA (Los Angeles Film Critics Association) e a NYFCCA (New York Film Critics Circle Awards), que divulgaram os melhores de 2016.

Seguem os respectivos links:

http://www.lafca.net/years/2016.html

http://www.nyfcc.com/awards/

COMEÇA A TEMPORADA DE PRÊMIOS DE CINEMA NOS EUA

A premiação da National Board of Review é a mais antiga na área do cinema. Data de 1916 e antecede até mesmo aos prêmios da Academia, o Oscar, que são distribuídos desde 1928.

É também a primeira associação (formada não apenas por jornalistas e críticos como também por pessoas relacionadas ao cinema) a divulgar a sua lista com os melhores do ano, normalmente no início de dezembro.

Este ano o anúncio foi antecipado em alguns dias.

"Manchester à Beira-Mar", de Kenneth Lonergan, venceu como Filme, Ator (Casey Affleck) e Roteiro Original.

A NBR prepara duas listas de "melhores".

A primeira composta por filmes em língua inglesa: além do filme de Lonergan, inclui "A Chegada" (em cartaz no Recife), "Até o Último Homem", "Ave, César!", "A Qualquer Custo", "Estrelas Além do Tempo", "La La Land: Cantando Estações", "Moonlight", "Dia de Heróis", "Silence" and "Sully: o Herói do Rio Hudson", cuja estreia no Brasil nesta quinta foi adiada em função da tragédia na Colômbia com a Chapecoense, por conta da afinidade temática com o trágico evento.

Os melhores filmes em língua não inglesa exibidos nos EUA são: "Elle" (em exibição no Recife), "A Criada", "Julieta", "Terra de Minas" e "Neruda".

COMO SE DIZIA ANTIGAMENTE EM HOLLYWOOD

Parece que o filme já saiu de cartaz no Recife, ainda que, enquanto esteve, era difícil assisti-lo porque, afinal, somente foi exibido numa única sessão às 13h45, no RioMar.

De qualquer maneira, quem posteriormente tiver a oportunidade de assisti-lo, não deixe escapar.

"A Luz Entre Oceanos", de Derek Cianfrance (diretor de "Blue Valentine/Namorados Para sempre", um ótimo filme com Ryan Gosling e Michelle Williams) já nasceu um clássico. Não no sentido de uma possível qualificação que o tempo eventualmente pode lhe atribuir.

Nasceu clássico por conta de sua narrativa rigorosamente tradicional, aquela que evoca os primórdios do cinema, quando "contar" uma história por meio de imagens era um exercício que juntava tantas habilidades e competências; atualmente, muito difíceis de encontrar no cinema contemporâneo.

Desde o seu nascedouro, "A Luz..." é um drama romântico com ares épicos, a partir da concepção de seu argumento.

Michael Fassbender interpreta com louvores Tom Sherbourne, um veterano da primeira guerra mundial que, para esquecer os horrores pelos quais passou, aceita um emprego de guarda de um farol na costa ocidental da Austrália.

A princípio arredio, calado e taciturno, como convém a um herói nacional, em 1921, o militar casa-se com Isabel Graysmark (Alicia Vikander, a sensação do ano e Oscar de coadjuvante por "A Garota Dinamarquesa"; aqui dando show outra vez).

Sozinhos numa ilha distante do continente, a mulher, em três anos, sofre dois abortos espontâneos. Traumatizada, acredita que jamais será mãe.

Pouco depois da segunda perda, um barco à deriva chega à praia do farol. No seu interior, um homem morto e uma criança recém-nascida.

Honesto até o último fio de cabelo, Tom pretende, conforme é o seu dever, relatar o ocorrido às autoridades locais. A esposa, porém, tem outros planos: ela convence o marido a enterrar o homem e tomar a criança como a sua filha.

É aí que começa o rolo, porque de repente aparece Rachel Weisz, linda e boa atriz, como sempre, na pele da chorosa viúva do falecido e mãe da menina desaparecida e tida como morta...

Retornando à forma: narrado com a maestria dos clássicos: bela fotografia sem "cartão postal"; trilha musical de Desplat que arrepia; melodramático, mas sem apelação, o filme prende a atenção do espectador apenas num fôlego, quase não se respira com a tensão gerada.

Bem... E as atuações: como é bom asssitir a um filme em que os atores mergulham de cabeça em seus personagens. Thanks a lot Mr. Fassbender, Miss Vikander and Miss Weisz e, claro, todo o elenco coadjuvante e de apoio.

A isto, na antiga Hollywood, chamava-se Produção Classe A.

PARA QUEM GOSTA DE SÉRIES POLICIAIS

Para quem tem acesso à plataforma Netflix e gosta de dramas policiais, recomendo enormemente a série "The Fall".

Em três temporadas com 17 episódios (05-06-06), essa produção é provavelmente uma das mais interessantes e profundas viagens à mente de um psicopata serial killer (no caso em tela, vivido pelo galã de "Cinquenta Tons de Cinza", o irlandês do Norte Jamie Dornan em ótima composição).

Não me recordo de outra produção recente (talvez "Seven", de David Fincher) que explorasse esse perfil de homicida de forma tão profunda e verossímel.

Para começar, a série é britânica. Em termos de narrativas policiais, isso faz uma enorme diferença quando se compara às congêneres norte-americanas - nada contra estas, muito pelo contrário, algumas são ótimas também, como "The Killing", que, aliás, é meio norte-americana, meio canadense.

Contudo, nos EUA, essas séries policiais que contam uma mesma história ao longo de todas as temporadas, de um modo geral, tendem a ter grandes reviravoltas e certa pirotecnia nas narrativas que, com certa frequência, torna o que se assiste instigante e empolgante mas pouco crível.

As britânicas, como "Luther" ou a famosa "Prime Suspect" não são tão impactantes do ponto de vista dessas mudanças de rumo que via de regra as dos EUA adotam, mas, em compensação são mais detalhistas nos perfis dos personagens (seres imperfeitos e idiossincráticos, assim como todos nós) e na gênese da investigação policial, justamente porque buscam um maior grau de realismo.

Em complemento, a superpoderosa e brilhante policial inglesa (a história se passa em Belfast, na Irlanda do Norte) designada para elucidar a série de crimes é de uma dualidade genial.

Interpretada pela deusa Gillian Anderson (de "Arquivo X"), a policial durona Stella Gibson é, ao mesmo tempo uma profissional fria, cerebral e pragmática mas que se mantém atenta a compreender a vulnerabilidade dos seres humanos e até a se emocionar com estes.

É exatamente a percepção subjetiva dos fatos e das pessoas que a tornam uma gigante da investigação. Provas físicas e materiais são apenas o complemento legal necessário para a instrução do processo penal.

E, nesse ponto, destaque-se o excelente roteiro com incríveis diálogos, e a montagem que deixa as sequências existirem em plenitude

A estrutura da série é muito bacana e até didática, porque na primeira temporada se centra basicamente na ação criminosa do serial killer.

Na segunda temporada toma corpo a investigação policial que une a mente brilhante da investigadora e o aparato policial que busca indícios e provas.

Na terceira temporada vem à tona o julgamento e o desenlace final. 

Tudo perfeito!

À frente de tudo está a figura carismática, às vezes sombria, às vezes, solitária de Anderson numa atuação que certamente ficará para a história das séries policiais.

A título de mera exemplificação, abaixo segue um dos muitos diálogos que a detetive tem com o seu chefe imediato na Irlanda do Norte, depois que este quase a estupra (isso mesmo!).

Arrisco um palpite: se a série fosse norte-americana, este diálogo provavelmente seria cortado na edição final do episódio.

 

Jim Burns (Chefe de Stella): Hoje, durante o briefing, vi a lista dos orfanatos em que Spector [o serial killer de Jamie Dornan] diz ter crescido. Um dos orfanatos eu conhecia. Conhecia muito bem. Era administrado por um pedófilo, Padre Jensen, um homem de minha religião, Stella. Um homem com uma posição de poder, com autoridade moral para ele. A missa de meia-noite era fazer o 69 com um coroinha atrás do altar, totalmente paramentado. Ordem desconsagrada. Perdeu tudo. (pausa). Eu fui o oficial que o prendeu. Décadas mais tarde, as vidas das vítimas seriam arruinadas por depressão e vícios, casamentos falidos, autoflagelação, suicídio. Talvez esse assassino desgraçado [Spector, no caso] também seja uma vítima.

Stella (indiferente): Talvez. (pausa).

Jim Burns: Por que as mulheres são tão mais fortes emocional e espiritualmente do que os homens?

Stella (plácida e impavidamente): Por que a forma humana básica é feminina. A masculinidade é um defeito de nascimento. (pausa).

Jim Burns (atônito)

Stella: Você olha para mim como olha para uma garrafa de uísque, com uma mistura de medo e raiva. Não gosto disso.

 

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