O ESPIÃO QUE SABIA DEMAIS
Três indicações para o Oscar: ator para Gary Oldman, roteiro adaptado e trilha musical original.
Que apelo pode possuir, nos tempos atuais, um filme que trata das relações entre os agentes da Inteligência britânica quando um deles é tido como um infiltrado ou um agente duplo que traiu a causa dos Aliados, a ponto de ser desmascarado?
Aparentemente, seria esse um tema palpitante e que nos faria recordar de um sem número de filmes anglo-americanos produzidos durante a Guerra Fria com essa mesma temática.
No entanto, o que se observa em "O Espião que Sabia Demais", segunda adaptação da obra de John Le Carré (a primeira é uma versão televisiva de 1987 com Alec Guiness), é uma intrincada, complexa, confusa e enfadonha trama de espionagem sem aquilo que é básico nesse subgênero do suspense: não há surpresas ou reviravoltas e nem mesmo pistas falsas que envolvam emocionalmente o espectador.
Além disso, o personagem principal, George Smiley (nome bem irônico), vivido elegantemente por Gary Oldman, é, ele mesmo, praticamente um espectador passivo, o que deixa um vazio na condução da trama na qual, em se tratando de um filme de espionagem, o protagonista deve ter uma participação fundamental.
O que resta é realizar uma ginástica mental com a finalidade de compreender a razão pela qual alguém trai a sua pátria, seus companheiros e tudo aquilo que acredita(va) a partir do nada em termos de informação prévia e de um herói sem qualquer carisma. Não é uma tarefa fácil. O filme não seduz o pobre coitado que se senta na poltrona para assisti-lo e sequer se esforça para minimamente informá-lo sobre a trama.
A consequência é que "O Espião que Sabia Demais" resulta em um filme literalmente escuro, sombrio e fechado em sua temática. Lembra, por vias transversas, o thriller "Syriana - A indústria do Petróleo" (Oscar de coadjuvante para George Clooney), dada a maneira pouco (ou quase nada) clara com que o roteiro é estruturado.
Toda vez que me deparo com um filme assim, ou seja, um em que, de fato, quem o assiste "não está" na história, o que permitiria construir minimamente uma relação de identificação desejável, recordo-me das lições de Alfred Hitchcock sobre seus próprios filmes: não é tão importante o "quem fez o quê", mas é absolutamente necessário que o protagonista seja "compreendido" para que o espectador torça por ele.
Apesar das boas atuações de todo o elenco, da produção classe A (trilha impecável do espanhol Alberto Yglesias) e de alguns poucos bons momentos, o filme não me entusiasmou.
Eu tenho com a música uma relação diferente da que mantenho com o cinema. Em outras palavras, sou bem mais emocional com a primeira do que com a segunda, que, por dever de ofício de pesquisador e jornalista (posição essa firmada ao longo do tempo), é uma relação bem mais racional.
Todas as vezes em que me observo "teorizando" muito sobre música, relaxo e digo a mim mesmo que só preciso mesmo curtir a canção. Por isso, parece-me interessantíssima a ideia do novo documentário de Eduardo Coutinho: ilustrar a importância que a música tem na vida das pessoas.
Antes, porém, cabe uma reflexão sobre o cinema documental de Coutinho, que há muito rompeu com a ideia de que o documentário é a vida real filmada sem ficionalização. Desde "Edifício Master" sabemos que ele está apenas interessado na "verdade" de cada um, verbalizada por meio do discurso construído nos depoimentos que coleta para seus filmes.
Francamente, não importa se o indivíduo narra a objetividade dos fatos, mas sim como subjetivamente ele arquiteta um enredo para a sua própria vida, independentemente da tal objetividade e da isenção. Pode-se afirmar que é um cinema sobre a auto-percepção. Brincar com essas aparências é o cerne de "Jogo de Cena", a quintessência do cinema de Coutinho.
Isso posto, volto à música e ao filme em questão para dizer que me deliciei com algumas das narrativas contadas pelos anônimos diante da câmera. Aqui e ali percebe-se claramente "remendos" nas histórias (datas e cronologias impossíveis, fatos que se desmentem entre si etc.).
No entanto, nada disso importa a não ser o fato de que cada uma daquelas pessoas entrevistadas soube, bem ou mal, costurar em torno de determinada canção o mote para narrar a história de si mesmo, além é claro de cantá-las na íntegra, alguns até com performances bastante razoáveis.
Impressionante e invejável porque quase nunca eu consigo memorizar por completo qualquer letra de canção que tenha me marcado.
Pensei se, na minha vida, há apenas uma canção marcante. Acredito que não. Essa imensa possibilidade emocional que a música traz é, como alguém bem ressalta no filme, a mais intensa forma de memória que os indivíduos dispõem, mais até do que por cheiros e odores.
A conversa a seguir entre dois espectadores foi ouvida no hall do Cinema da Fundação ao final de uma sessão
Ambos aparentam ter mais de 40 anos:
ESPECTADOR 1 - Gostou do filme?
ESPECTADOR 2 (hesitante, sem saber ao certo o que responder) - Hum...
ESPECTADOR 1 - Filme francês tem sempre um final inesperado.
ESPECTADOR 2 (olhar intrigado para o seu interlocutor)
ESPECTADOR 1 - Eu sempre digo pra minha mulher: filme francês dá margem a mil e quinhentas interpretações...
ESPECTADOR 2 (cara de quem pergunta a si mesmo: será?)
ESPECTADOR 1 - Eu acho o seguinte: o diretor não sabia como terminar o filme e aí resolveu terminar ali mesmo
Em seguida, não os vi mais...
Esse diálogo ilustra bem o estranhamento que o espectador médio ainda mantém com filmes de narrativa não hollywoodiana.
O tal filme de que se fala é a produção belga "O Garoto de Bicicleta", uma bela crônica sobre o cotidiano na vida de um menino abandonado pelo pai em uma casa de abrigo, que, até ser adotado por uma mulher solteira, vivencia sentimentos de rejeição que, como seria previsível, o colocam em situação de risco social, sobretudo no que se relaciona com o submundo da criminalidade.
Apesar de ser econômica e rigorosa com os espasmos sentimentalóides de que quase sempre são acometidos os filmes com crianças, a narrativa dos irmãos Dardenne opta por uma cronologia rigorosa de fatos que compõem um quadro bem representativo da trajetória sobre o abandono infantil, ainda que tal aconteça em um país socialmente desenvolvido.
Essa distinção é necessária porque dimensiona que, aqui como lá, a dor de não ser amado e querido é sempre eloquente e devastadora. O que talvez torne esse estado de coisas mais ameno é que os mecanismos que o poder público e a sociedade desenvolvidos colocam à disposição são mais eficientes e eficazes no sentido de mitigar o sofrimento. Para quem vive num país como o Brasil, isso faz uma enorme diferença.
Mas, o que, afinal, tem a ver o modo como a Bélgica trata a questão do menor com a narrativa hollywoodiana? Nada e tudo. O que o espectador lá em cima questionava não era o conteúdo nem mesmo a forma. Esses, ele pareceu compreender (e aceitar) muito bem, pois o filme, para além da economia no dramalhão, estabelece uma sequência narrativa de acontecimentos críveis (o que chega a ser bastante didático).
O que talvez o tenha incomodado é que a redenção do personagem principal (se é que existe) não é aquela esperada pela maioria das pessoas diante de um filme sobre crianças carentes. E isso, podem acreditar, não tem nada a ver com "finais inesperados", "mil e quinhentas interpretações" ou, ainda, "incapacidade do diretor-roteirista em terminar o filme".
O que incomoda mesmo ao espectador é a possibilidade da cândida aceitação da não conclusão, do estar aberto a diversas possibilidades e de perceber que o cinema, assim como a vida, não precisa de finais grandiloquentes.
Dois brasileiros estão indicados ao Oscar deste ano. Trata-se da dupla de compositores Sergio Mendes e Carlinhos Brown, que juntamente com Siedah Garrett, concorre na categoria de melhor canção original com "Real in Rio" da animação "Rio", produção norte-americana dirigida pelo brasileiro Carlos Saldanha.
O curioso é que, pela primeira vez em 84 anos de Oscar, apenas duas canções estão indicadas. Dessa forma, os brasileiros têm 50% de chances de levar a estatueta para casa.
A conferir!
A lista completa dos indicados:
http://www.imdb.com/oscars/nominations/
Assisti dias atrás em DVD dois dos mais comentados documentários brasileiros recentes. O primeiro, "Lixo Extraordinário" (co-produção com a Inglaterra e indicado ao Oscar da categoria no ano passado), foi muita além das minhas expectativas. Mostra com muita clareza, objetividade e sem demagogia ou populismo como a arte pode interferir na dinâmica social, sobretudo aquela relativa aos socialmente excluídos, com o objetivo de trazer alguma contribuição para esses, além de projeção pessoal e profissional para o próprio artista.
Todo mundo sabe do que se trata: a intervenção do artista plástico brasileiro Vik Muniz, o mais celebrado do momento, na comunidade e no lixão (agora desativado) de Jardim Gramacho, localizado no Rio de Janeiro. Com extrema noção de ritmo e timing para o gênero, os diretores Karen Harley, João Jardim e Lucy Walker traçam um painel detalhado dessa articulação entre mundos aparentemente tão opostos. De um lado, o lixão fétido, supostamente uma agressão ao senso estético inerente à arte; de outro, o mundo artístico com a sua lógica elitista, hermética e excludente.
Não é à toa que o próprio Vik Muniz encarrega-se de tentar desmistificar essa evidente discrepância, valendo-se do argumento de que, para apreciar a arte contemporânea, é necessário apenas conhecer sobre a obra e o artista, para além de simplesmente se sentir tocado por esses. Os moradores de Gramacho parecem, durante o processo, consentir em tal iniciação a ponto de se observarem transformados pelo contato com esse mundo.
É simplesmente emocionante esse encontro, o que torna o filme realmente imperdível!
Já não tive tão boa impressão de "Quebrando o tabu", a começar pelo título no gerúndio, mas isso são outros quinhentos...
Como se sabe, trata-se da tentativa de Fernando Henrique Cardoso, sociólogo e ex-presidente, em trazer à agenda pública a discussão sobre a não criminalização do uso de drogas para o consumo pessoal. Até aí tudo bem, o debate é necessário.
O que me dá uma certa inquietação é constatar que o seu posicionamento pessoal (favorável à não criminalização) embaça o debate, uma vez que o documentário praticamente só admite depoimentos a favor de sua tese. Fico pensando então que isso não é propriamente uma discussão, mas um ponto de vista pessoal, corroborado e ratificado por quem tem a mesma opinião.
É claro que o filme é rico em depoimentos (cientistas, políticos, gestores públicos, usuários etc.), mas a não contemplação de perspectivas distintas, parece-me um tanto suspeito, ainda que eu não queira pensar em teorias conspiratórias. Por exemplo, o debate fica tão obscuro a ponto de o documentário colocar no mesmo balaio o uso recreativo e o uso medicinal da maconha, além, é claro, de não fazer diferenciações significativas sobre a utilização pessoal do amplo espectro de drogas "naturais" e sintéticas.
Pessoalmente, não tenho opinião formada sobre esse assunto porque admito que ele é extremamente complexo, mas a proposição do documentário não me trouxe nenhuma luz....
Aqui está a lista dos dez filmes estrangeiros mais bacanas que assisti em 2011:
(Em ordem alfabética)
"A árvore da vida" (Terrence Malick, EUA)
"Cisne negro" (Darren Aronofsky, EUA)
"Cópia fiel" (Abbas Kiarostami, França / Itália / Bélgica)
"Em um mundo melhor" (Susanne Bier, Dinamarca / Suécia)
"Fora da lei" (Rachid Bouchareb, França / Argélia / Bélgica / Tunísia / Itália)
"Incêndios" (Denis Villeneuve, Canadá / França)
"Melancolia" (Lars Von Trier, Dinamarca / Suécia / França / Alemanha)
"Namorados para sempre" (Derek Cianfrance, EUA)
"A pele que habito" (Pedro Almodóvar, Espanha)
"O primeiro que disse" (Ferzan Ozpetek, Itália)
Abaixo, a lista das cinco produções brasileiras bacanas:
(Em ordem alfabética)
"Antes que o mundo acabe" (Ana Luiza Azevedo)
"Bróder" (Jefferson De)
"Olhos azuis" (José Joffily)
"O palhaço" (Selton Mello)
"Trabalhar cansa" (Marco Dutra e Juliana Rojas)
Na saída do Cinema da Fundação, ao final da sessão de "A Árvore da Vida" na Retrospectiva/Expectativa 2011/2012, ouvi de uma espectadora que descia a escada perto de mim: "Que filme uó!". Fiquei me perguntando se ela, antes de decidir assisti-lo, teria se informado sobre quem é o diretor Terrence Malick. Ás vezes, penso que, realmente, as pessoas entram no cinema sem ter a mínima ideia a respeito daquilo que vão ver.
Malick não é um diretor fácil. Seu cinema, quase sempre perturbador, nunca flerta com o cinema comercial produzido em Hollywood. Um exemplo disso é que passou 20 anos sem dirigir sequer um filme entre "Cinzas do Paraíso" (1978) e "Além da Linha Vermelha" (1998). Assitir a um filme seu como mero entretenimento é como ir a um supermercado esperando encontrar uma missa (ou, no caso, seria o contrário?).
O fato é que "A Árvore da Vida", na minha perspectiva, é uma interessantíssima abordagem metafísica, transcendental e até religiosa sobre algo tão corriqueiro e inquestionável (sob o ponto de vista social) como a família, ou melhor, as relações entre pais e filhos.
É claro que na montagem (se seguisse a lógica hollywoodiana) o diretor poderia ter suprimido as longas sequências (basicamente imagem e música) que identificam o gênese e a ascensão ao paraíso. Ele teria feito um trabalho belo e convencional, perfeitamente enquadrado no subgênero do drama familiar. Conseguiria, inclusive, indicações ao Oscar mais facilmente e, talvez assim, a moça que achou "uó" tivesse aderido ao seu filme.
Ocorre que o seu cinema é intelectualmente mais elaborado. Propositadamente, seus filmes são cheios de nuances, devem ser interpretados não pela superfície, mas pelas camadas internas, que são muitas. É uma opção estética de alguém que encontra-se deslocado na lógica industrial do campo do cinema. Não é à-toa que sempre foi considerado pelos executivos de Hollywood como um cineasta "maldito", fama reforçada pelos longos hiatos entre os seus trabalhos.
No filme, o diretor parte da figura bíblica da árvore da vida, uma das duas especiais que Deus colocou no centro do Jardim do Éden (a segunda é a árvore do conhecimento do bem e do mal). A referência básica sobre ela é a de que Adão e Eva foram impedidos de alcançar essa árvore por terem desobedecido ao mandamento divino, sendo expulsos do paraíso original.
Para garantir que o casal e seus descendentes não voltassem ao Jardim e comessem dos seus frutos, Deus colocou querubins, armados de espadas de fogo em constante ameaça aos intrusos. Assim como em qualquer outra passagem, sobretudo nas do Velho Testamento, a árvore da vida também seria um símbolo: o da garantia de vida eterna para aqueles admitidos por Deus no paraíso.
Certamente há uma analogia com os personagens do filme, mas a leitura sobre essa correspondência não é muito fácil. Afinal, o que existe de especial naquela prosaica família norte-americana de classe média para que Malick enveredasse por tal visão? E a relação extremamente conturbada do pai com os filhos, sobretudo com o mais velho? Não seria mais interessante apropriar-se de qualquer outra parábola bíblica com identificação temática para explicar ou aplicar a visão de mundo que o Ocidente tem sobre tais questões?
Não! Como eu disse, Malick parece não apreciar raciocínios circulares e entendimentos óbvios. Resta ao espectador embarcar na visão do cineasta, refletindo sobre ela, mas sobretudo deixando-se emocionar. É fato: há genuína emoção em sua narrativa. Eu penso que o seu trabalho de direção caminha no sentido de colocar essas duas proposições: metafísica/religiosa, por um lado; material/humana, por outro.
Escolha a que melhor lhe convém.
O "terror" da classe média, que bem pode ser traduzido por dinheiro curto, violência urbana e falta de perspectivas, chegou com tudo no cinema brasileiro. O filme independente "Trabalhar cansa" traz uma interessante abordagem sobre esse imenso grupo de pessoas.
Costumeira e ideologicamente, são uma classe sempre identificada como uma "maioria silenciosa", sobretudo quando, no passado, aludia-se às perversidades políticas perpetradas pelo regime autoritário apoiada por segmentos dela. Por outro lado, quando o assunto é a economia inflacionada, também aparecia como a vilã que andava consumindo e endividando-se demais, muito além de suas posses.
Pois é! A dupla de jovens diretores Marco Dutra e Juliana Rojas, voluntariamente ou não, construíram uma narrativa que, finalmente, vinga o homem médio brasileiro. Ao situar com profundo rigor a perplexidade dessas pessoas num país socialmente injusto como o Brasil, a narrativa proposta distancia-se do maniqueísmo e dos estereótipos que quase sempre marcam os filmes brasileiros que tentam abordar o assunto.
O casal protagonista, endividado e desempregado, resolve abrir um mercadinho de bairro em ponto já anteriormente utilizado para essa finalidade. Coisas estranhas com o antigo inquilino e comerciante aconteceram, de tal forma que o local carrega uma espécie de "maldição" que progressivamente é materializada em bizarras infiltrações de parede, bruscas correntes de ar e vultos fantasmagóricos.
Como se vê, é quase um filme de terror (às vezes me fez lembrar daquele filme norte-americano dirigido por Walter Salles, "Água Negra", só que mais criativo), mas eu penso que muito além de provocar sustos na plateia, é uma crônica sobre indivíduos desnorteados e com pouca perspectiva de futuro. No final, o casal soluciona os seus problemas da maneira como a classe média costuma resolver os seus: virando-se do jeito que dá.
Existe atualmente no cinema do Brasil uma corrente de filmes independentes (que não conta com o suporte de uma Globo Filmes ou de distribuidoras internacionais) lamentavelmente alijados do mercado exibidor. "Trabalhar Cansa" é um desses belos exemplos. No último dia 12 de dezembro, a respeitada Associação Paulista dos Críticos de Arte divulgou os seus premiados em cinema em sete categorias:
Filme: "Bróder", de Jefferson De; Documentário: "Corumbiara", de Wagner Carelli; Diretor: Selton Mello, por "O Palhaço"; Prêmio Especial do Júri: A Turma do Alumbramento, pelos filmes "Estrada para Ythaca" e "Os Monstros"; Roteiro: "Riscado", de Karine Telles e Gustavo Pizzi; Ator: Fernando Bezerra, por "O Transeunte"; Atriz: Simone Spoladore, pelos filmes "Elvis e Madonna", "Natimorto" e "Não se pode viver sem Amor".
A pergunta que não quer calar é: quantos desses filmes tiveram exibição comercial de pelo menos uma semana no Recife?
Acho que somente "O Palhaço", "Bróder", "Corumbiara" e "Elvis e Madonna". Convenhamos, é muito pouco...
Eu penso que o senso comum é bastante equivocado sobre o cinema de Almodóvar: falo da ideia de que seus filmes são "transgressores" por conta da temática da moral sexual. Acredito que até seja possível interpretar a sua obra dessa forma apenas quando se observa os seus primeiros filmes dos anos 1980.
No entanto, a partir de "Mulheres à beira de um ataque de nervos" (1988), percebo uma outra lógica no cinema almodovariano. Depois do sucesso, ele passou a fazer filmes mais sintonizados com o cinema de mercado e trazer a "transgressão" sexual para um patamar mais palatável, condizente com o contexto sócio-cultural em que vive.
Claro que não há nada de errado nisso. Ele pensou a carreira a longo prazo. Depois da revelação na década de 1980, ele se firmou como um dos grandes cineastas do seu tempo. Isso quer dizer que toda aquela sexualidade nos filmes, parece-me, está em plena sintonia com a moral sexual mais elástica do século XXI.
Isso posto, não quero dizer também que o conteúdo abordado nos filmes não seja fortemente carregado de certo "moralismo". Afinal, é um homem com uma determinada formação intelectual; é latino, espanhol, homossexual um tanto flamboyant etc, características pessoais que fazem sentido quando se pensa na sua obra.
Mas, é isso mesmo! Almodóvar, grande diretor, é meio como Nelson Rodrigues, grande escritor: um imenso moralista!
No caso do espanhol, a visão de mundo judaico-cristã (católica, para ser mais específico) transparece, quase sempre, nos destinos que costuma dar aos personagens e às histórias. Não raramente, os malfeitores sexuais são punidos, ainda que façam parte das minorias sociais.
"A Pele que Habito" é um desses grandes filmes que me fazem sair do cinema arrebatado, em estado alterado de percepção. Para voltar a minha realidade levou um tempo que se estendeu, inclusive, no deslocamento até a minha casa. Costumo refletir muito sobre o que ele me apresenta.
Acho curioso que muita gente ainda se choque moralmente com a visão do cineasta. Claro que a abordagem dos temas (no caso de "A Pele que Habito": estupro, troca de sexo, obsessão sexual) é ousada, mas não tanto a ponto de não perceber que tudo o que está por trás dessas questões é o profundo desejo do indivíduo em alcançar a felicidade). Não há nada mais convencional do que isso. O que talvez explique a indignação de muitos com os seus filmes é que a moralidade (e o moralismo) de Almodóvar não é bisonha, piegas e careta.
Embora certos elementos permaneçam presentes, percebo o cinema de Almodóvar em constante maturação: a fotografia, a direção de arte, os figurinos são, desta vez, mais sofisticados e minimalistas. Quer dizer, até onde Almodóvar pode ser minimalista...
No entanto, paro por aqui, porque em seus filmes existe sempre aquele elemento surpresa, a revelação bombástica que modifica os rumos da história e não quero estragar o prazer de quem o aprecia e ainda não viu o filme.
Não é para todo mundo, mas é imperdível!
Tradicionalmente, existe pouco espaço na cinematografia brasileira para o drama psicológico. Poucos foram os cineastas que ousaram explorar esse subgênero. Os mais bem-sucedidos são o argentino Carlos Hugo Christensen e Walter Hugo Koury, que construíram sólidas carreiras com algumas boas incursões na área.
O recente "Meu País", de André Ristum, vem para ocupar um vazio ainda não devidamente preenchido no panorama atual do cinema nacional.
Impecável no papel, Rodrigo Santoro é Marcos, jovem empresário brasileiro radicado na Itália que retorna ao Brasil para as exéquias do pai (Paulo José) e reencontrar o irmão (Cauã Reymond).
Emocional e psicologicamente distante dos familiares, o rapaz tenta não se envolver com os problemas decorrentes do falecimento, sobretudo os que dizem respeito ao irmão mais novo. Pretende deixar toda a herança para esse e, assim, considera-se livre para retornar ao país que adotou e de onde é a sua esposa, com quem veio ao Brasil.
Acontece que a meia-irmã filha de uma amante do pai (Débora Falabela, extraordinária como sempre), da qual não tinha notícias há muito tempo, vem no pacote fúnebre. Trata-se de uma garota portadora de necessidades especiais, mas que não necessita de internamento na clínica em que se encontrava. Com um irmão viciado em jogo, inconsequente e pródigo, resta a Marcos tomar as rédeas da situação.
O filme centra-se na abordagem do retorno do personagem de Santoro às origens familiares, à afetividade da qual havia se desvinculado e ao senso de pertencimento ao clã. Todas as crenças construídas a partir do afastamento do seu país (na verdade, de suas raízes) são postas em cheque: permanecer no porto seguro da vida de empresário bem sucedido e bem casado na Itália ou retornar às origens e tomar para si a responsabilidade de primogênito?
A sua opção não resolve definitivamente o conflito, mas dá-lhe um alento.
Existe um mérito inegável no filme. O percurso psicológico de Marcos entre a Itália e o Brasil e o conflito ético-moral no qual se vê colocado são estruturados a partir de situações críveis e diálogos precisos, econômicos e elegantes, além da câmera que bem dimensiona o estado da alma angustiado e emocional. No entanto, há um equilíbro que nunca resvala para o gratuito e o piegas.
É, ao mesmo tempo, reflexivo e comovente.
É provável que os críticos tenham odiado o mais recente filme de Claude Lelouch lançado no Brasil, "Esses Amores". Por outro lado, imagino que um público restrito tenha apreciado (sobretudo, aquele mais velho e desprovido de preconceitos estéticos e que ainda assiste ao cinema francês). Há sempre essa distinção quando se trata do veterano cineasta, autor do clássico "Um homem e uma mulher" (1966) e "Retratos da Vida" (1981).
A razão é muito simples: crítico mordaz da nouvelle vague, Lelouch sempre insistiu que o cinema é espetáculo e deve, primordialmente, ser agradável ao espectador. Coerente, exercita nos seus filmes essa regra básica do mercado. Grande parte dos seus trabalhos são espetáculos nos quais a direção elegante e o apuro visual de sua concepção (que, muitas vezes, escondem certa superficialidade nos temas que aborda), especialmente nas últimas três décadas, remetem ao mais tradicional cinema narrativo, cuja trajetória foi pavimentada e consagrada pelo cinema de Hollywood.
Com isso, o cinema de Lelouch é antigo (porque recorre a uma formulação primordial), mas, curiosamente, atual (porque atende às expectativas de certas camadas do universo dos espectadores). Ele não tem vergonha disso, ao ousar não apenas demonstrar nos filmes que dirige como também nas entrevistas que concede à imprensa nas quais, invariavelmente, “detona” o viés mais culturalmente legitimado do cinema francês.
Sobre o filme em tela reafirma-se essa perseverança. "Esses Amores" é quase uma cópia de "Retratos da Vida". Está lá a música grandiloquente e emocional como trilha sonora, além do enredo que relaciona histórias de amor ao holocausto. Mais visto do que isso, impossível.
Porém, há algumas diferenças a serem consideradas. A primeira delas diz respeito ao fato de que, além de um espetáculo, “Esses Amores” é um auto-elogio do diretor, e não apenas porque o filme pode ser facilmente identificado com a sua trajetória no cinema. Há uma sequência literal ao final e ao estilo de “Cinema Paradiso”, na qual Lelouch insere trechos de todos os seus filmes, a pretexto de um personagem que aparece numa ponta, possivelmente seu alter ego. Maior citação de si mesmo, alguém está ainda por fazer. E se os críticos não fazem, não é ele que vai desperdiçar a oportunidade.
Em segundo, como negar que isso “pega” na emoção do espectador? Na saída do cinema, três senhoras comentavam entre si o quão “maravilhoso” é o filme. Salvo engano de minha parte, muitos cineastas (normais) almejam isso, ainda que secretamente.
Escondido por trás do nariz do palhaço Pangaré, Benjamin é um artista/empresário de circo em crise de identidade. Na sua angústia, ele confirma, involuntariamente, a ideia que o senso comum faz do comediante: um homem capaz das mais engraçadas brincadeiras no palco, alegria de crianças e adultos e a razão de ser da arte circense, mas um homem triste e, por vezes, desnorteado em sua vida privada.
No filme "O Palhaço", o diretor e intérprete Selton Mello consegue dimensionar como poucos esse conflito existencial que sempre ronda o ator e as suas máscaras, por meio da metáfora banal da falta do documento de identidade que Benjamin/Pangaré necessita ter em mãos para poder viabilizar a sua vida profissional, a existência do circo e o trabalho dos muitos companheiros que com ele rodam as cidades interioranas Brasil afora.
É verdade, a metáfora é redundante, mas, talvez, por isso mesmo, profundamente eloquente. Aliás, como são as gracinhas ingênuas e comoventes que os palhaços fazem cotidianamente nos seus inúmeros espetáculos.
Com diálogos e situações no roteiro que passam ao largo do naturalismo cinematográfico ("O Palhaço" lembra, por um outro viés e abordagem, a estranheza de "O Cheiro do Ralo", de Heitor Dhalia), Selton costura uma dramaturgia que homenageia tais artistas, humanizando-os e colocando-os em um patamar de resistência (palavra desgastada, mas necessária) de uma arte já anunciada várias vezes como moribunda. O filme aposta integralmente que essa está vivíssima, apesar das dificuldades.
Contribui para esse efeito o deslumbrante trabalho de fotografia de Adrian Teijido, que ilumina com cores quentes a atuação dos palhaços, ao tempo que permite à câmera suave explorar delicados planos que enobrecem a arte do circo. Nesse sentido, a direção de arte e os figurinos formam com a direção de fotografia uma tríade de tirar o chapéu.
Não menos importante é a atuação dos atores. O que dizer da química entre Selton e Paulo José? Emocionante. Como definir as aparições meteóricas de Fabiana Karla, Moacir Franco e Jorge Loredo? Especialíssimas. E os coadjuvantes Teuda Bara, Thogun e os outros? Corretíssimos, para falar o mínimo.
Tudo isso e mais um monte de outras coisas concorrem para fazer do segundo filme dirigido por Selton Mello um espetáculo imperdível.
"Malu de Bicicleta" é um interessante filme brasileiro que se situa no nicho de filmes palatáveis do mercado, mas que acrescenta alguma vida inteligente à trama.
Narra a crônica de uma relação amorosa a partir da conversão de um machão pegador e insensível, o paulista Luís Mário (Marcelo Serrado), que sucumbe aos encantos da carioquinha Malu (Fernanda de Freitas), uma garota diferente de todas as outras com quem ele costumava relacionar-se, na melhor das hipóteses, apenas sexualmente.
Redimido pelo "amor verdadeiro", o ex-garanhão, de tão apaixonado, passa a agir tal e qual um Bentinho ou um Othello, obcecado pela ideia de que está sendo traído. Afinal, a carioca, embora morando em São Paulo com o namorado empresário, faz frequentemente viagens misteriosas ao Rio de Janeiro.
Na verdade, não há propriamente originalidade nesse roteiro. O diferencial do filme dirigido por Flávio Tambellini, experiente produtor de filmes brasileiros transformado em diretor, está no nível de como todas essas experiências pelas quais passa o protagonista são registradas pela câmera, às vezes em monólogos e narrações em off, outras vezes em DRs em que finas doses de humor, auto-ironia e certo sarcasmo são a tônica.
Por isso, longe de ser um filme reflexivo, que discute profundamente a natureza humana, "Malu de Bicicleta" situa-se no nível intermediário no qual nega a piada fácil e a previsibilidade de muitas comédias nacionais com foco nas relações interpessoais urbanas. Pelo contrário, Tambellini aposta na inteligência da plateia.
Diverte ao mesmo tempo que faz pensar.
Ao assistir a nova versão para o cinema de "Capitães da Areia", de Jorge Amado, realizada por sua neta Cecília, fiquei curioso em conhecer a primeira adaptação da obra, feita pelo cineasta norte-americano Hall Bartlett no início da década de 1970. Fui no youtube e conferi. É estranho. Afinal, esse filme é falado em inglês e uma das coisas que mais me chama a atenção na versão brasileira é o forte sotaque baiano dos atores que fazem os adolescentes protagonistas.
Primeiramente, quero dizer que gostei do filme de Cecília Amado, embora não tenha muita convicção sobre se a atuação dos garotos, provavelmente amadores, é, de fato convincente. Explico melhor: parece-me que faltou um trabalho de preparação de casting mais bem estruturado. A impressão que se tem é que a entonação da voz de todos eles dá uma ideia de, no mínimo, uma interpretação não naturalista.
Não me refiro especialmente ao sotaque baiano, que tem seu charme (todos sabem disso) e é obviamente necessário, mas de uma certa escolha estética na qual a interpretação é muito carregada, quase trágica e operística. A pergunta é: isso é proposital ou acidental? Confesso que não cheguei a uma conclusão.
De qualquer maneira, é muito estranho que somente agora um cineasta brasileiro (ainda assim, parente do escritor) tenha se interessado em adaptar o mais popular romance de Amado. É possível até que o fato de ser neta do autor seja o ingrediente necessário para livrar o filme das tintas exageradas do exótico e do turístico que, invariavelmente, acomete os dramas passados no Nordeste e, sobretudo, na Bahia.
Nesse sentido, o filme é de uma comovente sobriedade, ainda que a trilha musical a cargo de Carlinhos Brown, embora de qualidade, tenha sido exageradamente utilizada para sublinhar sequências que teriam mais efeito dramático se houvesse menos música de fundo.
É para conferir.
Na corrente de filmes sobre a espiritualidade que marca a produção cinematográfica brasileira dos últimos três anos, cabe a "O filme dos espíritos" a tarefa mais espinhosa de servir como a versão fílmica da doutrina sistematizada por Allan Kardec na França da segunda metade do século XIX.
Primeiramente, é preciso dizer (e isso o filme não explica) que, apesar de ser o "doutrinador", Kardec (na verdade, Hippolyte Léon Denizard Rivail) não era um iniciado, e sim um renomado educador/pensador que propôs mudanças significativas no sistema de ensino na França do seu tempo. A sua curiosidade de pesquisador é que o moveu para a observação do fenômeno das mesas girantes, um evento que chamava a atenção da Paris dessa época.
A partir de tal fato histórico, pode-se adentrar naquilo que o filme objetiva: tornar popular uma filosofia ainda mal vista pela maioria da população que não a pratica, aceita quase somente por quem de alguma maneira já foi iniciado nela, pois ainda confunde-se espiritismo com outras crenças religiosas assemelhadas.
Acontece que, com esse intuito, o filme se torna esquemático demais. Imagino que que por ser patrocinado por instituições espíritas, interessadas na veiculação séria de sua doutrina, tal esquematismo é até bem vindo por estar dirigindo-se a uma ampla e diversificada plateia leiga.
No entanto, sob a perspectiva cinematográfica, o filme desliza por conta de um roteiro que se perde em mostrar muitas histórias paralelas pretensamente elucidativas da doutrina. O resultado é que se há razoável acerto em relação à trama principal (o homem autodestruído pela morte precoce de sua mulher vitimada pelo câncer), existe pouca ou quase nenhuma substância, por exemplo, nas figuras do dono e do maquiador da funerária que não são sequer razoavelmente construídos, chegando mesmo a ser risíveis.
Mas, surpreendeu-me o fato de que a maioria do elenco de nomes deconhecidos desincumbe-se bem na atuação, além dos veteranos Nelson Xavier e Ana Rosa, presentes em outros filmes da corrente espiritualista, e uma quase irreconhecível Luciana Gimenez em um papel menor.
Percebe-se na produção certa precariedade de recursos, mas mais uma vez ressalvo que, como filme doutrinário, isso parece ser um tanto irrelevante. De qualquer forma, penso que a doutrina espírita está a merecer uma melhor versão cinematográfica para além do simples interesse de divulgação. Afinal, sabe-se que essa religião é, no Brasil, aceita e praticada por alguns milhões de pessoas.
|
||
![]() | ||
|
|
||
![]() | ||
![]() | ||
|
||