EM BUSCA DO MUSICAL PERDIDO

O musical é um gênero de filme praticamente extinto na realidade do atual cinema dos EUA, embora tenha sido nos anos 1940 e 1950 a principal referência cultural disseminada mundo afora por Hollywood, influenciando ou sendo copiado pelos cinemas de outros países.

Acontece que cinema é uma forma de expressão comunicacional muito cara. Qualquer drama intimista, com poucos cenários e poucos atores, consome muito dinheiro e um punhado de gente envolvida no projeto. Imagina o musical! Parece que na última década houve um esforço para que este retornasse, ao menos como produção relativamente habitual. Estão aí, além de "Chicago" e "Nine", filmes como "Dreamgirls" e "Mamma Mia". 

Não fosse a existência da Broadway, talvez o musical tivesse sido banido por completo. São os espetáculos de origem teatral que têm - como já foram no passado - mantido  o musical cinematográfico ainda na ativa. E Rob Marshall, ex-coreógrafo tornado diretor, é o principal responsável por manter essa chama acesa. Depois de "Chicago", ele reaparece com "Nine", originariamente um musical da Broadway, vamos dizer assim, inspirado no clássico italiano "Oito e Meio".

Digo isso porque basicamente a referência ao filme de Fellini se concentra nos personagens femininos que orbitam em torno do idiossincrático cineasta Guido Contini (interpretado competentemente por Daniel Day-Lewis), quase um estereótipo do uomo italiano. Todo mundo sabe que Fellini não estava, sobretudo nesse filme, exatamente interessado em narrativa. Muito pelo contrário, seus filmes se parecem, muitas vezes, a mosaicos, tal a diversidade de personagens e situações que são jogadas, sem preocupação em "contar uma história".

É exatamente aí que nasce a grande fragilidade do filme de Marshall. Ao insistir em Fellini, "Nine" - o filme, pelo menos, pois não conheço a montagem teatral - se divide em explicitar sua origem e se impor como um musical tradicional, ou seja, com diálogos e canções que se intercalam, mas um complementando o outro. Ora! Uma das razões - além da financeira - que fez naufragar o gênero foi o crescente desinteresse do público com o texto adocicado dos musicais e, mais ainda, com a pouca verossimilhança de personagens que conversam e cantam! Falo de uma realidade dos anos 1960, ok?

Mas, esse estranhamento do público permaneceu, lamentavelmente. O que resta fazer? Tornar as canções quase que à parte dos diálogos, descolando-as suavemente destes, mas não bruscamente para não quebrar a essência do gênero - diálogos e canções que são extensões uns dos outros. Com isso, atende-se a dois requisitos: o da referência à "narrativa" felliniana e ao intuito de "modernizar" a narrativa musical. Nada de cores. Somente luzes noturnas que identifiquem a apresentação das canções como números musicais.

O resultado é que o filme vai se arrastando, afogado nessas duas grandes responsabilidades, o que o torna pesado demais; e nesse sentido não houve edição que conseguisse dissipar tal impressão, restando ao espectador apenas apreciar a entrada em cena de cada uma das divas que Marshall e seus produtores - inteligentemente, pensando na bilheteria - contrataram para representar papéis coadjuvantes.

Um incrível elenco feminino carregado de Oscars no currículo torna o filme mais interessante (Marion Cotillard, Nicole Kidman, Penélope Cruz, Judi Dench e Sophia Loren, além de Day-Lewis), contando ainda com Kate Hudson e a cantora-atriz Fergie. Todas estão impecáveis. Certamente não foi por culpa do elenco que o filme não deu certo.

COCO ANTES DE CHANEL

Numa temporada em que três filmes sobre Coco Chanel foram produzidos (um dos quais com a veterana Shirley MacLaine), o destaque foi para o francês "Coco Antes de Chanel", que narra um aspecto da vida da estilista francesa pouco conhecido. Todos sabem sobre a lenda e a marca, mas o que teria acontecido antes disso se tornar uma realidade da moda do século XX?

A diretora Anne Fontaine foi buscar na juventude da personagem - senão a explicação - pelo menos o contexto no qual surgiu aquilo que é classicamente conhecido hoje como sinônimo de sóbria elegância num mundo quase sempre carregado de excessos. Era assim  o vestuário feminino no final do século XIX e início do XX e contra isso instintivamente lutou a estilista, que nem era do ramo, apenas se vestia diferente, costurando suas próprias roupas. 

Até se mudar para seguir carreira em Paris, a moça teve que passar por uma desagradável função de cantora de cabaré e aturar - numa relação que misturava sexo com uma espécie de amor paternal - um homem de negócios muito mais velho que ela, com direito a uma puladinha de cerca com um dos amigos do amante, que lhe deu de presente uma acachapante desilusão amorosa. Pronto. Estava pavimentada a estrada para a mudança de rumos e a consagração pessoal e profissional.

Tudo muito bem. O problema é que somente isso leva cerca de uma hora e 45 minutos para ser contado, o que torna o filme um tantinho arrastado para os padrões do cinema comercial. Talvez um filme com 90 minutos fosse suficiente. Em todo o caso louve-se a iniciativa, sobretudo porque Chanel é interpretada por essa atriz sempre tão competente que é Audrey Tatou, compondo o personagem de forma discreta, quase minimalista em suas expressões.

Bela cena final ao mostrar em um jogo de espelhos o desfile de estreia de sua coleção.

RESSACA DO GRAMMY

E o Grammy?

Beyoncé venceu seis dos dez prêmios a que concorria. Pra ser sincero, não gosto do seu último CD. Umas músicas enjoativas embaladas por muito marketing de gravadora. É minha opinião e sei que faço parte de uma minoria. Gostava mais quando ela era apenas a parte principal das Destiny's Child.

Bom ver (ou melhor, saber, porque a maioria dos prêmios é entregue numa cerimônia pré-show não televisionada) o som de Jason Mraz sendo premiado como performance vocal pop masculina e colaboração pop (este pelo dueto com Colbie Caillat) pela bela canção "Lucky".

O que gostei mesmo de ver foi a apresentação do Black Eyed Peas, que ganhou três prêmios dos seis a que concorria, mas que, na minha opinião, deveria ter vencido também como álbum do ano e gravação do ano. Preferiram premiar a chatinha da Taylor Swift como melhor álbum. "I gotta feelin' that tonight's gonna be a good night..."

FALTOU MALDADE

O cinema é uma indústria que pode ser implacável - e parece que quase sempre é - com a maioria dos seus profissionais. Ao contrário do que se imagina, apenas uma ínfima parte do universo de atores, diretores, roteiristas e técnicos terão o sucesso e a celebridade que os tornarão lendas a serem lembradas no futuro - distante ou próximo - e até no presente. Em sua esmagadora maioria, são e serão apenas profissionais do ramo.

Quando um diretor faz um filme memorável como "Ligações Perigosas" (1988), aumenta-se a pressão sobre ele para que realize outras obras no mesmo nível. É o caso de Stephen Frears, que por sinal cumpriu bem a tarefa dirigindo outros filmes importantes e populares, como "Os Imorais" (1990), "Coisas belas e sujas" (2002)  e "A Rainha" (2006). Os dois primeiros grandes trabalhos; o terceiro apenas um filme correto. Antes de "LP", já se revelara com "Minha adorável Lavanderia" (1986).

Acontece que, sob o ponto de vista da indústria, Frears será sempre primeiramente lembrado pelos trabalhos que obtiveram melhor repercussão nas bilheterias. E aí ele será o homem de "Ligações Perigosas" e "A Rainha". Com um destaque maior para o primeiro porque, além de tudo, já é considerado um clássico.

Seu filme mais recente, "Chéri", que nada mais é do que uma tentativa frustrada de realizar um novo "LP": filme de época, passado numa França glamurosa, muito figurino e direção de arte, a partir de um roteiro baseado em romance da escritora francesa Colette, escrito pelo roteirista de "LP", Christopher Hampton,  e estrelado por uma das estrelas do mesmo filme, Michelle Pfeiffer. Tantos ingredientes similares.

Em meio às perucas e maquiagens, o senso de humor algo cínico e ácido de Frears tenta sobreviver. Como no seu filme mais famoso, não faltam diálogos espirituosos e muito leva-e-traz entre os personagens, numa trama que retrata o mundo algo romanceado e fantasioso das cortesãs parisienses ao tempo da belle époque. Percebe a pressão? Tá na cara que queriam um novo "LP".

Nesses casos, o que sobra de bom desses filmes, que tentam mimetizar algo que já passou numa tentativa de revivê-lo, é a competência dos atores, sobretudo dos coadjuvantes como Kathy Bates, que torna qualquer fala algo minimamente engraçado. Pfeiffer, uma mulher madura e linda, não faz feio. O problema é que o romance dela com o filho de sua colega de profissão não engata, ficando tudo assim meio morno e sem graça, não sei bem por culpa de quem. Talvez tenha faltado aquela "química" entre todas as energias postas no caldeirão.

Pensando bem, eu sei o que faltou nessa panela: uma pitadinha de nada daquela maldade que envolve as relações entre os indivíduos no jogo quase sempre amargo da troca de interesses.

O ESTILO BETO BRANT

Desde "Os Matadores" (1997) já enxergava no trabalho de Beto Brant uma grande revelação em termos daquilo que mais valorizo em cinema: filmes de personagens contundentes, corajosos, tensos. Não exatamente a tensão tradicional do filme de ação, mas a tensão de estar vivo e em busca de alguma coisa. É o que sempre acontece com os personagens dos filmes desse cineasta. Senão, vejamos "Ação entre amigos" (1998) e "O Invasor" (2002), ambos em colaboração com o roteirista Marçal Aquino.

Em "Crime Delicado", penso que Beto Brant inicia fazendo um movimento de introspecção de seus personagens, transformando o foco da violência latente e às vezes explícita de seus trabalhos anteriores, ao reposicioná-la (a violência) a um nível bem mais subjetivo: o conflito interno. No caso, o do jornalista e crítico de teatro vivido por Marco Ricca, um sujeito tão racional quanto possível, condição que, parece, é exigida para exercer seu ofício, mas que seu mundo fechado sucumbe à paixão por uma mulher mais jovem que encontra em um dos bares nos quais frequentemente se encontra solitário.

O filme mostra muito claramente que o trabalho do crítico, seja do que for, é quase sempre antipatizado porque suas opiniões são recorrentemente contrárias ao que a maioria pensa. E a razão é simples: ele reflete sobre o que assiste, enquanto os outros apenas se divertem ou se entediam. São diferentes níveis de exigência e experiência. E, provavelmente, o que o torna ainda mais "monstruoso" é o fato de que sua opinião pode determinar reações impresíveis por quem é alvo de suas críticas - se o crítico é jornalista de um veículo influente.

Estou me detendo no personagem do Ricca porque me parece ser essa a grande questão que se coloca. Quando se apaixona pela moça que encontra no bar, todos os seus parâmetros estéticos de julgamento crítico são postos à prova pelo singelo fato de que o objeto de sua paixão - uma mulher mutilada de uma das pernas - é o modelo permanente de um pintor mexicano que a retrata sempre em relações sexuais com o artista.

Tal situação se torna insuportável para o crítico. E, então, toda a sua racionalidade vai para o espaço dando lugar ao vulcão emocional da paixão que priva o indivíduo de sua razão e consequentemente dos limites a que deve respeitar. Em seu mundinho desmoronado, nada mais resta senão a persona do macho que deve resgatá-la das mãos do tal artista e forçá-la a aceitá-lo como amante. Ela se revolta e vira caso de justiça.

Então, quando menos se espera, emerge o estilo Beto Brant - penso que ele é um dos poucos a que se pode atribuir tal característica - quando a violência é explicitada pela ação. Em certo sentido, é uma reviravolta em um filme que parecia ser tão mais light e contemplativo.  O tal estilo a que me refiro diz respeito à maneira como em todas as suas histórias os personagens são tão carentes de quietude e tranquilidade, mesmo quando aparentemente são racionais.

Alguém dirá que ele faz um cinema pós-moderno. Eu nem gosto muito desse conceito, mas devo admitir que o cinema de Brant caminha em busca de algo que, pelo menos, é contemporâneo no sentido da perda de referências. "Os Matadores" é totalmente passado no campo, interiorzão do Brasil, fronteiras etc e se presta justamente à ideia de um cinema de personagens quase sem identidade e movidos por forte desejo. Não sei se isso é pós-moderno, mas é extremamente contemporâneo como narrativa cinematográfica.

CINCO FRAÇÕES DE UMA QUASE HISTÓRIA

Nada como alguns dias de férias para tirar o atraso e ver filmes que não assisti no cinema ou que não passaram nem passarão.

"Cinco Frações de uma Quase História" é uma produção vinda de Belo Horizonte, e somente isso já é motivo de curiosidade, uma vez que a maioria dos filmes nacionais se concentram no eixo Rio-SP. Poderia dizer que é um filme de episódios (cinco, como se pode notar pelo título), mas acredito que os seis diretores (um dos episódios é dirigido por uma dupla) desejaram realizar um filme baseado em um conceito. No making off dos extras, um dos diretores afirma que o que une todos os episódios é a satisfação de um desejo.

Não sei. Talvez. A mim me pareceu que eles quiseram fazer uma coisa assim meio emulando o estilo do Alejandro González Iñárritu, dos muito bons "Amores Brutos" e "21 Gramas" (tenho lá minhas sérias restrições ao celebrado "Babel"). Cada um dos personagens principais de um dos episódios aparece transitando como uma ponta no outro episódio. Achei a ideia interessante (afinal, não há nada problemático em tentar seguir formulações vitoriosas), mas a execução do estilo Iñárritu, nesse sentido, me pareceu um tanto precária e empobrecida.

Falta, sobretudo, unidade dramática entre as histórias: dois episódios têm um tom muito acentuado de comédia de humor negro ("ZYR 145", de Guilherme Fiúza, e "Título Provisório" de Cristiano Abud), outro é drama extremamente realista ("O magarefe", de Lucas Gontijo e Thales Bahia), um quarto namora com certo realismo fantastico ("A liberdade de Akin, de Armando Mendz"), enquanto há entre os cinco praticamente um filme experimental quase sem traços de qualquer narrativa ("Qualquer vôo", de Cris Azzi).

Tanta diversidade de gêneros e abordagens narrativas díspares não podem simplesmente se tornarem unas apenas por um prólogo que faz a apresentação dos cinco personagens de cada uma das histórias e menos ainda pela introdução de cada um deles no episódio do outro. É muito pouco. Tudo isso torna o filme difícil de ser analisado como obra de longa-metragem.

Era muito comum nos anos 1960, sobretudo no cinema italiano, e nos anos 1970, no cinema brasileiro, o filme de episódios. E era apenas isso, filme de episódios distintos mas com abordagens semelhantes, o que configurava os "curtas" em um real "longa". Seria preferível mais coerência estética, penso eu.

É claro que essa crítica não inviabiliza o filme como obra a ser vista. Acredito que há um esforço louvável de retirar o foco do cinema nacional do grande eixo para as capitais de importância regional: Porto Alegre, Recife, Fortaleza, Belo Horizonte etc. Isso é muito bom.

Louve-se o fato de que filmado em cinco semanas, "Cinco frações de uma quase história" reúne um elenco afinado (Leonardo Medeiros, Cláudio Jaborandy, Murilo Grossi, Cinthia Falabela, entre bons atores mineiros), certamente um belo trabalho de preparação de atores (pelo que vi nos extras realizado pelo ator e diretor Gero Camilo), assim como uma boa produção: fotografia, trilha musical, direção de arte. Apenas a montagem deixa a desejar por conta da extrema distinção entre os episódios. 

"O magarefe" lembra muito um dos episódios de "Quase Nada", de Sérgio Rezende, e também um curta pernambucano dirigido por Eric Laurence, "Entre Paredes". Para mim, penso que talvez tivesse sido melhor que fossem cinco curtas em separado, mas entendo a necessidade e a ansiedade que jovens diretores têm para fazer o primeiro longa-metragem, que apresenta muito melhores possibilidades de visibilidade.

É provável que "Cinco frações de uma quase história" seja um desses filmes que, por inteiro, se gosta ou não. Ainda assim, para aqueles que eventualmente não apreciarem o filme, resta sair pela tangente e escolher aquele episódio que mais o agradou. No meu caso, "ZYR 145".

QUANDO O DIVÃ É MAIS INTERESSANTE QUE A VIDA COTIDIANA

Estou tirando esse período de recesso para assistir em DVD alguns dos filmes, sobretudo nacionais, que foram exibidos nos cinemas da cidade no ano passado e não tive a oportunidade de assisti-los. Dias desses andei vendo até mesmo a um doa que ficaram bastante tempo em cartaz: "Divã", de José Alvarenga, com a sempre extraordinária Lília Cabral à frente do elenco, no papel de uma mulher casada em crise de meia-idade, que vai ao analista questionar a sua vida já sem muita graça.

Ao que parece foi um grande sucesso nacional de público e certamente o filme reúne os elementos para isso: é uma produção de bom nível técnico; é comédia dramática (gênero de aposta da Globo Filmes, empresa que distribui o filme); tem um roteiro adequado às necessidades do público etc. É um filme bastante razoável. E não apenas pelas razões que descrevi agora há pouco. Penso que o grande valor está centrado naquilo que foi o texto que deu origem ao roteiro - uma peça de teatro - e, claro, pela versatilíssima atuação de Lília.

Digo isso porque o melhor do filme são as questões bem subjetivas do personagem, externalizadas em sua fala frente ao analista - que nunca diz nada nem aparece de frente - e também pela narração em off que deve ter sido um achado da adaptação da peça para o cinema com o objetivo de retirar o filme do confinamneto das quatro paredes do consultório do analista e assim dar mais mobilidade e ritmo à narrativa. Isso sempre é necessário para evitar o fantasma do "teatro filmado".

Tudo bem. Só que tal procedimento faz com que o filme apresente dois níveis de narrativa que destoam no grau de comédia dramática a que ele se propõe a ser. O nível da fala do personagem - e aqui estou excluindo os diálogos - é bem mais interessante porque traz à tona exatamente todos os questionamentos que lhe são próprios relativos a casamento, beleza, envelhecimento, amizade. O discurso, embora irônico, ou até por isso mesmo, é um tanto agridoce. Isso dá qualidade ao texto.

Acontece que para tornar o filme mais comercial, as sequências de desdobramento - a interação do personagem com família e amigos - caem sempre no lugar comum da comédia de costumes: encontros e desencontros, frases feitas e um humor já visto.

O problema, quero dizer, é que o cinema que força a barra para ser comercial e agradar ao público médio quase sempre esvazia aquilo que é muito reflexivo, ou seja, aquele texto primeiro da fala do personagem de Lília. Fala-se algo importante para logo em seguida mostrar uma tolice que se pretende engraçada. É esse um dilema, mas é um dilema meu. O público, em sua maioria, adora a "rasa profundidade" ou a despretensão intelectual com pitadas de seriedade.

Mas, eis que existe uma Lília Cabral dominando o filme de ponta a ponta, apenas sobrando um espaçozinho para a coadjuvante Alexandra Richter (que faz a sua melhor amiga) brilhar um pouco. As duas, quando juntas, sem dúvida, elevam o nível dos diálogos, algumas vezes manjadíssimos em termos de comédia.

Não há dúvida mais. O cinema brasileiro parece que finalmente está encontrando um diálogo com o público médio de cinema. E isso, em termos de indústria cinematográfica, é muito bom. Resta apenas rezar para que o santo protetor dos cineastas os abençoe, finalmente, com a necessidade da diversidade na produção de cinema. Diversidade de gêneros, de conteúdos e de abordagens. 

A VERSÁTIL MARIA DE MEDEIROS

A atriz portuguesa Maria de Medeiros, que parece ser uma pessoa muito simpática, é o nome, entre os atores portugueses, mais conhecidos no exterior. Penso que ela e Joaquim de Almeida. Mas acho que ela é ainda mais transnacional, pois faz filmes na França, EUA, Espanha, Itália e Brasil. Com o próprio Joaquim fizeram o filme de Paulo Thiago, baseado na obra de Jô Soares e dirigido por Miguel Faria Júnior, "O Xangô de Baker Street",  produção até bem interessante, onde fazia nada menos que a diva francesa Sarah Bernhardt em visita ao Brasil.

Outro dia assisiti em DVD a um outro filme que fez por aqui, "O Contador de Histórias", dirigido por Luiz Villaça, no qual interpreta uma pedagoga francesa em estudos pelo Brasil. Numa visita à FEBEM encontra um garoto de seis anos pelo qual começa a nutrir um sentimento de maternidade meio misturado com seu espírito de pesquisadora. Entre idas e vindas, boa vontade dela em acolher o garoto e golpes aplicados por este. Afinal, era um aprendiz de bandido, eis que nasce entre os dois uma relação afetuosa de mãe e filho.

A história pode parecer meio fantasiosa, mas, ao que parece, aconteceu de fato, com um cara chamado Roberto Carlos e uma francesa de nome Margherit. O resumo da ópera é que a tal senhora leva o garoto, agora já adolescente, para viver com ela na França, alterando a rota prevista de crime e marginalidade para a qual apontava o seu destino. Lá, o rapaz estudou e fez pós-graduação.

Atualmente, Roberto Carlos sobrevive como"contador de histórias". Não sei exatamente se isso é uma profissão ou um trabalho de voluntariado junto a carentes, mas, enfim, está servindo muito bem a ele. Lembro até de anos atrás assistir a uma entrevista dele no "Sem Censura", da TV Educativa, explicando como tudo aconteceu.

O filme é bem corretinho. Conta essa tal trajetória altamente improvável, situando o ocorrido como um desses pequenos grandes milagres que o acaso, ou Deus, ou o que quer que seja, é capaz de fazer em algumas vidas que perambulam por esse insensato mundo.  Não possui assim grandes momentos nem grandes cenas de apelo dramático, onde Maria de Medeiros, que é uma grande atriz, possa expressar toda a dimensão de seu talento, mas vale ser visto.

Lembro muito dela bem jovem em "Henry & June", de Philip Kaufman, no papel da francesa Anais Nin, que fazia com Fred Ward (no papel do escritor Henry Miller) e Uma Thurman. Os três formavam um triângulo amoroso, vamos dizer assim...apimentado. Um filme pouco visto, mas muito bom, pelo que retenho na minha memória. Talvez não tenha alcançado a merecida repercussão porque a crítica norte-americana e o público dos EUA são excessivamente moralistas quanto a filmes que abordam a sexualidade por meio de uma visão amoral e não cristã, se é que vocês entendem o que eu quero dizer.

É isso. Gosto muito da De Medeiros. "O Contador de Histórias" vale, sobretudo por ela.

PROPAGANDA DE LULA

Tenho que admitir: "Lula-  o filho do Brasil", de Fábio Barreto, é apenas um disfarçado filme de propaganda do presidente da República. Verdade que é uma bem realizada propaganda, mas ainda assim um filme cujo único objetivo é promover a imagem já tão popular de Luís Inácio Lula da Silva, produzido não à custa de leis de incentivo fiscal como faz questão de mostrar os créditos do filme logo no início, mas viabilizado pelas contribuições de quase duas dezenas de empresas - estatais ou privadas - com claros interesses no governo atual.

Olha, é bem feitinho. Lembra até "Dois Filhos de Francisco". Dona Lindu, vivida com a competência de sempre por Glória Pires, faz as vezes do pai de Zezé de Camargo e Luciano no incentivo ao filho "batalhador", "honesto", "ético", que quer lutar por causas justas, enfim, um homem perfeito. Taí o enredo do filme. Uma mãe abnegada e dedicada ao filho que nasceu para ser um heroi. Não há mais o que dizer. Até aquelas partes, vamos dizer assim, menos nobres da biografia, como os concluios sindicais, o roteiro trata de dar uma tapeada, afinal, os fins justificam os meios...

E, claro, o tempo todo o filme faz questão de gritar que Lula, apesar de sindicalista e contrário ao regime militar, não é comunista. Não ficaria bem, para a imagem atual do presidente, aprofundar as relações que o sindicalismo brasileiro, sobretudo o de São Paulo, manteve com as forças de esquerda, inclusive os comunistas, durante os anos 1970.  A impressão que fica é a de que a esquerda em nada ajudou o atual presidente a ser o que é e chegar onde chegou. Quanta ingratidão!

Bom, se os fatos não são apresentados como são, tem-se apenas e tão somente um bem acabado filme institucional que pode até não ajudar o Lula presidente a fazer sua candidata tornar-se sua sucessora, mas certamente contribuirá e muito - e para sempre - para fazer campanha, qualquer que ele deseje daqui por diante. Lula está imortalizado pelo cinema.

Pensando bem, dizem que a Globo comprou os direitos, mas só vai exibir o filme em 2011. Hum, sei não, se for exibir ainda este ano em horário nobre, que boa ajuda ele pode dar para aquela senhora, não?

DALVA DE OLIVEIRA

Quase esquecia de comentar: grande atuação a de Adriana Esteves como Dalva de Oliveira na minissérie "Dalva e Herivelto - uma canção de amor", exibida na semana passada.

Assisti aos cinco episódios e acho que o caminho da teledramaturgia no Brasil são as minisséries e as séries de temporada, como nos EUA. As novelas devem permanecer, mas penso que já não têm mais o fôlego de antigamente. Nos EUA são exibidas pela manhã e à tarde e duram anos. Algumas já tem mais de 50 anos!

No Brasil, alega a Globo que a produção desses formatos é muito mais cara que a das telenovelas diárias.

Da faxineira que trabalha limpando meu apartamento - "o senhor viu ontem a dalva e o herivelto?", perguntava ela, até os funcionários da gráfica onde mandei imprimir os exemplares da minha tese, passando por meus pais, admiradores da cantora, todos só falavam disso. Taí um filão que a Globo deve explorar com mais frequência. Agora, deve exibir mais cedo, evidentemente.

Volto a Adriana. Fenomenal. Um assombro! Anos-luz à frente de Fábio Assunção. Certamente havia atores melhores para fazer o papel, inclusive com melhor adequação física, mas acredito que a Globo quis dar uma ajuda ao rapaz depois daquela fase ruim.

Fantástica produção. O último capítulo foi de longe o melhor: emocionante, como aliás merece toda telebiografia de um ícone da música popular.

MULTICULTURALISMO DE MERCADO EM AVATAR

Néstor García Canclini, sociólogo argentino-mexicano, chama de "multiculturalistas de mercado" aqueles cineastas hollywoodianos que produzem e dirigem filmes com conteúdo e narrativa reconhecíveis pelos públicos de qualquer país do mundo, ou seja, com ingredientes em quantidade e qualidade suficientes para tornar seus filmes "arrasa-quarteirões". Neste seleto grupo estão, obviamente, os nomes de Steven Spielberg e George Lucas, dois magos dos efeitos visuais e dos épicos grandiloquentes.

Canclini escreveu isso antes de James Cameron dar ao mundo "Titanic", que fez o diretor um recordista mundial em 1997; "the king of the world", segundo ele mesmo disse na festa de entrega do Oscar na qual seu filme saiu com uma penca de estatuetas, inclusive de melhor direção e filme. Agora, com "Avatar", ele pode definitivamente integrar o Olimpo dos deuses cineastas, se é que existe essa categoria lá no Olimpo. Enfim, ao produzir um filme de 400 milhões de dólares que se pagou em poucos dias, é possível dizer mesmo que ele é "o cara". Bom, pelo menos quando pensamos em cinema como indústria.

Cameron apresenta um discurso recheado de temas altamente relevantes na agenda mundial: defesa do meio ambiente, crítica à ganância humana, respeito aos diferentes etc. Tudo isso embalado em uma fantasia futurista (ano 2.154) e de ficção científica, qando o homem depois de haver devastado a terra e munido de tecnologia suficiente para tal resolve explorar de forma mercenária e destrutiva o planeta Pandora, rico em minério, mas habitado por humanóides, que vivem nas matas e árvores, convivendo com os bichos de seu planeta de forma pacífica, amistosa e entrosada. Enfim, o paraíso é Pandora.

Os mercenários, egressos das forças armadas norte-americanas, são os vilões dos filmes, literalmente, porque não representam nenhuma nação da Terra, mas se utilizam do conhecimento científico de pesquisadores bem intencionados que querem melhor conhecer a vida em Pandora. Os mercenários, claro, desejam apenas usá-los para depois descartá-los e invadir de vez o planeta, uma vez que já possuem por lá uma base.

Para isso, com o apoio da ciência, criam humanóides em laboratórios e através de um processo complexo no qual as mentes dos cientistas dão vida aos corpos dos falsos humanóides, estes adentram a vida "selvagem" do planeta e interagem com os verdadeiros humanóides de Pandora, como espiões, repassando depois informações preciosas aos mercenários. Por parte dos pesquisadores, é uma atitude um tantinho ingênua, não?

Não é preciso dizer que a cientista (Sigourney Weaver) e o mariner, veterano de guerra e deficiente físico com QI privilegiado (Sam Worthington) desempenham a tarefa, vamos dizer, com boa vontade, sem saber (?!) dos reais propósitos dos mercenários, sobretudo a cientista, uma vez que o militar tem uma promessa de recompensa de voltar a andar.

O filme é para ser visto em terceira dimensão. Assisti em versão normal, o que faz com que o espetáculo visual de direção de arte e efeitos visuais seja extremamente prejudicado, embora ainda assim conserve alguma beleza.  Sob o ponto de vista técnico, é uma produção perfeita, aliás, mais do que isso. Dizem por aí que o Cameron esperou muitos anos para fazer esse filme, ou para finalizá-lo, não sei, com vistas a apurar a qualidade da tecnologia 3D, tanto do ponto de vista da produção quanto da exibição nos cinemas.

Saudado por parte da crítica norte-americana como uma ficção científica em nível de um "2001 - uma odisséia no espaço", ou como uma grande obra cinematográfica que extrapola o nicho de mercado dos filmes do gênero ficção científica, devo dizer que há certo exagero nessas afirmações. Se produzido 20 ou 30 anos atrás, talvez fosse até possível afirmar isso. Afinal de contas, as referências culturais, políticas, econômicas, ambientais, postas no filme, ainda que ingênuas, seriam novidades, talvez até "vanguardas" em certo sentido. Atualmente, a mensagem é apenas "politicamente correta".

E aí retorno ao Canclini: Cameron sabe disso. Como bom multiculturalista de mercado, só põe suas mãos (e seu cérebro) para funcionar naquilo que vai causar grande impacto mercadológico no campo do cinema e da cultura popular. "Avatar" é o filme mais apropriado, sob essa perspectiva, ao tempo em que vivemos, ainda que seja uma ficção científica, ou quem sabe até por isso mesmo. Quer coisa mais modernosa e correta do que esse incrível discurso panteísta que o filme carrega? Deus está presente em todos os seres vivos, não importa se gente, fauna ou flora. As plateias estão adorando e Cameron faturando mais e mais.

TOP 10 E TOP 5 DE 2009

Durante o ano de 2009, acredito ter assistido menos de 40 filmes no cinema. Fiz uma contagem rápida dos comentários do blog e percebi que há 42 filmes comentados, mas alguns destes foram vistos em DVD. Assim, diante de tanta omissão como espectador - por justa razão, pois andava escrevendo aquela tese de 350 páginas que cinco pessoas vão ler - apresento a minha "tradicional" listinha de melhores do ano, muitíssimo prejudicada.

Para aumentar o meu leque de opções e escolha, considerei os filmes vistos em DVD, inclusive àqueles anteriores a 2009. Desta forma, não vou fazer a lista dos melhores de 2009, mas, apenas, "a lista dos filmes legais que vi em 2009": fica menos megalomaníaco e pretensioso de minha parte.

Então, aí está a relação dos estrangeiros (em ordem alfabética):

1. Abraços partidos (Pedro Almodóvar, Espanha, 2009)

2. Amantes (James Grey, EUA, 2008)

3. Apenas uma Vez (John Carney, Irlanda, 2006)

4. Bastardos Inglórios (Quentin Tarantino, EUA/Alemanha, 2009)

5. Um Conto de Natal (Arnaud Desplechin, França, 2008)

6. Frost / Nixon (Ron Howard, EUA/Inglaterra/França, 2008)

7. Há muito tempo que te amo (Philippe Claudel, França/Alemanha, 2008)

8. O Leitor (Stephen Daldry, EUA/Alemanha, 2008)

9. Quem quer ser um milionário? (Danny Boyle, Inglaterra, 2008)

10. O que você faria? (Marcelo Piñeyro, Argentina/Espanha/Itália, 2005)

Quanto aos brasileiros, destaco cinco (em ordem alfabética):

1. À Deriva (Heitor Dhalia, Brasil, 2009)

2. Estômago (Marcos Jorge, Brasil/Itália, 2007)

3. Nome Próprio (Murilo Salles, Brasil, 2007)

4. Se nada mais der certo (José Eduardo Belmonte, Brasil, 2008)

5. Simonal - ninguém sabe o duro que dei (Cláudio Manoel, Micael Borges, Calvito Leal, Brasil, 2009)

DAS PATRULHAS E DOS PRECONCEITOS

Além de tornar reconhecível a memória de um grande artista, penso que o grande mérito do documentário "Simonal - ninguém sabe o duro que dei", de Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal, é o de mostrar, de uma forma sutil, como as patrulhas ideológicas dos anos 1970-1980 eram brutais, cruéis e implacáveis, tanto quanto a ditadura, com aqueles que não rezavam por sua cartilha de esquerda.

Na primeira parte, o filme mostra sem sombra de dúvida o popularíssimo artista pop em que Simonal se transformou, com um tipo de musicalidade fortemente influenciado pelo suingue de rhythm and blues norte-americano e pelo samba, capaz de reger milhares de vozes que cantavam suas músicas em estádios lotados. Aborda também a personalidade narcísica e deslumbrada com riqueza e mulheres, provavelmente bem próprio de alguém que nasceu em condições sociais de miséria e alçou ao posto de cantor número um do país por um curto espaço de tempo.

Vitimidado pelo patrulhamento ideológico a partir de um mal explicado (na época, anos 1970) episódio envolvendo relações trabalhistas dele com o seu contador - Simonal teria mandado "dar uma prensa" nesse cidadão que, segundo ele, o estaria roubando. E quem teria feito o serviço seriam agentes do DOPS, espécie de polícia política da ditadura. A desgraça estava feita. O assunto viou manchete de jornal e revista, fazendo com que Simonal fosse chamado de dedo duro do regime militar.

Daí a patrulha agir foi um passinho de nada. O cantor virou um pária no meio artístico, ninguém o contratava para shows porque artistas não queriam trabalhar para ele e com ele, muito menos compartilhar o palco com alguém que, hipoteticamentente, seria dedo duro. O filme ouve as duas partes: os filhos Simoninha e Max de Castro, os amigos Chico Anýsio  e Luís Carlos Miéle e até os críticos como Sérgio Cabral, Ziraldo (do Pasquim, o jornal satírico que ajudou fortemente na campanha de difamação do cantor), mas também dá muito espaço para que o contador, ainda vivo, conte a sua versão. Assim, quanto a esse tal episódio, a coisa fica assim mais ou menos implícita: parece que o Simonal andou querendo mesmo assustar o seu empregado, que se defende longamente em seu depoimento, explicando que o cantor se enganou porque gastava muito dinheiro e não tinha controle sobre esses gastos. Então, os espectadores tirem suas conclusões.

Mas, isso não é o mais importante. O filme deixa claro que o se o homem Wilson Simonal falhou, o artista deveria permanecer, mas a onda ideológica que se formou identificando-o como informante da direita foi o suficiente para liquidar a carreira de Simonal. E pior: a varredura do seu nome da história da música brasileira dos últimos 30 anos.

Ao final, sabe-se que ele passou os 20 últimos anos de sua vida tentando provar que não era dedo duro do regime militar e que teria sido vítima de uma campanha nacional, orquestrada em boa parte pela esquerda raivosa e pelos preconceituosos de plantão que não suportavam a proeminência de um negro como artista consagrado pelo público, rico e falastrão. Pelo menos, agora, com esse documentário, abre-se a possibilidade de, pelo menos, redimir a figura artística do homem Wilson Simonal.

DISCURSO FORÇADO

Penso que quando decidiu realizar "Do começo ao fim", a partir de um roteiro original seu, o diretor Aluizio Abranches tomou uma atitude política, até corajosa, ao abordar o caso de amor entre dois irmãos - na verdade, meio-irmãos - do mesmo sexo. Digo isso porque a relação mostrada na tela aparece contextualizada em uma improvável "realidade". Afinal, que sociedade (família e outras instituições) é essa que aparece no filme, que não apenas tolera como aceita, não fazendo qualquer restrição, ao caso dos dois?

A relação entre Thomás e Francisco é vivenciada e vista com tanta naturalidade, que a resposta só pode ser essa: Abranches pretendeu afirmar que aquele sentimento que unia os dois irmãos é perfeitamente natural. Mas, os problemas aparecem logo daí.

Se a atitude política, afirmativa, em prol de uma causa, era o propósito, colocada dessa maneira, isso praticamente inviabilizou o filme como obra de dramaturgia que fala de sentimentos humanos, pois como é possível viver essa experiência, teoricamente, duplamente proibida (incesto, homossexualidade)sem experimentar sentimentos como rejeição, dor e sofrimento?

Nada disso está posto no filme. A única "ameaça" social que paira sobre o casal é que, ainda crianças, sua mãe (a sempre competente Júlia Lemmertz) e o pai do irmão mais velho questiona, em momentos diferentes, tanta proximidade entre os dois, mas não o suficiente para evitar que ela progrida e se transforme em uma relação amorosa. Curiosamente, tanto um quanto outro morrem na metade do filme, deixando o caminho livre. 

Dessa forma, "Do começo ao fim" é uma história sobre uma forma de amor não convencional tratada de forma banal, cujo plot dramático supermanjado é a separação dos amantes (um deles vai morar na Rússia por motivos profissionais) e o outro, contraditória e propositadamente, põe à prova suas preferências, tentando namorar uma mulher, inclusive escondendo dela a natureza de sua relação com o irmão.

Pera aí, deixa ver se eu entendi: o pai do irmão mais novo, vivido por Fábio Assunção, sabe de tudo, aceita, torce pelos dois, e o mais velho não tem coragem de contar para a sua ficante que, na verdade, ele namora seu próprio irmão, que está longe, do outro lado do mundo. É este o conflito?!

Parece-me que a tentativa de naturalização de algo socialmente reprovável pagou um preço alto: o filme é desprovido de coerência, restando apenas ser observado como discurso político, forçado e apologético, que não traz qualquer contribuição para a discussão de uma temática tão dura e difícil quanto a que propõe.

JENNIFER JONES E O FILME-CATÁSTROFE

Por coincidência fui assistir a "2012" no dia em que morreu a lendária atriz de Hollywood Jennifer Jones aos 90 anos, cujo último filme foi exatamente um "disaster movie", subgênero de filme que no Brasil era chamado de "cinema catástrofe". Coisa dos anos 1970, quando superproduções como "O Destino do Poseidon" e "Terramoto" faziam grandes bilheterias e ganhavam prêmios de efeitos no Oscar.

Jones era um dos mais perfeitos símbolos da velha Hollywood que não mais existe: aquela dos grandes estúdios de cinema, quando os atores eram empregados remunerados e, dependendendo de seu status, eram capazes de oscilar de posição na escala de prestígio da empresa em função do resultado de seus filmes nas bilheterias do cinema. Se o filme estrelado por ele ou ela ia bem, seu salário aumentava e bons papéis em filmes de produção classe A eram oferecidos. Se os filmes iam mal, via-se obrigado a atuar em filmes menores ou seu contrato não era renovado.

Grandes nomes de Hollywood já foram considerados em uma ou outra época como "veneno de bilheteria", como Joan Crawford, Bette Davis ou Katharine Hepburn, para citar apenas três divas. Esse era o estigma, Mas, Jennifer Jones, talvez por ser casada com o big boss David O. Selznick, produtor de "E o Vento Levou", fazia parte de uma seleta linhagem da realeza hollywoodiana.

Para a atriz era destinado material de qualidade com grandes personagens em filmes de categoria, o que muito cedo a transformou em estrela de primeira grandeza, ganhadora do Oscar em seu quarto filme, "A canção de Bernadete", o primeiro como estrela principal. Depos fez "Desde que tu partiste", "Love Letters", "Duelo ao Sol", "O retrato de Jennie", "Madame Bovary", entre outros, até fazer o último sucesso de público, "Suplício de uma saudade / Love is a many splendored thing" (1955), que só pelo título - em português ou inglês - dá a dimensão do que foi em popularidade.

Aliás, Joan Crawford, irônica como ela só, costumava afirmar que a vida era muito fácil também para Norma Shearer, atriz dos anos 1920-1930, porque "afinal, ela dorme toda noite com o patrão", referindo-se ao fato de que a atriz era casada com outro grande magnata de Hollywood, Irving Thalberg, e assim conseguia igualmente os melhores papéis. A brincadeira, embora não fosse com Jennifer Jones, também poderia a ela ser endereçada.

Eu queria falar da Jennifer para fazer um link com "2012". A atriz fez apenas um total de 27 filmes, entre 1939 e 1974, quando, pela última vez, atuou em "Inferno na Torre", outro "filme catástrofe" (1974)contracenando com Fred Astaire e compondo um elenco estelar comandado por Paul Newman e Steve McQueen. Ela era um dos mais fortes símbolos da velha Hollywood porque em 35 anos de carreira jamais atuou em outra coisa que não o cinema, ou seja, nunca fez qualquer telefilme para sobreviver como atriz quando sua carreira no cinema começou a declinar.

Carreira em declínio para atrizes em Hollywood acontece quando elas passam dos 40 anos. Assim, em 1962, com 43 anos de idade, fez seu último grande filme, "Suave é a noite". Depois, apenas mais dois títulos obscuros, até sua última aparição em "Inferno na Torre". Aparição fugaz, personagem bem coadjuvante, com pouquíssimas cenas, quase uma figuração de luxo. Ela deve ter pensado: "é aqui que eu encerro, em grande estilo".

Chegou até a ser indicada para o Globo de Ouro pelo papel. Depois disso, lembro de tê-la visto apresentado o Oscar de fotografia, em 1986, ganho por Chris Memges, de "A missão", já com 68 anos, aparentando estar com parkinson ou uma doença qualquer assemelhada porque visivelmente tremia muito ao anunciar o prêmio. Depois, apareceu por duas vezes em cerimônias do Oscar, no quadro "vencedores do passado", onde não falava e sua imagem surgia em poucos segundos, para se recolher definitivamente.

Finalmente chego a "2012". Tenho de dizer: que saudade dos filmes catástrofes de minha infância, quando os efeitos eram "especiais" e não "visuais", ou seja, eram desenvolvidos pela munheca dos engenheiros e técnicos do setor. Nada de computação gráfica e todas essas coisas derivadas da alta tecnologia. Eram maquetes e coisinhas assim "banais", mas que rendiam um efeito visual de primeira. Pelo menos para a época em que eram feitos.

Outra coisa: havia uma história, mínima que fosse. O roteiro dava chance para que os atores representassem personagens. Enfim, havia conflito humano em meio à tragédia. Outro dia na TV, assistia a uma sequência de ação de "O Destino do Poseidon", o original, com Gene Hackman tentando ajudar os passageiros do navio a passar de um para outro compartimento à medida em que esses eram inundados pela água. Incrível! Era ação, ação física, mas havia lá um drama real, uma coisa que prendia a respiração, inquietava: será que eles vão conseguir passar? Uma gorda Shelley Winters (fantástica!) ameaçava não conseguir...

Em "2012" não há nada disso. Apenas uma sucessão de efeitos visuais virtuais, editados em ritmo de videoclipe da MTV, personagens e atuações lamentáveis; uma nulidade absoluta. Três horas de tédio que só melhoram ligeiramente quando, ao final, surgem aquelas monumentais arcas a serem ancoradas no pico do Himalaia, no derradeiro momento da hecatombe planetária. Mas, afinal de contas o que a profecia maia tem a ver com tudo aquilo, o alinhamento de planetas e o superaquecimento do núcleo da terra e o consequente afrouxamento da crosta terrestre?

A impressão que eu tenho é que a tecnologia no cinema chegou a um patamar tal, que parece não ser mais necessário nada além dela. Os filmes narrativos do tipo blockbuster não carecem mais de enredo, de personagens, de dramas humanos e, sobretudo, de explicações minimamente lógicas sobre como e o por quê de tudo aquilo está acontecendo. O importante é fazer o espectador se deslumbrar com a imagem, ainda que nem sequer dê tempo para que ele observe o que está acontecendo.

Para não dizer que nada presta no filme, é necessário fazer alguma justiça: finalmente, em um filme hollywoodiano eles acertaram: o Rio de Janeiro fica realmente no Brasil; aqui de fato se fala português com sotaque brasileiro e a televisão que noticia o fim do mundo no Brasil é a Globo News...

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BRASIL, Nordeste, RECIFE, Jornalista (DRT-PE 1.725), Homem, Doutorando em Sociologia e Mestre em comunicação